Má informação por parte das autoridades

“Não podemos andar a cantar vitória, apesar da esperança e dos efeitos das medidas que parecem ter começado a surtir efeito”

0
535

Fomos surpreendidos por uma reunião entre as autoridades de saúde, moderada por Marta Temido, ministra do sector, que reuniu decisores, supostos especialistas, políticos de vários quadrantes e parceiros sociais. Marcelo Rebelo de Sousa, membros do Conselho de Estado, pontificaram nesta reunão de elites, em que a informação sonegada diariamente ao povo português foi transmitida a um grupo muito restrito. Felizmente, o jornal online ‘Observador’ conseguiu uma fonte interna que relatou o conteúdo das informações e debates internos nessa reunião que decorreu na sede do INFARMED, no perímetro do Hospital Júlio de Matos, em Lisboa.

Esta reunião das “elites” é o contrário das conferências de imprensa das 12h30m no Ministério da Saúde em que o povo português deve ser informado, mas não é. Note-se que nas conferências de imprensa diárias, depois de uma homilia laudatória e apologética de um governante, geralmente o secretário Sales, cada jornalista apenas consegue ter direito a uma ronda de perguntas escassas e muito poucas vezes ao longo da semana. Escutámos, incrédulos, em directo pela televisão, um assessor a mandar calar jornalistas de forma grosseira; recordo em particular o feroz ataque a Sandra Felgueiras, que interpelava o secretário de Estado da saúde, António Sales, como se os assessores fossem guardas pretorianos contratados para proteger o marketing político do PS, e não servidores do Estado e dos cidadãos que lhes pagam os chorudos vencimentos. Sem hipótese de contraditório, os governantes e a senhora Directora-Geral da Saúde dão-se ao luxo de andar às voltas, evitando questões delicadas e mesmo evitando responder descaradamente às perguntas mais incómodas. 

Sandra Felgueiras perguntou qual a evidência científica em que se baseava a DGS e o Ministério da Saúde para desaconselhar o uso de máscara, pergunta que ficou ostensivamente sem resposta, aliás, porque não há resposta. É evidente que quase todos os estudos apontam para a eficiência do uso de máscara no combate a esta doença, só a penúria extrema motivou a patética campanha nas televisões, anunciada como um conselho oficial da DGS, a desaconselhar o uso de máscara. 

Estas conferências de imprensa mostram um confrangedor desnorte, com anúncios de medidas sem sentido, como a do putativo cerco sanitário do Porto, baseado em números absurdos e totalmente errados dos dados do Porto que ninguém se tinha dado ao trabalho de verificar antes de uma sensível conferência de imprensa de informação ao país e às regiões envolvidas. Um anúncio, digamos para ser suaves, pouco ponderado, pouco prudente e pouco inteligente, pois poderia ter provocado o pânico e a debandada dos cidadãos mais abastados do Porto. Felizmente o autarca Rui Moreira veio pôr a directora-geral de Saúde no seu lugar, acabando por reconhecer o fiasco no dia seguinte o próprio secretário de Estado que desautorizou em directo a senhora dra. Graça Freitas. Este tristérrimo episódio evocou saudades dos tempos imaginados na nossa memória, transmitidos por avôs que partiram há muito, do Doutor Ricardo Jorge que em 1918, sendo Director-Geral de Saúde, combateu da melhor forma a epidemia cruel da gripe pneumónica que assolou Portugal.

A reunião que decorreu no dia 31 de Março no INFARMED com as putativas elites encabeçadas por Marcelo Rebelo de Sousa, e relatada pelo ‘Observador’, foi muito esclarecedora sobre a dimensão da mistificação a que a informação oficial é transmitida à população. Nesse dia os técnicos falavam em mais de 9.200 casos, quando os números oficiais eram de menos dois milhares. Um dos factos evidentes é que os epidemiologistas de serviço estão completamente às apalpadelas, não fazem a menor ideia do que enfrentam, apenas falam se forem “obrigados” e para dar palpites que sabem poder estar completamente errados.

Soubémos também que a metodologia de registo de dados foi alterada: o SINAVE (Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica) passará a ser o único veículo de registo de dados, um sistema complicado, moroso de preencher, a que médicos com doentes a morrer nos cuidados intensivos têm que dedicar muito tempo. Haverá potencialmente menos 25% dos casos devido à mudança de sistema de referência, o que foi comunicado por Rita Sá Machado (chefe de divisão de estatística e epidemiologia da DGS) mulher que “respondeu que é preciso equilibrar as expectativas com o rigor, mas que ela preferia números incompletos, desde que fossem rigorosos”. Sendo incapaz de descortinar que dados incompletos são, por natureza, não rigorosos.

A situação parece assim melhor do que é realmente. A 1 de Abril a taxa de crescimento tinha sido de 11% a mais sobre 31 de Março, o que seria realmente muito bom número, mas que é uma tristeza não corresponder ao número real de casos. O número de mortos oficial batia assim certo com os 200 casos que nós prevíamos para o final do mês de Março com um pequeno defeito de 6.5%, o que é bom sinal, a acreditar nos dados da DGS.
Nós, infelizmente, não acreditamos. A situa-
ção efectiva no país não parece catastrófica, mas maquilhar os dados não é, nestas situações, o melhor caminho, isto não são os números do crescimento económico que interessa sempre valorizar, como aqui parece interessar desvalorizar. 

O medo da doença é o melhor aliado do sistema de saúde. Desvalorizar os números é um erro extremamente grave. Os testes continuam a ser muito escassos e os resultados analíticos são extremamente demorados, havendo todos os dias cerca de cinco mil casos à espera dos resultados. Há dados sobre a mortalidade global do país, vindos da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, que nos deixam muitas dúvidas sobre o verdadeiro número de mortos. É uma tristeza a DGS não ter um sistema fiável que não nos dá números credíveis.

A taxa de crescimento da doença, pelos nossos cálculos, deve andar em valores ligeiramente superiores a 15% ao dia e abaixo dos 20%. Esperemos que baixe realmente nos próximos dias, mas com estas medidas vamos ter alguns milhares de mortos. A melhor estimativa anda pelos 2.200 mortos no final desta crise, abaixo de uma epidemia sazonal de gripe, mas temos de fazer mais esforços com testagem, isolamento, dar material ao pessoal de saúde para trabalhar.

O crescimento ainda é exponencial e os números absolutos ainda podem crescer muito. Não podemos andar a cantar vitória, apesar da esperança e dos efeitos das medidas que parecem ter começado a surtir efeito.
O Governo e, muito importante, a sociedade civil têm feito um enorme esforço, que importa realçar, para adquirir material de protecção, testes e ventiladores que a DGS não acautelou quando o deveria ter feito, em Fevereiro.
Fica ainda uma nota para os matemáticos que têm assessorado a DGS. Têm feito um mau trabalho. A indicação do pico a 14 de Abril foi simplesmente catastrófica. Não ter prevenido a tempo a Direcção da DGS do perigo e da dimensão que esta epidemia podia tomar foi também catastrófico. Felizmente, António Costa percebeu o perigo de manter as escolas abertas, apesar do escândalo da não decisão do Conselho de Saúde Público.
Temos agora de olhar para o número de doentes críticos, que parece ser rigoroso, para perceber a verdadeira dimensão de crescimento da epidemia. Prevemos, no entanto, que os cuidados intensivos colapsem até ao dia 15 de Abril. Continue em casa e defenda a sua saúde. ■