Não há luz ao fundo do túnel

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As recentes obras da Câmara Municipal de Lisboa, que não deixa de massacrar os seus munícipes e os visitantes, são exemplos do que não se deve fazer em obras públicas.

Começamos pelo conceito das ciclovias, construídas sem planificação, sem pensamento, sem utentes, construídas a eito, numa cidade de colinas, numa cidade de população envelhecida, retirando aos automóveis e aos transportes públicos vias de circulação.

Se o objectivo é combater a todo o custo a utilização do veículo privado, a solução óbvia, pensada, integral, será a melhoria dos transportes públicos, agora a cargo do município de Lisboa, melhoria que custaria muitos milhões ao erário público, mas milhões e milhões que Medina e o seu grupo fundamentalista, com Manuel Salgado à cabeça, vão esbanjando em obras inúteis que apenas servem propósitos de doutrinação à força dos munícipes ideais que não existem na realidade.

O alfacinha de hoje está envelhecido, os funcionários que têm de vir trabalhar à cidade vêm de longe, das linhas do Estoril, de Sintra, da Margem Sul, do eixo do Tejo ou da zona Oeste. 

Ninguém no seu perfeito juízo utilizará a bicicleta para movimentos pendulares. A ocupação do espaço público pelas pretensas ciclovias é completamente desproporcionada relativamente ao seu uso por turistas, estudantes e jovens lisboetas. A sua única justificação é doutrinal, faz parte de um plano totalitário que pretende impor aos cidadãos um modo de vida que eles neste momento desconhecem e não querem conhecer. Partem do princípio de que se fizerem muitas ciclovias os utentes aparecerão por milagre. 

Estamos a falar de investimentos de dezenas de milhões de euros, como o desastroso negócio com a Órbita de mais de vinte milhões com as famosas bicicletas de aluguer da EMEL, sem estudos, sem análise das preferências dos utentes. 

A administração de Medina decide porque arrecada milhões em impostos com que massacra os lisboetas e os turistas que nos visitam; as obras de fachada conti-
nuam; os canteiros nas avenidas que custam milhões e que depois se degradam sem manutenção, as árvores não regadas que vão morrendo, as ciclovias que se abrem, como nos Olivais, sem quaisquer avaliações de impactos na circulação, quase sempre desastrosos, e que depois têm de ser revertidas, como aconteceu recentemente em Cabo Ruivo são a norma, e a norma é o esbanjar contínuo de dinheiros que poderiam servir para reforçar com veículos eléctricos, como em Londres, a poluente Carris, reforços tão necessários em tempo de pandemia.

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A cereja no topo do bolo é o recente assalto ao túnel do Metropolitano, uma obra da Câmara, para fazer mais um “parque urbano” no meio de milhões de carros na Praça de Espanha, feita sem planificação, aparentemente sem estudos de interacção com as estruturas pré-existentes, sem cuidados do empreiteiro; a eito, destruiu parte do túnel do Metro, interrompendo a circulação deste importantíssimo meio de comunicação numa via fundamental. 

A Carris não tem qualquer forma de compensar o gigantesco afluxo de passageiros que acresce ao normal serviço, já de si reduzido e insuficiente. Em tempo de pandemia, os impactos destas acções irreflectidas, impensadas, negligentes, podem trazer efeitos catastróficos. 

Mas é o novo normal na Câmara de Lisboa, fazer a eito, sem cuidado, sem estudos, meia bola e força e o que acontecer acontecerá. E, como seria de prever, aconteceu. A sorte foi o maquinista do Metropolitano ter evitado uma tragédia maior ao conseguir imobilizar a máquina sem acontecer um descarrilamento horrível que poderia ter custado centenas de mortos. 

Que sirva de lição aos decisores políticos que estouvadamente continuam em obras voluntaristas, sem estudos nem cuidado, arruinando diariamente a vida de milhões de pessoas que têm de suportar o fundamentalismo e totalitarismo dos decisores. 

Fica o túnel no túnel, sem qualquer luz ao seu fundo. ■