Uma estratégia para salvar o futuro

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A União Europeia, pela primeira vez, parece decidida a dedicar os meios financeiros necessários à recuperação económica a seguir à pandemia que afecta todos os países europeus. Nunca acreditei que o dinheiro, ou a sua falta, seja o factor principal do nosso atra aso relativamente a outros países e sei que o nosso atraso se deve ao mau uso do dinheiro que temos. Por isso, o meu receio agora é que haja dinheiro a mais e sabedoria a menos para o gastar. Como tenho escrito, não há justiça social sem desenvolvimento económico; e que se tente, como preconizam o PCP e o Bloco de Esquerda, resolver os nossos muitos problemas sociais sem desenvolvimento económico, ou com o modelo económico errado, é a receita para o desastre. Aliás, é o que temos feito ao longo da nossa história recente, por ausência de estratégia, de sabedoria e por excesso de corrupção.  O resultado está à vista: três pedidos de ajuda externa, depois do 25 de Abril. Assim:

1– Economia

O Primeiro-Ministro, há poucos dias e surpreendentemente, falou de uma nova oportunidade para a nossa economia, resultante de grandes empresas japonesas, norte-americanas e europeias, bem como os governos, pretenderem reduzir a sua dependência da China. Tenho escrito abundantemente acerca dessa possibilidade e, mais do que isso, tenho defendido uma estratégia de desenvolvimento económico que se baseie na nossa localização no centro das rotas de Atlântico e no centro dos dois maiores mercados mundiais, para atrair o investimento estrangeiro de empresas industriais integradoras. Empresas semelhantes à AutoEuropa, que recebam de todo o mundo os sistemas e os componentes de que precisam, para produzir produtos a exportar para todo o mundo. Rui Rio acaba de pedir não uma, mas três AutoEuropas, e tem razão.

Para isso é preciso uma estratégia global e não apenas uma boa ideia. É também preciso ter a visão, a sabedoria e a determinação suficientes para usar os recursos que vamos receber para investir nessa estratégia. Podendo-se criar um programa de atracção cuidadosa do investimento estrangeiro, por exemplo, financiando uma parte do capital, ou um determinado valor por cada posto de trabalho, ou concedendo os terrenos para construção. Os países dadores gostarão do programa, se realizado de forma séria e com todo o cuidado e honradez, a fim de evitar mais investimentos fantasma. Infelizmente, os socialistas parecem já estar a salivar com o dinheiro que vai chegar da União Europeia e nada melhor do que um investimento fabuloso permitido pala venalidade e pela ignorância, o “Hidrogénio Verde”. Para o qual não temos tecnologia, nem mercado, mas que pode distribuir comissões. Para já, parece que o Governo descobriu o colaborador certo, chama-se Costa Silva, para, sem dar cavaco à opinião pública, nem aos setenta membros do Governo, fazer os negócios necessários. Tudo em segredo como convém. E por agora já anunciou que a intervenção do Estado é determinante, que tem uma estratégia com três braços, mas sem dizer qual é a estratégia. Como já pudemos verificar, trata-se de mais um especialista de palavras, muitas palavras, cujo fim último é esconder as verdadeiras intenções e não explicar profissionalmente o que verdadeiramente pretende fazer. A propósito, alguém sabe o que o amigo Lacerda anda a fazer na TAP?

Infelizmente, a estratégia que defendo, que já expliquei dezenas de vezes ao longo dos anos, e que está inscrita na Carta Magna da Economia da AIP de 2003,  precisa de adultos honestos, como aconteceu com a AutoEuropa, além de objectivos complementares: (a) eliminar a parte pobre da nossa economia dual através da formação dos trabalhadores destes sectores, para disponibilizar a mão-de-obra para os investimentos previstos; (b)  incentivando, como aconteceu no caso de Palmela, a produção em Portugal dos sistemas e dos componentes necessários; (c) e, dado ser a logística o principal argumento de atracção do investimento, será urgente a construção de uma linha de caminho de ferro interoperável com o resto da Europa para mercadorias, em bitola UIC, anulando o projecto existente de bitola ibérica, que não cumpre nenhum dos objectivos da estratégia exportadora. Sines é, naturalmente, uma forte componente da estratégia e a construção do cais Vasco da Gama é importante, logo que seja definido o melhor parceiro que pague a factura. 

