O baixo nível dos sucessores

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É muito poucochinho quando a governação de Portugal se reduz a uma missa mentirosa e “pop” barata: estamos no paraíso e temos um grande líder, com estrelas sucessoras a brilhar… em último da União Europeia.

O recente congresso do PS fez lembrar a recente proposta musical dos “Abba”. Ambos espalham fantasias juvenis no palco. Os velhinhos suecos vão fazer concertos aparecendo jovens em hologramas. Já os socialistas, à medida que vai ficando óbvio que os líderes mais idosos são corruptos e/ou incompetentes, arranjam versões iguais, mas com menos idade. A ministra Vieira da Silva, filha do ex-ministro Vieira da Silva, foi para o palco cantar-nos uma espécie de “Fernando” dos “Abba”, dizendo-nos estar embevecida, que há algo no ar brilhante no nosso Serviço Nacional de Saúde. Isto apesar de 40 por cento dos portugueses terem de pagar enormes seguros, além dos impostos, para poderem ter acesso à saúde. 

No meio da pequenez e mentiras de Costa e dos seus sucessores, apareceu uma única grande voz verdadeira e reformista: o ex-deputado Ricardo Gonçalves. Um PS à altura dos fundadores não prescindiria deste herói singular, mas o de agora só quer medíocres e bajuladores. A comunicação social subornada ignorou-o e só deu palco e púlpito aos piores “quadros” do país, propagandeando como “futuros primeiros-ministros” um fraquíssimo grupo de indivíduos, que chegaram a ministros só por serem filhos de outros ministros, virem da Juventude Socialista, terem cunhas ou um passado recheado de aleluias colaboracionistas a gente do tipo de Sócrates ou de Salgado. 

O congresso foi, também, uma missa com dogmas, pois já lá vai o tempo em que havia quadros de qualidade, como Sottomayor Cardia a escrever “Socialismo sem Dogma”. Hoje, o pequeno PS de Costa e dos seus cinco discípulos jotas faz corar as seitas evangélicas. Há lá mais fervor religioso e aleluias por minuto ao pregador principal. Acreditam num Paraíso – fora do Portugal terreno – onde tudo é perfeito, desde os mais baixos salários aos mais altos preços europeus de electricidade. Louvam tudo como milagres, incluindo transformarem Portugal num pedinte a receber esmolas da Europa e o Estado num mastodonte esbanjador, que aumentou a dívida em mais 35 mil milhões de euros e o número de funcionários públicos em mais 60 mil socialistas ou amigos, sem benefícios para o público. No PS actual são mais fervorosos que religiosos, pois estes últimos têm de pagar o dízimo, mas os socialistas recebem muitos dízimos dos contribuintes que vão asfixiando.  

No meio destas trevas do palco medieval religioso, sem debate nem democracia em Portimão, onde estavam os senhores e senhoras feudais que querem ser primeiro-ministro só por conveniência em vez de competência, apareceu, então, essa excepção importante. Ricardo Gonçalves é um moderno humanista racional, herdeiro da democracia grega, das luzes do iluminismo, do federalismo americano e do melhor da política ocidental em geral, incluindo os irmãos Jack e Robert Kennedy. Este último afirmou: “cada vez que um homem tem a coragem de dizer a verdade por um ideal, ele pode inspirar milhões de outros a deitarem abaixo as paredes da opressão, corrupção e estagnação”.

Era tempo de milhões de eleitores portugueses poderem ouvir na comunicação social vozes verdadeiras por um ideal, como a de Ricardo Gonçalves. Ouvindo, talvez assim começassem a exigir uma liderança do PS capaz de muito em vez de poucochinho, como a de Costa e das ministras, pseudo-futuras primeiras-ministras, porque amigas dele ou filhas dos seus ministros. Ou isso, ou um rumo completamente diferente do PS para Portugal. 

