Um plano para a superação sustentável da crise

“O único plano que nos pode retirar da cauda da Europa passa pelo crescimento das exportações portuguesas até atingirmos sessenta a oitenta por cento do PIB, quase o dobro a actualidade”

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Os acontecimentos políticos recentes na AutoEuropa, que aqui tratei a semana passada, requerem agora que olhemos com minúcia para alguns dos estilhaços, sem perder de vista o futuro. 

Presidência da República

Sabemos que durante a sua presidência Marcelo Rebelo de Sousa dedicou quase todo o seu tempo a promover junto dos portugueses relações mais ou menos populistas, direcionadas para a sua reeleição e a obter resultados superiores a Mário Soares. Para isso sempre contou com a colaboração do PS e de António Costa, através de concessões que fez aos interesses da família socialista e olhando para o lado sempre que esses interesses passaram pela promiscuidade entre a política e os negócios. Tendo, inclusive, facilitado a substituição da Procuradora-Geral da República, Joana Marques Vidal, que tinha a confiança dos portugueses, pela primeira vez, no combate à corrupção. Infelizmente, não tinha a confiança de José Sócrates e do Governo.

Não surpreende, portanto, que António Costa tenha apoiado a reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa, comprometendo todo o PS e, naturalmente, todo o capital democrático da história do partido. 

Acredito que, se Ana Gomes aceitar candidatar-se e conseguir unir os democratas da esquerda e da direita num voto pela verdade, pela democracia e pelo desenvolvimento económico e social, contra a promiscuidade dos negócios, pode haver uma segunda volta e as contas de Marcelo Rebelo de Sousa e de António Costa podem sair furadas. 

Economia

António Costa acaba de anunciar um programa de recuperação económica a ser apresentado em breve – sempre os mesmos anúncios sem conteúdo – mas logo informou que será preciso esperar pela União Europeia, ou seja, o programa existirá se Bruxelas entrar com os recursos financeiros e a probabilidade será que, mais uma vez, teremos um programa de acordo com a realidade dos grandes países e não de acordo com a realidade e as potencialidades nacionais. Ou seja, esperamos pela Europa em vez de propormos na Europa o nosso próprio plano.

Como tenho dito e escrito, o único plano que nos pode retirar da cauda da Europa passa pelo crescimento das exportações portuguesas até atingirmos sessenta a oitenta por cento do PIB, quase o dobro da actualidade, que é o valor das exportações dos países da nossa dimensão da União Europeia. Para isso temos neste período pós-pandemia uma oportunidade de ouro: atrair o investimento estrangeiro de empresas industriais integradoras, semelhantes à AutoEuropa, empresas que, como proposto pelo Primeiro-Ministro japonês, Shinzo Abe, terão de “construir uma economia menos dependente de um país, a China, para que o país possa evitar as interrupções da cadeia de suprimentos”.

Como é previsível, as grandes empresas europeias e norte-americanas serão impulsionadas a fazer o mesmo; e como não será possível que voltem com todos esses investimentos para os seus países, Portugal tem para oferecer a melhor localização no centro dos dois maiores mercados ocidentais e no centro das rotas do Atlântico. 

A logística representa aqui um papel essencial, porque sendo essas empresas industriais essencialmente integradoras e exportadoras, têm de importar de todo o mundo os componentes e os sistemas de que precisam e exportar para todo o mundo os seus produtos finais. Para isso, não conheço melhor localização do que Portugal, nomeadamente para exportar, mesmo para o Oriente. Com a nota de que, tal como aconteceu com a AutoEuropa, a indústria portuguesa está em posição de fornecer muitos desses componentes e sistemas.

Este é o plano nacional que defendo para a economia portuguesa pós-pandemia, mas será o plano do Governo? A acreditar em António Costa, não parece; a ideia do PS e do Governo é, mais uma vez, seguir, canina e estupidamente, as instruções de Bruxelas, em vez de usar o dinheiro europeu numa oportunidade que não passará duas vezes por baixo da mesma ponte. Com a nota de que este plano que proponho também interessa à Alemanha e aos restantes países do Norte da Europa, como aconteceu com os acordos da EFTA de há meio século.

Investimento público

O investimento público é muito importante nesta primeira fase para lançar a economia e enfrentar algum do desemprego, mas não serão os investimentos previstos pelo Governo – aeroporto do Montijo, Linha circular do Metro e ferrovia em bitola ibérica – mas investimentos que potenciem o plano anterior, nomeadamente a linha férrea em bitola UIC (europeia) de ligação à Europa. Em complemento do porto de Sines. Esta é a logística que interessa ao investimento estrangeiro e às empresas portuguesas exportadoras. Ou seja, um único objectivo económico:  duplicar as exportações.

No curto prazo existe ainda um investimento urgente: prevenir que o Covid-19 volte no Outono; e até lá devem ser fechados todos os lares, públicos ou privados, que não tenham as condições necessárias de isolamento, usando, se necessário, o arrendamento de hotéis que, previsivelmente, não terão clientes nos próximos tempos.

Educação, ciência e tecnologia

Como ficou provado durante esta pandemia, as vítimas não são apenas os pobres, ou a economia dual na sua metade mais pobre, de muito pequenas empresas e do desemprego escondido, mas a ignorância. A ignorância é razão principal do nosso atraso histórico e a maior limitação ao plano estratégico que apresento para a economia. Para isso existe um outro plano, que apresentei há anos: a criação da figura do conselheiro científico das empresas, a criar em cada Faculdade, com o objectivo de ajudar as empresas a compreender as suas necessidades científicas e tecnológicas e para transferir para as empresas os doutorados sem emprego, ou apenas subsidiados pelo Estado. Limito-me a propor aqui o que aprendi com o professor António Cunha, da Universidade do Minho, quando ele iniciou esse processo na Marinha Grande. Além do plano, que penso já seja conhecido, para as creches e pré-escolar, no sentido de interromper o círculo vicioso da pobreza e da ignorância nas famílias.

Este plano para o desenvolvimento económico e social da Nação Portuguesa parte de uma frase de um senador brasileiro que afirmou, mais ou menos, o seguinte: “não há justiça social sem desenvolvimento económico”. Para que conste, este é o ponto de partida do meu pensamento político. ■