São as crianças, estúpido

0
252

Se alguém perguntar ao primeiro-ministro António Costa se pretende transformar o País e melhorar a vida dos portugueses, aposto que dirá que sim e que trabalha diariamente para esse fim. Se alguém perguntar o mesmo a Joe Biden, Presidente dos Estados Unidos, acerca do seu país, estou certo de que responderá o mesmo. Se a mesma pergunta for colocada a Ângela Merkel da Alemanha, a Putin da Rússia e a Xi Jinping da China não dirão coisas muito diferentes acerca do que pretendem para os seus cidadãos. Até mesmo o chefe dos talibans acabado de chegar ao Afeganistão terá uma resposta semelhante.

António Guterres, que tem sob os seus ombros a responsabilidade do futuro de toda a humanidade, responderia certamente que o seu objectivo nas Nações Unidas é transformar o planeta num mundo melhor para todos. Ninguém duvida. Mas, se de seguida perguntarmos a cada um dos líderes mundiais como pretendem conseguir esse objectivo, estou certo de que as respostas serão não apenas diferentes, mas contraditórias, cada um terá as suas próprias ideias.

Assim sendo, a pergunta óbvia é qual a razão por que num planeta tão avançado no conhecimento e na ciência, detentor das tecnologias mais modernas, ainda não se sabe o que fazer para melhorar a vida dos cidadãos e ainda não se chegou a acordo sobre o que pode ser feito para atingir um objectivo que todos os líderes mundiais dizem prosseguir sem sucesso, ou com um sucesso muito limitado. Pior, segundo muitos observadores, estaremos à beira de colocar em risco a nossa própria existência.

Aqui chegados, parece ser óbvio que os líderes mundiais e as Nações Unidas têm de se entender e fazer um esfoço em dois sentidos: (a) reduzir o número de medidas dos seus programas de governo e passarem a procurar definir a medida que tenha o poder suficiente de criar as condições de desenvolvimento de um mundo novo; (b) colocarem-se de acordo sobre qual poderá ser essa medida.

Dir-se-á que esta posição é utópica. Pois que seja, pois não foi isso que aconteceu com todos os grandes avanços civilizacionais até hoje? Pois não houve sempre alguém que lançou uma reivindicação irrealista e utópica, que depois avançou, por vezes demorando séculos, até essa decisão acabar por ser adoptada universalmente? Por exemplo, o fim da escravatura não foi uma reivindicação que se desenvolveu ao longo de muitos anos e que hoje nos parece indiscutível? E não vos parece absurdo que neste tempo de grandes avanços sociais, científicos e tecnológicos, em que os homens aspiram a dominar o espaço, não saibamos definir o que é que pode provocar a grande mudança virtuosa no nosso planeta?

Pessoalmente não fujo a responder à pergunta, acredito que a grande mudança do mundo em que vivemos é conhecida desde sempre e reside na educação, desde logo das crianças, porque será a partir das crianças de hoje que mudaremos o amanhã. A solução reside no acesso a um modelo de educação diferente do existente, para todas as crianças de todos os países, através de creches e do pré-escolar de qualidade, com alimentação e transporte. Uma educação em liberdade, que em todos os graus do ensino não se limite a transmitir conhecimentos como hoje acontece, mas também, com igual dignidade, a transmitir valores, formar comportamentos e desenvolver competências. Uma nova educação para um novo mundo e para o tal homem novo que o marxismo idealizou, mas a quem roubou o elemento principal: a liberdade. Porque o homem novo será um homem livre e responsável, que conhece os limites dessa liberdade.

Sem mudarmos o homem não conseguiremos mudar o meio em que vivemos. Com a ignorância e a pobreza não se acaba com as ditaduras, com a venda de armas e com os paraísos fiscais, nem colocaremos a ciência, as tecnologias e os recursos do planeta ao serviço dos povos. Em que o fim a atingir pelo homem novo, livre e responsável, é a construção de um mundo de felicidade baseada em equilíbrios virtuosos.

É errado pensar que este mundo novo é uma utopia irrealizável. De facto, já avançamos muito nessa direcção, os povos nórdicos estão mais próximos do que muitos outros povos. Do outro lado da escala, teremos o islamismo e sabemos por experiência as desgraças provocadas pela ligação da religião ao Estado, já por lá passámos. O islamismo e o terrorismo são os maiores obstáculos a uma mudança inteligente do planeta no sentido de um desenvolvimento consentido, pela desorganização que provocam em todo o mundo. A destruição das armas na posse dos terroristas e a proibição mundial da sua venda é essencial a curto prazo. A educação e o fim da pobreza são a resposta adequada para construir o futuro.

As propostas contidas em duas moções que apresentámos nos XXI e XXII congressos do PS há vinte anos – “Portugal Primeiro” e “Pensar Portugal” – tinham como fim financiar a educação e a saúde nos países subdesenvolvidos nas suas próprias terras, porque as migrações, já então previsíveis, são um problema e não a solução. Escrevemos então: “Nesse sentido, uma segunda reivindicação das forças do progresso global deve conter uma transferência global de recursos dos países desenvolvidos do Norte para os países pobres do Sul, recursos a serem geridos nesses países pelas Nações Unidas e destinados apenas à educação e à saúde, através, por exemplo, de uma taxa de 1% sobre todo o consumo de bens e de serviços dos países desenvolvidos, valor acrescido de 1% sobre as importações oriundas dos países em vias de desenvolvimento”.

“Tratava-se de algo semelhante à taxa Tobin, mas numa versão muito mais ambiciosa e acreditamos mais realista, na medida em que sendo mais universal, envolverá também os sectores da sociedade mais progressivos e mais solidários, isto é, permite que esses sectores se coloquem na primeira linha da solidariedade com as populações mais pobres do globo. Por outro lado, ao entregar a gestão dos programas de apoio às Nações Unidas e ao dirigir esse apoio para a educação e a saúde, haverá melhores condições para evitar a corrupção local e o desvio desses fundos para outros objectivos, mais ou menos obscuros, em que os governos são férteis”.

Terminámos a proposta da seguinte forma: “Em resumo, acreditamos que a globalização, como fenómeno de mudança, pode ser aproveitada pelas forças do progresso para forçar um grande salto qualitativo, no sentido de uma sociedade humana globalmente mais livre, mais pacífica e mais justa. É tempo de as sociedades mais ricas ultrapassarem a fase das boas intenções e de contestação e passarem aos actos, mostrando as reais intenções dos homens de boa vontade, nomeadamente através da demonstração, para além de qualquer dúvida, de que o processo de globalização implica o progresso e a justiça social para todos os povos do mundo”.

Que António Guterres, então Secretário-Geral do PS, a quem este apelo foi dirigido com o fim de ser apresentado à Internacional Socialista, de que ele foi presidente, seja hoje o Secretário-Geral das Nações Unidas, representa uma ironia do destino, porque se pretendia com as propostas então feitas que o financiamento das Nações Unidas resultasse da taxa proposta, paga pelos cidadãos de todo o mundo e não pelos Estados, como agora acontece.

É irónico, também, que seja ainda António Guterres que tem hoje as melhores condições e a responsabilidade de escolher o melhor caminho destinado a resolver os graves problemas existentes no mundo em que vivemos. ■