Pandemia, organização e política social

“O responsável nacional pela vacinação tem dito nas televisões que podemos ficar em casa descansados que seremos avisados por SMS do dia, hora e local de vacinação. Nenhum português no seu juízo acreditará nesta afirmação”

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A realidade de a pandemia ser mais grave em Portugal do que em muitos outros países, nomeadamente europeus, não é um acaso, tem causas objectivas: ausência de organização do Estado e políticas económicas e sociais erradas. Mas vamos por partes.

Pandemia

Como escrevi antes, a incapacidade de previsão tornou-se mais grave porque temos níveis de organização e de disciplina muito baixos no Estado. Não tenho dados, mas a aparente ausência de surtos nas grandes e médias empresas industriais deve resultar da sua maior organização e disciplina. O inverso é verdadeiro nos lares, que são organizações muito pequenas que sobrevivem num clima de grande informalidade e pouca ou nenhuma organização. A idade das pessoas é a causa de mais mortes, mas não é a origem das infecções. 

Nos últimos dias, quando se tornou visível a enorme confusão existente, com centenas de doentes a viajarem de hospital para hospital, com as famílias a não saberem o seu destino, ou as longas filas de ambulâncias à porta dos hospitais, os comentadores descobriram o óbvio: por que raio não existe um comando centralizado e qual a razão por que mandam para as filas dos hospitais doentes sem gravidade, ou que não necessitam de uma medicina especializada? Que o Ministério da Saúde não tenha descoberto isso antes, só será uma surpresa para quem não conhecer o que a casa gasta.

Com a vacinação passa-se o mesmo e, aparentemente, não passa pela cabeça dos responsáveis que a boa execução precisa de bons sistemas de informação e de disciplina individual e colectiva, duas condições inexistentes entre nós. Por exemplo, existem milhares de cidadãos que, como eu, não existem para o SNS, e mesmo para os que existem não há disponível a totalidade da informação necessária. Nestas circunstâncias, as instruções deveriam ser claras e nunca excessivamente amplas, ou demasiado complexas, como está a acontecer, o que deixa uma grande margem ao arbítrio de cada funcionário. A idade é um critério facilmente demonstrável e poderia ter sido o critério principal em cada uma das categorias criadas, primeiro os médicos, depois os enfermeiros e depois os restantes profissionais dos sectores público e privado. Só depois se deveria avançar para os lares e assim sucessivamente, abrangendo os utentes e o pessoal em contacto diário com os idosos. Não adianta anunciar outras categorias a vacinar antes de tempo, como aconteceu.

O responsável nacional pela vacinação, Francisco Ramos, tem dito nas televisões que podemos ficar em casa descansados que seremos avisados por SMS do dia, hora e local de vacinação. Ora nenhum português no seu juízo acreditará nesta afirmação, que seria válida se existisse um sistema informático nacional com a totalidade dos números de telefone de todos os portugueses e as moradas certas, sistema que obviamente não existe, nem foi criado com este fim. Poderia e deveria ter sido uma tarefa do Verão passado, com base nos diferentes sistemas existentes, mas não foi.  

Os abusos já registados eram por isso perfeitamente previsíveis, como é previsível que passem sem qualquer penalização. São o resultado do amiguismo que o PS instituiu na sociedade portuguesa e da impunidade geral a que o sistema político nos habituou. O que, neste caso, é facilitado pelo excesso de informação não contextualizada e sem os recursos de um bom sistema informático. O que não implica deixar de avançar depressa com a vacinação, mas isso deve ser feito de forma tão segmentada quanto possível, de forma a aprender com os erros e a proceder rapidamente à sua correcção e respectiva penalização que, nas actuais circunstâncias, seria a pedagogia necessária. Com sistemas de informação mais robustos, a estratégia seria diferente e as penalizações resultariam meramente do saldo entre os legais e os ilegais em tempo real.

Como se pode compreender, não existe uma única lista dos portugueses a vacinar dividida pelas diferentes categorias das prioridades anunciadas e, assim sendo, como se compreende o aparente optimismo das autoridades de que estamos no melhor dos mundos e de que tudo vai correr pelo melhor? Uma explicação: a ignorância gera a confiança e a confiança gera a asneira.  

Estava escrito nas estrelas que os comentadores de serviço acabariam por descobrir que os políticos fazem muita falta ao País nas actuais circunstâncias e se criaria um debate inútil sobre a prioridade da sua vacinação independentemente da idade. Claro que os políticos, com a possível excepção de meia dúzia no topo do Estado, não fazem nenhuma falta ao País e seria uma bênção que não estorvassem como se tem visto. Ao contrário, deveriam ser os últimos a serem vacinados, para dar o exemplo de, por uma vez, se preocuparem com os cidadãos que dizem representar. Veja-se que os profissionais, como a Ordem dos Médicos e a Ordem dos Enfermeiros, não são chamados para nada, ou são chamados apenas pelas televisões. 

Política social

Ao longo dos últimos vinte e cinco anos o PS acredita ser o partido campeão das políticas sociais e que os portugueses lhe devem estar agradecidos por terem um dos mais baixos rendimentos per capita da União Europeia. De facto, durante estes anos, o que o PS fez foi criar milhões de portugueses mais dependentes do Estado e mais incapazes de cuidarem de si e das suas famílias. Seja porque o Estado não lhes fornece a educação adequada, nem as competências necessárias, nem a disciplina de pensamento e de acção de outros povos. Ao contrário, o PS, ao enganar os portugueses e ao prometer o que não lhes pode dar, retira-lhes o necessário sentido de orientação e as energias necessárias a uma sobrevivência saudável e autónoma.

Acresce que o PS, ao reduzir a exigência no sistema de ensino e ao iludir os portugueses sobre qualidade da sua educação, reduz a sua capacidade de obter empregos com remunerações compensadoras e criou um sistema de remuneração social que concorre com os empregos existentes. Por outro lado, ao não investir nos objectivos certos e ao não concorrer para o crescimento da economia privada, o Estado reduz a quantidade e a qualidade dos empregos disponíveis com melhores remunerações.

Ou seja, ao longo do último quarto de século, o PS e os seus governos, agora com a ajuda da geringonça, sob a capa da solidariedade com os pobres e os deserdados, criou cada vez mais pobres e deserdados sem os instrumentos necessários para lutarem pela sua sobrevivência.

Dito isto, é evidente que em qualquer país moderno e civilizado o Estado deve ter bons sistemas de segurança social para as crianças, para os idosos, reformados ou não reformados, para a doença, mas ao sustentar todos e ao sustentar-se a si próprio, o PS conseguiu generalizar a pobreza. Falta agora apenas acabar com os ricos de fora do castelo, para ter então finalmente completado a sua obra. Ao proibir o ensino à distância nos colégios privados, o PS deu um passo de gigante nessa direcção. ■