Um enorme artigo no jornal “Público” de Domingo passado, intitulado “Quem tem medo das marcas do colonialismo no espaço público?”, de Joana Gorjão Henriques, elencava os elementos presentes no espaço público que evocam o chamado “colonialismo”. Tudo isto vem a propósito da proibição de filmar o “Portugal dos Pequeninos” que o artista plástico Vasco Araújo sentiu como um acto de opressão inqualificável, exibindo na sua exposição de Coimbra uma tela preta e as cartas de recusa da Fundação Bissaya Barreto, proprietária do espaço.

O que é facto é que o espaço do Portugal dos Pequeninos é privado e que ninguém pode considerar uma proibição de filmar nesse mesmo espaço como um acto de “opressão” ou de “medo” pelas referências que o mesmo tem ou não. Pelo contrário, a tentativa de imposição e o despeito ofendido depois da proibição de um qualquer “artista plástico” de entrar e filmar num espaço privado é que é um acto de totalitarismo, de egocentrismo e de tentativa de ditadura que qualquer badameco armado em artista tenta exercer, como se a chamada “arte” fosse um valor absoluto que tudo pode e tudo quer.

Uma visão da arte pelo artista liberto do século XX que se cristaliza no século XXI. Há que relativizar essa visão absoluta. Um artista não é mais do que qualquer outro cidadão; utilizar o espaço privado, mesmo que aberto ao público, para seu próprio serviço, sem qualquer contrapartida, além de uma publicidade muito duvidosa que facilmente passaria a ofensa, pelo ataque gratuito aos símbolos do chamado “colonialismo” expostos no “Portugal dos Pequeninos”.

O artigo do “Público” continua com uma análise de outros símbolos coloniais patentes, sobretudo, em Lisboa. Afirma-se que nunca se fez uma revisão desses símbolos e chega-se ao cúmulo de afirmar que a toponímia da praça do Império nunca foi alterada devido à força do local. Afirmando por antítese que o colonialismo foi mau, afirma-se que os Jerónimos são um símbolo do colonialismo e por aí adiante…

Considera-se no artigo que existem forças que têm medo de alterar a simbologia colonialista e que seria necessário refazer legendas, ou colocar legendas a “explicar legendas”, como se a existência de símbolos antigos nos referenciais de um país precisasse de explicações. Como se os portugueses, e as suas verdadeiras elites, por pequeníssimas que sejam, precisassem das explicações dos historiadores engajados, anticolonialistas, esquerdistas, moralistas, para rever uma história que ocorreu no seu tempo, quando tinha de ocorrer, e não ocorre hoje.

Qualquer pessoa de bem, e de bem com a sua história, percebe que o que aconteceu aconteceu no seu contexto! Qualquer pessoa de bem com a sua história consegue ver as figuras dos “pretos com beiças desproporcionadas” que ornamentam o jardim botânico de Belém no contexto do tempo em que foram feitas, como exageradas eram as esculturas que os pretos faziam dos brancos. E não há nenhum Vasco Araújo ou um qualquer historiador moralista de esquerda que vá dar umas lições aos pretos que ainda hoje exibem essas mesmas esculturas nos seus museus locais.

A história aconteceu no seu tempo, eu tenho orgulho nessa história e não tenho medo dos símbolos que herdámos dessa mesma história. Sejam eles pretos de beiças exageradas, seja o Mosteiro dos Jerónimos, O Bairro das Colónias, a Praça do Império ou o Portugal dos Pequeninos. E o leitor? Tem medo ou vergonha de sermos Portugal?

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