Um País sem estratégia

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A inexistência de uma estratégia devidamente pensada e, se possível, consensualizada, quer nos países quer nas empresas, tem custos enormes, como tentei demonstrar a semana passada. Esta semana vou procurar retratar a realidade através de alguns exemplos:

Porto do Barreiro
Nenhuma estratégia de desenvolvimento justificaria a construção do novo porto no Barreiro, seja porque temos o porto de Sines a necessitar de investimento e sem ferrovia, a ser ultrapassado em movimento de contentores pelo novo porto de Tânger Med; seja porque a evolução das economias ditou a saída das grande infraestruturas da época industrial dos grandes centros urbanos; seja porque os portos no interior de estuários são incompatíveis com a dimensão e o custo dos novos navios de contentores. Aparentemente, o Governo, na ignorância destas condicionantes, insistiu na construção do porto no Barreiro e gastou muito dinheiro em estudos para duas localizações, para acabar por concluir aquilo que toda a gente já sabia: as dragagens previstas seriam um desastre ambiental. Mais grave, estamos há anos a perder tempo em Sines.

Montijo
Muitos especialistas e a Ordem dos Engenheiros, bem como os pilotos das companhias aéreas, além de grupos de ambientalistas e duas autarquias da região, já condenaram o aeroporto no Montijo. Todavia, António Costa é teimoso e insiste em não ver o erro que está a cometer. Estou certo de que acabará por se convencer de que é preferível prever a saída da Portela e construir por fases o novo aeroporto em Alcochete. O Primeiro-Ministro tem razão quando diz que tem de resolver o assunto do aeroporto depressa, mas já perdeu quatro anos para ver aquilo que é estrategicamente óbvio: o aeroporto da Portela tem os dias contados e será mais barato ver isso agora do que mais tarde. Entretanto, soubemos hoje, pelos jornais, que o Governo escondeu desde Setembro do ano passado o parecer desfavorável da Proteção Civil. 

Justiça
A Justiça não tem mãos a medir, é rara a semana em que não surgem novas notícias de corrupção. Hoje é o caso de um Presidente da autarquia de Penamacor, do PS está bem de ver, que contratou um empreiteiro pertencente à família de uma ex-vereadora que agora é chefe de gabinete, para uma obra terminada há três anos. Além de um longo conjunto de negócios que, como habitualmente, o autarca não comenta, com total impunidade. As buscas recentes nas casas do futebol só pecam por tardias e espera-se que desta vez seja a valer, porque não há ninguém que não saiba que alguns dirigentes do futebol há muito deveriam estar na prisão.

José Sócrates
foi ouvido, amigavelmente conforme disse, durante algumas horas pelo juiz Ivo Rosa, que é o seu preferido, e em vez de explicar como conseguiu arranjar tanto dinheiro na posse do amigo e das razões do longo percurso desse dinheiro, queixou-se da Procuradoria-Geral da República e em particular do Procurador Rosário Teixeira, que é um dos seus ódios de estimação. Além disso, aproveitou o caso recente do Tribunal da Relação para levantar suspeitas da anterior entrega do seu processo ao Juiz Carlos Alexandre, outro inimigo de relevo do ex-Primeiro-Ministro. Pessoalmente, penso que não tenho a mania da perseguição, mas que tenho as maiores dúvidas da forma como o Processo Marquês está a ser conduzido, tenho; e a minha desconfiança aumentou com o teor das perguntas feitas por Ivo Rosa, que me pareceram bastante amigas. Como escrevi antes, suponho que José Sócrates irá a julgamento, mas para responder às questões mais difíceis de provar. Quem viver verá. 

Coronavírus
Não há como fugir. De manhã à noite somos bombardeados com a peste do vírus e, além do futebol, a comunicação social levou sumiço em todas as outras questões. Esta manhã, ouvi na rádio quatro especialistas governamentais a darem os conselhos mais variados e fiquei com a ideia de que não tinham falado uns com os outros. O Governo, aparentemente, não aprendeu grande coisa com os fogos, quando, depois do desastre e da confusão das notícias marteladas, encontrou uma mulher que sabia falar de forma clara, com a vantagem de ser a única a abrir a boca. Agora, desde o ovni da ministra, ninguém mais se cala. Enfim, sobre esta questão do vírus, direi que não tenho nenhuma confiança no SNS como organização, mas tenho a maior confiança nos seus profissionais, tais como médicos, enfermeiros e técnicos. A confirmar isso mesmo reproduzo um parágrafo da crónica de João Miguel Tavares no ‘Público’: “Vimos no sábado o Estado a sugerir que se telefone para a linha Saúde 24 e no domingo a informar que a linha não suporta tantas chamadas; na segunda a aconselhar uma professora que chegou do Norte de Itália a ir dar aulas e na terça a encerrar a escola toda; na quarta o primeiro-ministro a declarar solenemente que não se mudam generais a meio da batalha (o que não é grande voto de confiança em Graça Freitas, mas enfim) e na quinta a correr com o responsável da linha Saúde 24; na sexta  Marcelo Rebelo de Sousa a oscular o país inteiro e no sábado a anunciar que se vai barricar em casa durante 15 dias.”

Partido Socialista
A desorientação agora já não é só no Governo, mas existe também no PS. A Secretária-Geral do Partido habituou-se a poder dizer tudo que lhe passava pela cabeça e a acusar tudo e todos das maiores maldades, porque lá estava a geringonça para lhe segurar as pontas. Agora, com a geringonça em pousio, não faz o trabalho de casa e continua a atirar em todas direcções, sem se dar conta que a sua credibilidade ficou suspensa por tempo indeterminado no chumbo dos mal escolhidos para a aprovação do Parlamento. Desta vez, os deputados até pareciam ter sido escolhidos pelos portugueses e a arrogância permitida pela geringonça já viu melhores dias.

Marcelo Rebelo de Sousa
O Presidente da República, antes de entrar em quarentena, falou no aniversário do Jornal ‘Público’ para, de forma estranha, dizer o que pensava. E o que pensava, apesar de corresponder à verdade da situação política, não primou pela coerência. De facto, o País vive na maior das confusões, o futuro será tudo menos certo, o Governo explica pouco e mal o que pretende, ou mente com os números martelados, mas o Presidente avisou que não está para mudanças, ou seja, condenou o País à irrelevância durante quatro anos. Assim, salvo melhor opinião, a estabilidade política, sem ideias e sem estratégia, constituirá o seu epitáfio. Veremos. ■