Do “bom” vandalismo

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Não custa adivinhar o que se passou no recente “incidente estético” de Leça da Palmeira: Pedro Cabrita Reis recebeu uma encomenda da Câmara Municipal de Matosinhos e terá pensado: “Para estes, uma dúzia de vigas (devidamente pintadas, claro está) chegam e sobram”; a Câmara, obviamente, pagou a verba (cerca de 350 mil euros) sem pestanejar e o assunto só não morreu aí porque alguns “bárbaros” resolveram pichar a “obra de arte”; depois, Pedro Cabrita Reis veio garantir que aquilo era mesmo uma “obra de arte”, devidamente coadjuvado por uma série de “críticos”; e o próprio Director do jornal Público, Manuel Carvalho, em Editorial, veio também dizer que “o vandalismo de Leça não é política: é apenas crime” – nas suas palavras, que não contestamos: “A vandalização de uma obra de arte, mesmo as que nos irritam ou deixam indiferentes, é sempre um atentado à criação e à liberdade. Não há forma de a justificar e ainda menos de a defender” (03.01.2020).

Eis senão quando, no mesmo jornal, é publicado um “ensaio” onde se faz a apologia da pichagem de estátuas de figuras maiores da nossa história, particularmente a do Padre António Vieira (?!), em Lisboa, que, escândalo dos escândalos, foi “patrocinada por fundos públicos — custo de 99 525,00 euros por ajuste directo, para sermos mais precisos” (“O Padre António Vieira no país do cordiais”, 02.02.2020). Sugerindo depois um leque de “boas” pichagens (como a de “fuck colonialism”), os autores do “ensaio” antecipam por fim a sua “defesa”: “Os comentadores de serviço podem apressar-se a dizer que tudo isto é vandalismo. Porém, trata-se daquilo a que Frédéric Gros chamou dissidência cívica (Désobéir, 2018). Aquilo que os pichadores fazem não é mais do que se reconhecerem a si mesmos como sujeitos políticos, no quadro da reinvenção de uma democracia que se quer crítica e interrogativa.”.

Face a isto, deixamos pois aqui um conselho (gratuito) aos “bárbaros” de Leça de Palmeira para uma próxima intervenção: em primeiro lugar, procurem a caução de um ensaísta francês para o vosso vandalismo (“c’est plus chic” e, sobretudo, eficaz); depois, façam pichagens mais politicamente correctas: “fuck colonialism” é boa (em inglês, soa ainda melhor). Verão que, numa próxima intervenção vossa, ninguém se atreverá a criticar-vos. Mas se alguém vos disser que “a vandalização de uma obra de arte, mesmo as que nos irritam ou deixam indiferentes, é sempre um atentado à criação e à liberdade; não há forma de a justificar e ainda menos de a defender”, já têm, pelo menos, a “devida” resposta: “Aquilo que os pichadores fazem não é mais do que se reconhecerem a si mesmos como sujeitos políticos, no quadro da reinvenção de uma democracia que se quer crítica e interrogativa”. Repitam, pois, sem se rirem: “Aquilo que os pichadores fazem não é mais do que se reconhecerem a si mesmos como sujeitos políticos…”. ■

Agenda MIL – 20 de Março, no Porto (Cooperativa Árvore): Apresentação da versão integral de “Vida Conversável”, de Agostinho da Silva | 21 de Março, em Rio Maior (Fundação António Quadros): Apresentação da versão integral de “Portugal, Razão e Mistério”, de António Quadros. Para mais informações: novaaguia.blogspot.com