Do snobismo político ao desprezo em relação aos nossos emigrantes

0
168

Foi decerto impressionante – um Presidente da República ter sido eleito, pela primeira vez na nossa história, com a maioria efectiva de votos em todos os concelhos do país. E mesmo tendo em conta o contexto de pandemia que atravessamos, em que Marcelo Rebelo de Sousa terá sido, muito provavelmente, o candidato mais prejudicado. 

Bem sabemos que, na “opinião publicada”, esse não será um facto muito valorizado. Há um paradoxal “snobismo político” em relação a Marcelo Rebelo de Sousa, como se, num regime democrático, ser “popular” fosse à partida suspeito e até contraproducente… Será um genuíno elitismo ou, tão-só, uma inconfessada inveja? 

O crescente fosso entre a “opinião pública” e “publicada” foi, de resto, patente ao longo de toda a campanha – mas isso já não nos surpreende, de todo. O que nos continua a surpreender é o desprezo – não há outro termo – em relação à nossa comunidade emigrada, uma vez mais impedida, de facto, de exercer o seu direito de voto. Havendo quase um milhão e meio de portugueses habilitados para o fazer, nem três dezenas de milhares o fizeram, tais as dificuldades levantadas.

Paradoxal país, este. Quando não há eleições, torna-se voz corrente proclamar que Portugal é muito mais, muito maior, do que a população que no país habita. Quando há eleições, porém, impedimos esse Portugal não confinado ao nosso território de fazer ouvir a sua voz através do voto. Isto num tempo em que, por via das novas tecnologias, a comunicação se torna infinitamente mais fácil.

Se há, de resto, eleição em que esse voto faz todo o sentido é a Presidencial. A voz do Presidente da República será tanto mais forte quanto mais emanar do voto de todos os portugueses, vivam eles onde viverem… Não que isso afecte, neste caso, a voz de Marcelo Rebelo de Sousa, que, estamos certos, continuará a promover essa ligação – não só, aliás, com as comunidades emigradas e lusodescendentes, mas também com todos os restantes povos de língua portuguesa. Mas é imperiosa uma mudança nas leis eleitorais: os nossos emigrantes não podem continuar sem poder votar no seu maior representante político. ■