TAP e vacinação: dois planos e a mesma realidade

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O Governo de António Costa falha em tudo que envolva o funcionamento de organizações, seja nos organismos do Estado, seja nas empresas dependentes do Estado. Neste texto dou dois exemplos: o Serviço Nacional de Saúde (SNS) com o seu plano de vacinação e a TAP.

O chamado plano de vacinação foi dado a conhecer ao mesmo tempo que se começa a conhecer o plano do Governo para a recuperação da TAP. Em ambos os casos, pelo que se sabe, deixam muito a desejar e a probabilidade é que de ambos resulte asneira. São planos próprios de regimes de planeamento centralizado, semelhantes aos de Salazar, com a diferença de que esses eram feitos por técnicos competentes.

O plano para a vacinação iniciou-se com a sua apresentação, feita por várias pessoas pertencentes a várias instituições, o que não é um bom princípio, em que todos falaram demasiado e informaram muito pouco, mas com algo em comum: o aviso repetido de que existem muitos imponderáveis, sem os definir e avaliar, que é a fórmula habitual de salvar a pele dos intervenientes.

Pessoalmente, não aprecio os modelos centralizados de organização, à boa maneira soviética, porque quando alguma coisa falha, tudo falha. Por outro lado, não vejo a razão por que os profissionais do sector da saúde não podem ser vacinados nos hospitais, centros de saúde e clínicas onde trabalham, os militares nas suas próprias instituições de saúde e os idosos internados em lares, hospitais e outras instituições vacinados nos seus próprios locais. Ou seja, parece-me bastante mais fácil levar as vacinas aos locais de vacinação do que as pessoas.

Entretanto, sabemos que é necessário um bom controlo centralizado das pes-
soas a serem vacinadas em cada fase, com o currículo individual das suas maleitas, mas é para isso que servem os computadores a funcionar em rede, automaticamente, ou até, se necessário, através de mails em ambos os sentidos, entre a periferia e o centro.

Com base no que já se conhece, fiz algumas contas que mostram que o Governo segue uma via conservadora de proceder à vacinação, que é muito mais lenta do que seria possível e desejável, sabendo-se que morrem por dia em média 60 pessoas sem vacinação. As contas que fiz e que podem ser feitas por qualquer pessoa, revelam o seguinte:

Na primeira fase está previsto vacinar 950.000 portugueses em Janeiro, Fevereiro e Março, cerca de 90 dias, incluindo Sábados e Domingos, digo eu. Ou seja, 1.900.000 vacinas, dado serem necessárias duas vacinas por cada pessoa. Feitas as contas, havendo 1.200 postos de vacinação do SNS, cada posto vacinará em média 1.585 utentes, ou seja, 18 actos de vacinação por dia, assumindo apenas um profissional, o que em oito horas diárias dará apenas 2,25 vacinas por hora, o que pela minha experiência de vacinado me parece francamente pouco. 

Sabendo todos nós que a vacinação pode evitar muitas mortes e permitirá recuperar a economia, são razões por que não vejo que esta primeira fase não possa ser terminada num mês, supondo que haverá o suficiente número de vacinas disponíveis. Mas mais, se paralelamente ao SNS o Governo usar as cerca de 2.900 farmácias existentes em Portugal, esse tempo poderá ser substancialmente reduzido.

Em resumo, como sempre, o Governo não está a primar por ter um plano de vacinação devidamente organizado que sirva os portugueses, nomeadamente num caso em que está em causa a vida e a morte de pessoas.

No caso da TAP parece ser ainda mais evidente a incapacidade do Governo de lidar, neste caso, com as empresas. Depois da privatização, em que a responsabilidade sobre o futuro da empresa era dos privados, António Costa não descansou, com a ajuda dos outros dois partidos da geringonça, enquanto não passou essa responsabilidade para o Estado, apesar de manter um accionista privado português que, aparentemente, não assume qualquer responsabilidade financeira. Um caso único.

