Luísa Venturini

Ontem ao serão, nuns momentos de conversa boa com um meu amigo pintor, de cuja obra gosto especialmente, confidencia-me ele que se propõe oferecer-me um quadro seu, dando-me a escolher entre uma qualquer das suas telas ou a fazer-me o retrato. Supinamente agradada com o carinho da sua generosidade e sem conseguir resistir a uma matreirice, proponho-lhe eu que me veja pelos seus olhos. A razão não poderia ser mais simples: gostaria de ter em minha casa, como arabesco do meu mundo, uma expressão do seu olhar, que sei profundo e matizado de tons quase impossíveis, nesse impulso constante que o faz querer alcançar o seu outro rosto além dos patamares dos dias e das noites, dos mantras e das heresias, das vozes e dos silêncios.

Antecipo que será uma espécie de dança, uma espécie de tapeçaria tecida a quatro mãos, em que partindo do que nos conhecemos nos iremos aventurar pelos labirintos que nos forram a vida, ele perscrutando-me e eu perscrutando-o enquanto ele me perscruta, num jogo mais de magos do que de adivinhos, e, certamente mais alquímico do que qualquer outra coisa. E dou comigo a pensar que tal é a minha curiosidade por esse mergulho no seu génio, o meu gosto por pressentir as correntes telúricas da sua hipo-alma, ouvir o rumorejar dos seus rios da nascente à foz, intuir a trama com que tece a sua percepção do mundo e do mundo-para-lá-do-mundo, que, creio, mais do que um retrato meu, verei, em esplendor caleidoscópico, um cadinho repleto de mistérios.

Tenho em minha casa, em lugar de honra, o quadro de um outro pintor, que, numa pirueta magnífica do seu talento, fez do meu rosto o nosso retrato de família. É tal a emoção que explode de cada tonalidade, de cada traço, que sinto ali descobrir o “pot-pourri” das nossas idiossincrasias e o pulsar fértil e íntimo da nossa relação, as tempestades e as bonanças, os prantos e os cânticos e o tremendo conforto que nos bordamos reciprocamente. É, também este, um retrato de um retrato de um retrato, como se ali estivesse exposta, quase despudoradamente, a entretela da nossa alma.

Terei de confessar que vou ficar em ânsias por esta aventura e por dar companheiro, certamente dilecto e fiável, ao retrato de família da minha sala. Se grata estou a um, igualmente grata fico ao outro. É bom viver rodeada de pintores. De facto, muito triste e acanhada seria a nossa vida sem o toque ígneo da arte!

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