Mário Soares faleceu, e infelizmente a imprensa portuguesa teve tempo para preparar aquilo que na gíria se chama de “obituários futuros”. É sabido que todos os idosos com alguma relevância já têm obituários prontos nos jornais. É uma tarefa de investigação e de compilação que se costuma dar a estagiários quando entram nos jornais. Podemos chamar-lhe uma espécie de praxe. Os mais talentosos podem escrever boas peças, geralmente contrariados, que emergem algumas vezes muitos anos depois, não assinadas. Homens como Adriano Moreira, Mário Soares, têm obituários à sua espera há muitos anos. Outros provavelmente já terão também o seu obituário: Manuel Alegre, Cavaco Silva, Ramalho Eanes, Jorge Sampaio, apesar de ainda aparentemente vigorosos, terão provavelmente o seu obituário pronto algures nos jornais ditos de referência. O obituário futuro é algo que poderá chocar o leitor menos familiarizado, mas é um instrumento útil que poupa muito tempo e trabalho, sobretudo se o destinatário tem a pouca decência, segundo o editor em causa, de morrer em cima do fecho da edição!

Mário Soares não seria excepção. Neste caso, o seu estado de saúde com 26 dias num hospital em grave condição, deu tempo a todo o gato-sapato para escrever e preparar a morte do antigo presidente da república. O próprio Marcelo Rebelo de Sousa, escassos segundos após o anúncio da morte de Soares, entra em directo nas televisões com um discurso de quatro minutos, que são ainda umas folhas A4 escritas, um discurso preparado e elaborado e não uma improvisação tão ao seu estilo, em que comentava, é o termo, a morte de Soares.

Pior ainda, a hora da morte de Soares, pelas três e pouco da tarde, é muito anterior ao fecho das edições dos jornais e dos telejornais, o que dá imenso tempo de coligir toda a informação e preparar entrevistas, alinhar imagens de arquivo, alinhar convidados. É caso para dizer que, para jornalistas e comentadores, Soares “foi fixe” até à última hora.

Dir-se-ia que a morte de Soares foi preparada meticulosamente para preparar uma espécie de mito. Uma doença que dá a entender o fim próximo, vinte e seis dias de preparação, que até deu descanso na altura de Natal e de Ano Novo, e um falecimento conveniente a um Sábado à tarde enquanto António Costa anda na Índia a oferecer a entrada na UE aos indianos sediados no Reino Unido através de Portugal.

O corolário desta preparação meticulosa, dir-se-ia preparada por uma agência de comunicação daquelas que dominam a cena mediática portuguesa devido à preguiça jornalística portuguesa, é a enxurrada Soares nos meios de comunicação. Ele é o Soares e a religião, ele é os três erros de Soares, ele é Soares e a comida (!), ele é o Soares e o Panteão, ele é o Soares visto por este e aquele, ele é o Soares em fotos, ele é o Soares em nove histórias, ele é o Soares em fato de banho, até o Miguel Esteves Cardoso não faltou à chamada e escreveu umas banalidades do tipo “ele deu-nos tudo”; material não falta, Soares não era esquivo e deixou-se entrevistar e fotografar à exaustão, material para meses de televisão e jornais, material enunciado por todos os melhores amigos do defunto. São notas de rodapé dizendo “corpo de socialista atravessa Lisboa”, como se corpos de socialistas não atravessassem Lisboa todos os dias…

Durante muitos dias não houve mais nada, não houve notícias, não houve mundo, até o próprio Guterres, Secretário-Geral da ONU, aparece para falar não da Síria, em que mais um atentado matou cinquenta num mercado qualquer sem interesse, mas de Mário Soares, numa declaração interminável, como todas as declarações de Guterres. Sampaio da Nóvoa, soarista tardio, confidencia em tom de contragosto perante milhões de telespectadores as suas memórias, escassas, como se fossem segredos de Estado; Passos Coelho, visivelmente enjoado com o assunto, lá alinha umas banalidades; Cavaco, provavelmente aliviado por ainda cá estar enquanto o seu arqui-inimigo já foi, explica que não é altura de falar de divergências. Enfim, todos têm de aparecer em bicos dos pés nas televisões. É tempo de desligar a televisão portuguesa e ler um bom livro ou ir ao cinema, ou apreciar um bom espectáculo.

Soares não faz falta nenhuma porque já cá não estava. Teve o seu tempo e o seu ciclo. O seu corpo desligou, que vá em paz.

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  • BAAL

    A ingratidão é a melhor prova da falta de carácter dos direitistas.