O Estado assumiu com a nacionalização da TAP todo o elevado passivo da empresa e mais uma compensação ao accionista principal de cerca de 300 milhões de euros. Depois o ministro Pedro Nuno Santos, um ideólogo de mãos largas, disse primeiro que seriam precisos mais 400 milhões, os quais rapidamente cresceram para 1.200 milhões durante o ano de 2020. De seguida, o Orçamento do Estado para 2021 já prevê mais 500 milhões e os especialistas afirmam que é pouco e falam em 1.000 milhões. Depois, em 2022 e 2023 logo se verá, sendo que os sindicatos da empresa falam em 4.000 milhões. 

Na opinião pública mais bem informada existe a opinião de que a TAP será um sorvedouro de dinheiro público, por várias razões:

1. O Estado não sabe administrar empresas e a própria TAP é sobre isso um bom exemplo, com muitos anos de prejuízos acumulados. Mas se fosse a CP, o Metro, a Transtejo, a Sata, a cena seria a mesma.

2. O ministro Pedro Nuno Santos não sabe bem no que se meteu e não faz ideia de como resolver o problema da TAP, tanto em relação a Portugal como em relação a Bruxelas, de onde, estou certo, não virão boas notícias.

3. Sabendo-se desde o ano passado que é necessária uma profunda restruturação da TAP, para adaptar a empresa ao mercado em crise, além dos erros da nacionalização, o que implica reduzir a sua dimensão, já passou um ano e de restruturação nada, para além de vários discursos e de algumas entrevistas do ministro, plenas de ideologia. Ou seja, perdeu-se mais um ano a acumular mais prejuízos.

4. Entretanto o pior estava para vir porque, como qualquer empresário bem sabe, numa restruturação bem-sucedida é essencial unir e motivar os trabalhadores, a fim de criar a unidade necessária para a acção e para justificar os sacrifícios previsíveis, em presença do perigo de falência da empresa. Teria por isso sido importante, desde o início, manter os trabalhadores informados da real situação da empresa, conhecedores dos objectivos para o futuro e do tempo previsto para a recuperação, a fim de criar o necessário clima de confiança e de apoio, nomeadamente respeitando e debatendo as opiniões e as sugestões dos trabalhadores. Infelizmente, aos trabalhadores foi apenas comunicado, tarde e a más horas, o que o Governo já tinha decidido, o que representa um passo importante para o desastre.

Acontece ainda que a Administração da empresa não merece a confiança dos trabalhadores, até por ser provisória, que o plano de recuperação foi feito através dos habituais consultores, os quais nunca têm qualquer responsabilidade pelo que dizem e que, por isso mesmo, também não merecem grande credibilidade junto dos trabalhadores e da opinião pública. Finalmente, o chamado plano vai agora para Bruxelas, onde rapidamente se aperceberão do amadorismo e da ausência de conhecimento da empresa e do sector, sendo de esperar uma má decisão. Veremos o que acontece depois, quando o Governo, depois de ter nacionalizado a empresa sem ouvir ninguém, tentará passar a batata quente ao PSD, cuja única alternativa será defender a privatização sem alternativas, que não seja definir o modelo do futuro da TAP privada.

Infelizmente, depois das asneiras feitas, dificilmente o Governo contará com a convicção dos trabalhadores sobre a validade do plano, ou com o apoio da opinião pública portuguesa para a defesa da empresa, sabendo-se bem de mais que o Governo se meteu, mais uma vez, a fazer o que não sabe.

Em resumo, o que é válido com estes dois exemplos, é válido para a generalidade da governação de António Costa, em que a mera esperteza não chega para avaliar os negócios em que o Estado se mete, ou para gerir as empresas por que é responsável. Basta olhar para os prejuízos monstros de todas as empresas de transportes, ou para todos os negócios em que os governos do PS se meteram. 

José Sócrates e António Costa, a mesma realidade. ■