Crónica das mortes anunciadas

Enquanto a Alemanha tem 29.2 camas de cuidados críticos por cada 100.000 habitantes, a Itália tem 12.5 e Portugal tem o miserável número de 4.2 camas por 100.000 habitantes, o pior número da Europa!

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Na semana passada escrevemos sobre o Corona Vírus. Alertámos para os perigos deste vírus e para as medidas que devem ser tomadas para evitar a disseminação do vírus na comunidade.

Hoje olhamos para os resultados do que tem acontecido em diversos países e para a situação, potencialmente catastrófica, de Portugal em termos comparativos.

Na China isolaram-se as pessoas em casa, suspenderam-se as viagens totalmente, fecharam-se regiões inteiras; as pessoas fechadas rigorosamente em casa recebiam alimentos e cuidados fornecidos pelos serviços de protecção civil em suas casas. A epidemia foi contida de forma muito severa, houve grandes sacrifícios, mas conseguiu-se conter, um mês após as medidas severas, a epidemia. O número de casos novos decresceu vertiginosamente, de tal forma que os hospitais construídos à pressa foram fechados. 

Na Itália aconteceu o contrário. A palavra chave foi a descontracção, as quarentenas eram apenas nominais e mesmo os pacientes de risco andaram a cirandar livremente espalhando o vírus. Pensaram que estando assintomáticos não corriam riscos, quando a incubação dura 15 dias e a doença se transmite durante esta fase. Consequentemente atingiu-se o limite do sistema de saúde.

Actualmente o número de mortos disparou de forma vertiginosa em Itália, tendo subido para cerca ou mais de cem mortos por dia a partir do dia 3 de Março de 2020, quando antes era de, no máximo, cerca de trinta mortos nos piores dias. Foi neste dia que se esgotaram as camas de cuidados críticos em Itália. O número de mortos começou a subir vertiginosamente quando deixou de haver ventiladores para toda a gente. Hoje, quando escrevemos, a 11 de Março, há 823 mortos em 12.462 casos oficiais, uma mortalidade de 6,6% sobre os casos declarados oficiais. Provavelmente este número não será o número efectivo, pois muitos casos suaves nunca serão contabilizados. 

Na Alemanha, a situação ainda não se descontrolou. Neste país existem mais do dobro de camas de cuidados críticos por habitante, logo o número de mortos é extremamente reduzido. O que evita a morte dos doentes é, em primeira análise, a ventilação. Existem 1.908 casos no dia em que escrevemos e apenas 3 mortes; com os mesmos casos já havia 52 mortes na Itália. A única diferença são os cuidados de saúde e o número de camas nos cuidados intensivos.

Vejamos então estes números. Existe um artigo de A. Rhodes e outros autores, na prestigiada “Intensive Care Med”, de 2012, já com alguns anos, que nos indicam esses dados. Na Alemanha existem 29.2 camas de cuidados críticos por 100.000 habitantes, na Itália existem 12.5 camas por 100.000 habitantes, é evidente que a saturação das camas ocasiona o salto vertiginoso no número de mortes em Itália. Com 300 casos críticos actuais na Alemanha, todos podem ter cuidados e apenas quando a pandemia se alargar a toda a população o sistema vai saturar. Com mais de mil e quinhentos casos críticos em Itália, apenas cerca de 800 poderão ter cuidados; os novos casos críticos e, sobretudo, os mais idosos e com maiores problemas de saúde não têm direito a tratamento crítico, porque têm piores hipóteses de recuperação. Isto faz subir vertiginosamente a letalidade da doença.

Fica a pergunta, também ela, crítica. E como está Portugal nesta questão? Enquanto a Alemanha tem 29.2, a Itália, em total caos, tem 12.5, Portugal tem o miserável número de 4.2 camas por 100.000 habitantes, o pior número da Europa! Eu não acredito que tenhamos evoluído nesta lista após 8 anos de desinvestimento no sistema público de saúde. Se acontecer o espalhar da pandemia a grande parte da população portuguesa, esta será a crónica da morte anunciada, com taxas de letalidade a atingirem valores, pelo menos, triplos da Itália, o que é gravíssimo. 

As soluções são a responsabilidade de cada um, o sentido cívico e a pro-actividade das autoridades de saúde. O requisitar de ventiladores de outros serviços menos críticos não será suficiente, mas poderá mitigar o caos que se vai, forçosamente, viver em caso de não contenção da doença.

Restaria, em fim de linha, declarar o estado de emergência, tentar comprar equipamento, que já não existe no mercado devido à elevadíssima procura de países mais ricos e mais proactivos e, finalmente, requisitar todo o material que existe nos meios privados. 

Esperemos que isso não chegue a acontecer, mas o que é facto é que quem nos desprotegeu nestes últimos anos para lidar com situações críticas deste tipo foram os mais irresponsáveis políticos portugueses de que há memória. A decisão de não fechar escolas, deixar centros comerciais e discotecas abertas, tomada no dia 11 de Março, dia da reunião do Conselho Nacional de Saúde, é altamente irresponsável e poderá revelar-se muito grave. Esperamos sinceramente estar errados. ■