Celebrar a podridão deste regime

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Num país, em qualquer país, é raro encontrarmos estadistas de grande qualidade.

Portugal teve a sorte de ter D. Afonso Henriques, o fundador, o infante D. Henrique, D. João II, o conde de Castelo Melhor, o Marquês de Pombal, Fontes Pereira de Melo, Sidónio, Salazar e, em menor escala, António Ramalho Eanes. Não temos sido muito afortunados desde D. João II, um homem que tinha um projecto para este país, de tal forma que conseguiu formar o Portugal do qual ainda vivemos à sombra.

Como chefes de Estado pós 5 de Outubro de 1910, a sucessão de nulidades foi notável. Manuel de Arriaga era um tonto conciliador onde o consenso era impossível, Teófilo Braga um intelectual longe da realidade, Bernardino Machado um fraco derrubado por dois golpes, o de Sidónio e o de 1926. O brilhante Sidónio foi assassinado e injustiçado pela história feita pelos assassinos. António José de Almeida viu ser assassinado um dos 16 primeiros-ministros do seu mandato (António Granjo) e ainda o almirante Machado dos Santos, o principal herói do 5 de Outubro. O sonhador “presidente-escritor” Manuel Teixeira Gomes teve pelo menos a graça de se demitir e ir-se embora antes que fosse morto, supostamente para se dedicar a uma vida literária em Argel da qual ninguém recorda qualquer das suas muitas obras.

A ditadura que derrubou Bernardino Machado em 1926 trouxe Mendes Cabeçadas, Gomes da Costa, seguindo-se, já no Estado Novo, Óscar Carmona, Salazar interinamente entre 18 de Abril de 1951 e 21 de Julho do mesmo ano (sim, Salazar foi presidente). Craveiro Lopes e Américo Tomás foram os títeres de Salazar que se seguiram.

O grande estdista do século XX, gorada a efémera estrela que foi Sidónio Paes, foi António de Oliveira Salazar, um homem que se definia mais como estadista do que como político. 

Com o 25 de Abril de 1974 tivemos os provisórios Spínola, outro sonhador que sonhava com um país que já não existia, e Costa Gomes, mais conhecido por “o rolha”, cujo papel anódino parece ser menos irrelevante do que se pensa.

António Ramalho Eanes tinha a vantagem de ser sério e honesto, e de nunca se rir, uma enorme vantagem sobre os sorrisos de plástico de hoje, em que pontificam Costa e Marcelo. Eanes trouxe Portugal para a democracia que temos. Infelizmente, seguiram-se os socialistas Soares e Sampaio, sob os quais Portugal definhou moralmente e nos valores, e, finalmente, um inculto Cavaco Silva, com algumas boas intenções mas sem saber bem o que fazer, mais preocupado com a reeleição do que com o estado miserável do país.

Já se perguntou o leitor do mérito destes homens todos que chefiaram o Estado no seu posto mais elevado? Quais os grandes benefícios que trouxeram ao país? Se D. João II transformou Portugal numa potência mundial, se Castelo Melhor nos ajudou a libertar do jugo castelhano na guerra da independência, se o marquês desenvolveu o País e, finalmente, deu relevo ao Brasil na política portuguesa, o que fizeram Cavaco, Sampaio, Soares, Carmona e os outros todos? Qual o contributo destes homens para o bem-estar do país? Qual a sua esfera de influência no gizar de uma estratégia comum, de destino nacional? Onde está a teleologia desta sucessão de nulidades? O que se vê é um plano inclinado dos tempos do marquês até o dia de hoje.

Um país influente, rico, importante no plano internacional foi sendo dissolvido nos vícios privados de classes (pouco) dirigentes, de políticos ingénuos quando honestos, e geralmente corruptos, que foram queimando Portugal para tirarem alguma coisa das cinzas à socapa para
uso e enriquecimento pessoal. 

Precisávamos de um presidente que fizesse rupturas a sério, que destruísse este sistema podre de interesses e compadrios e não vejo que Marcelo seja capaz de o fazer.

Amanhã comemora-se a data de 25 de Abril. Os coveiros da democracia, os fautores do sistema corrupto de Portugal hoje, persistem em comemorar esta data no meio de uma gravíssima crise de saúde pública. Vivemos um momento de grande tristeza. Alguns dos nossos melhores, a geração que ainda tinha alguma memória de tempos melhores e piores do passado, vai ser ceifada por este vírus mortal que atacará em vagas sucessivas até ter decepado a consciência de um povo. Ficaremos despojados de anciões, da sensatez que só a idade e os tempos difíceis trazem.

No entanto, um grupo de autistas, insensível ao sacrifício do povo português, insiste em celebrar uma data que instituiu um regime mais corrupto, mais sinistro, mais negro, mais amordaçado do que o que teria naturalmente sucedido a Marcelo Caetano se a transição tivesse sido pacífica. 

Não defendemos a celebração do 25 de Abril, porque essa data foi sendo abastardada pelo tempo. O sacrifício de alguns líricos capitães de Abril foi sempre aproveitado pelos oportunistas de ocasião. No próprio momento pelos vendidos a Moscovo e a Havana, de seguida pelos vendilhões que se aclientelaram e se serviram do regime. O regime após o 25 de Abril é uma sucessão de crimes de traição, de casos de corrupção, de escândalos de enriquecimetno ilícito.

Celebrar o 25 de Abril, quando a Páscoa foi proibida e nem podemos participar nos funerais dos nossos maiores, mortos pela incompetência, pela inacção e irresponsabilidade dos políticos, é grotesco, como será grotesco ver os figurões do regime congratularem-se por agora, livres de peias morais, poderem sentar-se, a eles e aos seus amigos, na mesa do orçamento de todos os portugueses. É vê-los a elogiarem-se mutuamente e falarem destes tempos difíceis, bem protegidos e seguros, a autocongratularem-se por estarem a vencer, falsamente, uma epidemia que ainda não chegou à sua fase mais perigosa.

Depois de mortos quase um milhar de portugueses, virem falar de “milagres” e de heróis de sofá, como Marcelo fez recentemente, é uma ofensa aos mortos, às famílias e à Pátria de verdadeiros heróis, como António da Silveira, Duarte de Almeida “o Decepado”, Afonso de Albuquerque e Duarte Pacheco Pereira. É uma ofensa aos que tombaram na Primeira Grande Guerra, ao sangue mártir de Sidónio Paes, o presidente Rei, aos que tombaram em África para defender aquilo que era a sua Pátria, depois vendida por gente como Mário Soares, Almeida Santos e todos os seus sucessores que hoje (des)governam Portugal.

Não contem connosco para a farsa. Hoje é 24 de Abril, fiquemos por aqui, não precisamos de mais nenhuma celebração. Amanhã celebraremos Portugal lendo Fernando Pessoa, esse herói sem ilusões, infinitamente mágico e infinitamente desiludido com este país e esta gente, um país de Esteves sem metafísica… ■