Não se trata de voltarmos à economia do betão e de eleger as obras públicas como a solução dos nossos problemas, mas apenas completar a estratégia de fazer de Portugal, por força da sua localização, o melhor local mundial para o investimento industrial de empresas integradoras. A China, que comprometeu há anos a nossa estratégia vencedora da EFTA, poderá ser agora a oportunidade. Basta que o Governo queira e saiba. 

2– Corrupção

A corrupção e a escolha para cargos públicos de pessoas e de entidades pouco honradas tem sido uma das principais razões do nosso atraso após o 25 de Abril. O desperdício de dinheiros públicos nestes quarenta anos condenou Portugal à irrelevância económica e à pobreza social. Trata-se não apenas de dinheiro mal gasto, mas também de falta de competência política e de estratégica económica, de militantes políticos que apenas pretendem governar a vida. 

Os muitos milhares de milhões de euros que se fala vão chegar da União Europeia, em complemento dos milhares de milhões já consumidos ao longo das últimas décadas, deixam muito boa gente na política portuguesa pronta para os receber. Não é nada que não conheçamos e que não possamos vencer, mas trata-se de um perigo real. Para combater essa possibilidade, confio mais nos empresários portugueses independentes do poder político, do que no Governo do PS. Trata-se de gato escaldado.

Um perigo diferente chega-nos do PCP e do Bloco de Esquerda, que na expectativa da revolução, pretendem consumir todos os recursos possíveis nas causas que possam fazer crescer a sua base de apoio. Nenhum destes partidos acredita que o progresso social dependa do desenvolvimento económico e colocar o carro à frente dos bois é o seu modo de vida. Já alguém o disse, depois de nós o dilúvio.  

Tenho sentimentos contraditórios relativamente a este monte de dinheiro que nos cairá em casa com origem na solidariedade europeia. A riqueza sustentável ganha-se com muito trabalho, com alguma sabedoria e honradez. E não vejo neste Governo de António Costa suficientes destas qualidades. Muito dependerá da atenção dos portugueses aos detalhes e muito dependerá também de um Presidente da República empenhado em combater a corrupção, o enriquecimento ilícito, os contractos por ajuste directo e o funcionamento livre e empenhado da Justiça, à boa maneira da saudosa Joana Marques Vidal. Em resumo, evitar o contágio da política com os negócios.

3 Educação

Este tempo de pandemia, em que os portugueses demonstraram alguma disciplina, pode ser um momento de viragem e o nosso infortúnio pode ser uma oportunidade para a mudança. Esta pandemia mostrou de forma clara que as vítimas não são apenas os mais pobres, são também os mais ignorantes. A economia dual resulta da ignorância e da falta de formação dos trabalhadores que ali sobrevivem, razão por que a estratégia de desenvolvimento económico que defendo não será fácil sem um programa de formação intensiva e qualificada dos trabalhadores destes sectores pobres da economia e a sua recuperação para o sector industrial, com melhores salários e melhores condições de vida. Ou seja, melhor produtividade. 

Para as crianças, é urgente interromper o círculo vicioso da pobreza e da ignorância que se perpetua nas famílias pobres, fazendo-o através de creches e de pré-escolar para todos, de qualidade, com alimentação e transporte. Por favor, Dr. António Costa, use o dinheiro para isto e não o estrague, é do futuro de Portugal que se trata. 

4Política

Depois do debate surreal sobre o Novo Banco, leio sobre novos perdões de dívidas bancárias sem parança. Mais cem milhões perdoados a uns, cinquenta milhões a outros, mil milhões para a TAP, muitos milhões mais para as empresas públicas de transportes, tudo isto depois do BPN, do BES, da PT, além de centenas de milhões anuais para as parecerias público/privadas, etc. etc. Quando é que isto pára? O PCP, o Bloco de Esquerda, o PSD e o CDS dizem que estão contra. O que é que já fizeram para parar esta hemorragia sem fim? Quem vai pagar? Sobre este último ponto não há dúvida, são os portugueses, se não com dinheiro, muitos não pagam impostos, pagam em pobreza, em baixos salários e em ignorância. 

Sobre tudo isto pairam um Presidente da República e um Primeiro-Ministro felizes e contentes, a amealhar sondagens e votos do bom povo. Expliquem lá isto! ■