Quando a falta de educação fala mais alto

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Quando tudo parecia ir tão bem, com a economia descolando e o debate político amortecido, a pandemia surpreendeu o Brasil e descontrolou o presidente Jair Bolsonaro.

Ao que tudo indica, inconformado com a pandemia, que parece ter tomado como um evento contra ele e seu governo, começou por considerar “uma gripezinha”, depois achar que o número de mortos poderia estar inflado, apesar de internamentos acima da média e algumas cidades em crise funerária, tendo de guardar cadáveres em containers refrigerados. Contra todas as evidências, agarrou a hidrocloroquina como sendo o remédio a ser tentado por todos. Na resistência de dois ministros da Saúde em atender seu pedido, com a saída de ambos, um dispensado e outro pedindo demissão, nomeou um general, conceituado como oficial e gestor, que, nada conhecendo de medicina, acabou por aceitar emitir documento recomendando o uso da cloroquina, de acordo com a vontade de médico e anuência de paciente ou sua família. Isso já era permitido, mas virou um facto político. Atritado com os governadores e presidentes de Câmara de todo o país, Bolsonaro combate o isolamento social, que foi consagrado em todo mundo como meio de segurar a propagação para não levar ao colapso o sistema hospitalar e, de certa forma, deter o crescimento dos casos. Com isso, parte da população não colaborou e o Brasil já é o segundo em número de casos e deve fechar o mês com mais de 40 mil mortos. O dinheiro em muitos mil milhões de dólares entregues às regiões, ao que tudo indica, não tem tido bom uso. Respiradores custam até quatro vezes mais. Em meio à pandemia, o presidente vem provocando uma série de brigas, sendo que, numa delas, o Supremo Tribunal pediu e divulgou uma reunião ministerial, para apurar se ele teria ou não falado em intervir na Polícia Federal. Ficou dúbia a declaração, pois foi genérica. Mas chocou o país inteiro pelo palavreado do mais baixo calão e colocações infelizes de ministros, muito embora fosse uma reunião reservada, como todas as que reúnem o gabinete e presidentes de bancos oficiais. Assim, foi munição preciosa para os Media oposicionistas, quase todos eles sem constrangimento algum em deturpar as palavras do descuidado presidente. E noticiário negativo no exterior. Frequenta manifestações, não usa as máscaras recomendadas pelo próprio governo, enfim demonstra total descontrole emocional.

Bolsonaro é um homem de bem, não está envolvido em suspeições sólidas de corrupção como os antecessores. Os filhos, que muito interferem na política e o ajudam a criar atritos, também não são envolvidos em casos de abuso de poder com objetivos pecuniários. Não rouba e não deixa roubar. Formou uma equipe de primeira grandeza, na sua maioria, mas a todos constrange com a postura demasiadamente natural, franca e de um palavreado de cervejaria em fim de noite. Enfim, o presidente tem boas intenções, boas orientações, mas é muito mal-educado e este comportamento é exaltado por cerca de 15% dos brasileiros que o apoiam e são ativos nas redes sociais e nas manifestações de rua. Com estes aliados, ele não precisa de adversários. As pesquisas já mostram declínio na popularidade. O Brasil até Fernando Henrique teve uma tradição de presidentes de bom nível, excepto no populismo irresponsável de Goulart, que acabou deposto, e na loucura de Jânio Quadros, que renunciou de maneira nunca explicada. Lula, que chegou como uma boa promessa, revelou-se não só pela corrupção hoje largamente comprovada, como no segundo mandato já não dava atenção a conter o palavreado de baixo calão, só superado pela presidente Dilma, que chocava a todos pelo uso habitual de termos impróprios para uma mulher. Entra um governo à direita, com apoio do empresariado e das elites tradicionais, forte apoio popular e estes termos chulos se incorporam ao discurso oficial. Cómico, se não fosse trágico! Por estas e outras, a monarquia está deixando de ser uma opção afastada neste século XXI. O deputado Luiz Felipe de Orleans e Bragança é um sucesso em suas aparições nos Media. No Brasil tudo é possível! ■