António Telmo, uma década depois (I)

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É próprio da condição humana perseguir o universal, mas nem todos o perseguem da mesma maneira. Uns há que seguem o caminho mais óbvio – em nome do universal, negam tudo o que lhes parece circunstanciado, assim renegando o espaço e o tempo, a história, a cultura, os povos, as próprias Pátrias. Outros, ao invés, encontram nestas a via aberta da universalidade.

O caminho mais óbvio nem sempre é o mais verdadeiro e, filosoficamente, pode-se até arriscar dizer-se: “Quanto mais óbvio, menos verdadeiro”. Nem sempre é, provavelmente, verdade. Mas é decerto mais verdadeiro do que o princípio oposto, que reduz a verdade ao óbvio. Por isso, arriscamos dizer: errados estão aqueles que, em nome do universal, negam tudo o que lhes parece circunstanciado, assim renegando o espaço e o tempo, a história, a cultura, os povos, as próprias Pátrias. Por isso, dizemos ainda: mais certos estão aqueles que encontram nestas a via aberta da universalidade.

António Telmo foi uma dessas pessoas. Filósofo profundamente universal, filósofo fundamente preocupado com o mais alto, nem por isso deixou de se ocupar com o que lhe era mais próximo, que nunca confundiu com o mais baixo. Corrijo: filósofo profundamente universal, filósofo fundamente preocupado com o mais alto, por isso mesmo jamais deixou de se ocupar com o que lhe era mais próximo, que nunca confundiu com o mais baixo.

Eis o que importa aqui sublinhar: um filósofo que seja profundamente universal, um filósofo que esteja fundamente preocupado com o mais alto, jamais deixa de se ocupar com o que é mais próximo e, sobretudo, nunca confunde o que lhe é mais próximo com o mais baixo, como fazem aqueles que, em nome do universal, negam tudo o que lhes parece circunstanciado, assim renegando o espaço e o tempo, a história, a cultura, os povos, as próprias Pátrias. Se é humanamente possível dizer que uns estão certos e outros errados, então diremos, com toda a convicção: os primeiros estão certos e os segundos estão errados.

Alegam estes que as Pátrias são “realidades relativas”, como se isso constituísse argumento. Nada há no mundo que não seja uma “realidade relativa”. O ser “realidade relativa” não constitui pois argumento pró ou contra. Nenhum ser humano valoriza ou desvaloriza todas as “realidades relativas” por serem “realidades relativas”. O que acontece sempre é que todos nós valorizamos mais certas “realidades relativas” e valorizamos menos, quando não desprezamos, outras. É também o que acontece com as Pátrias: uns valorizam-nas, sabendo que são “realidades relativas”; outros desprezam-nas… ■

* Para a Revista NOVA ÁGUIA nº 26, que irá evocar António Telmo, dez anos após o seu falecimento. Caso queira participar, deverá enviar-nos o seu texto até final de Junho.