Deste que iniciei esta coluna, o meu objectivo foi estabelecer com os leitores uma relação baseada na clarificação do meu pensamento relativamente às principais causas do empobrecimento do País, causas essencialmente resultantes dos erros cometidos pelos governos ao longo de mais de trinta anos e pela ausência de uma estratégia nacional para o progresso e para o desenvolvimento de Portugal.

Ao mesmo tempo, tentei resumir as linhas estratégicas alternativas que defendo em algumas áreas essenciais como a economia, a logística e o crescimento económico, com o objectivo de afirmar que essas alternativas existiam, mas que, infelizmente, não foram usadas.

Agora, a nova questão que proponho aos leitores é a de saber porque foi assim, ou seja, qual a razão por que ao longo dos últimos trinta anos não corrigimos o rumo e porque persistimos nos mesmos erros, apesar da alternância democrática ser suposta permitir políticas diferenciadas, o que não aconteceu.

Por exemplo, a dívida pública, que foi deixada crescer ao longo de todos os governos, mostra uma assustadora continuidade no erro entre todos os partidos, nomeadamente porque a dívida não resultou em investimentos produtivos conducentes à criação de riqueza, como a estagnação da economia mostra de forma irrecusável.

A minha explicação para este fenómeno é simples e convido os leitores, se for caso disso, a discordar:

– o funcionamento do sistema político, baseado em partidos que detêm o poder de controlar a participação política dos cidadãos através da escolha dos candidatos a apresentar ao voto, em particular para a Assembleia da República, impediu o funcionamento livre do processo democrático e permitiu colocar os interesses dos partidos e dos grupos sociais seus amigos à frente do interesse geral da Nação.

Porque se tivessem estado na Assembleia da República cidadãos livres, verdadeiros representantes do povo português, escrutinados um a um pelos eleitores na mesa de voto, nunca teria sido possível a falta de controlo político do Parlamento sobre os governos.

Isto é, uma democracia defeituosa criou um País altamente disfuncional.

Esta não será a única razão, há outras, mas é esta razão a que mais facilmente permitiu a promiscuidade entre a actividade política partidária e os negócios, o crescimento sem controlo da corrupção, a menorização do funcionamento da justiça, a inoperância da regulação económica e a partidarização da administração pública, o que tornou os partidos políticos numa muito eficiente agência de empregos bem remunerados. Tendo-se mesmo chegado ao extremo de algumas grandes empresas privadas serem criadores de empregos para políticos na reserva, na expectativa do respectivo pagamento pelo Estado em favores, subsídios e compensações diversas.

Trata-se de uma fase avançada de corrupção do sistema político, na medida em que não é punível pela lei.

Diferentemente de outros países, com sistemas políticos e eleitorais verdadeiramente democráticos, países que, como a Irlanda, progridem e desenvolvem economias com sucesso e uma vida melhor para os seus cidadãos, os partidos políticos portugueses e os seus governos criaram, ao longo dos últimos trinta anos, um País disfuncional, com problemas tão graves, tão vastos e tão diversos, que justificam a refundação do processo democrático. O que, sintomaticamente, todos os partidos, repito, todos os partidos sem excepção, se têm recusado a admitir.

Claro que entretanto os portugueses são livres de continuar a pensar que o seu partido é melhor do que os outros e que os problemas do País se devem aos outros partidos, que não ao seu.

Poder, podem; todavia, será bom recordar que os maus resultados de trinta anos de má governação têm o dedo de todos os partidos políticos portugueses que, nos governos ou na oposição, conduziram o País ao empobrecimento e à dependência.

Acrescento mais: sem a refundação democrática que proponho, lamento afirmar que a situação futura dos portugueses apenas pode piorar.

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