Gonçalves já nos vem a alertar para a descida de nível no PS desde que Guterres saiu e ficou, mais tarde, com Sócrates como secretário-geral e Pedro Nuno Santos como secretário-geral da JS. Desde aí nada mudou, só piorou. Sócrates andava de Mercedes, dizendo ser a mãe que era rica, enquanto esbanjava os nossos milhares de milhões de euros em autoestradas e companhias de energia. Pedro Nuno Santos andava de Porsche, dizendo que o rico é o pai, enquanto esbanja os nossos milhares de milhões em ferrovias de outros tempos (bitola ibérica) e uma companhia de aviação do século passado (a TAP que não voa ponto a ponto, algo que já se exige há 20 anos). 

No congresso de Portimão, Gonçalves começou por brincar, usando a sua própria semelhança física com Boris Johnson, que também recorre bastante à ironia. Afirmou que António Costa era um “grande líder” e era um “tema fundamental” o PS e a comunicação social “não fazerem outra coisa senão debater os potenciais líderes e putativos candidatos à sucessão”. Mudando de imediato para coisas sérias, avisou que se deveriam debater soluções reformistas para o país, afirmando: 

“Isto está cada vez pior. O custo de vida a subir, os salários baixos, os impostos grandes, as despesas imensas, os encargos brutais, a habitação caríssima”. O PS “devia era estar a tratar disso, que é importante, em vez da sucessão de Costa, e andarmos para aqui, felizes, a elogiar-nos uns aos outros. Costa não tem reformado o país. Era tempo de mudar porque vem aí a ‘bazuca’. Já vieram mais fundos comunitários, mas o país nem por isso conseguiu atingir a média europeia dos países mais desenvolvidos. Estamos muito na cauda. Se não se fizerem reformas de fundo, da economia à saúde, passando por política e justiça obviamente, vamos perder mais esta última oportunidade”. 

Gonçalves concluiu que Costa devia acabar com a lobotomia do país, isto é a divisão entre a esquerda e direita: “Num país pobre como nosso isso é o pior, pois tem de haver diálogo para reformas. Costa só vai negociar, no próximo orçamento, pequenas mudanças para a classe média e um abono. Isto é muito pouco. Parece como no tempo do orçamento do queijo, há 20 anos, só que agora é o orçamento do vodka e das festas do ‘avante’” (a propósito das pequenas trocas de favores com o PCP). 

Para Gonçalves, tal forma de governar Portugal “não é nada, são umas trocas e uns cromos”. Costa tem de arranjar forma de se entender com o PSD, CDS e IL porque a divisão do país a meio permite que os extremos mandem e a indiferença do eleitorado não vai continuar. “Costa tem de arranjar entendimentos profundos que ponham o país a crescer, pois o dinheiro da ‘bazuca’ não vai chegar. Estamos a criar falsas expectativas de que vai chover dinheiro”. Não vai e isso pode minar a democracia.

Em conclusão, é destrutivo para Portugal termos, há várias gerações, uma comunicação social só a dar púlpito a ministros dependentes da política e do nepotismo, enquanto censuram vozes reformistas da sociedade civil e profissional, como a de Ricardo Gonçalves. 

É mais divertido dar palco aos “Abba”. As duas novas canções do grupo, divulgadas em Setembro, tiradas do álbum “Voyage”, que só será divulgado na totalidade em Novembro, chamam-se “Don’t Shut Me Down” e “I Still Have Faith In You”. Enquanto o povo português for na cantiga dos jotas socialistas “para não os afastar” e “mantiver a fé neles”, Portugal continuará pobre com milhares de jovens em idade activa e produtiva a emigrar. Ricardo Gonçalves, entre os muitos avisos que fez, disse ainda: “os quadros mais qualificados continuam a sair. Se não pagarmos bem, nem tivermos boas condições, os melhores dos melhores vão-se embora. Um país sem os melhores não tem futuro”. Entretanto, em Portugal, no governo propagandeado pela comunicação social, ficam só “quadros” qualificados para nada – se não para mais décadas de estagnação e pobreza portuguesas –, que nenhuma empresa internacional contrataria, uma vez que são incapazes de atingir quaisquer objectivos de topo. ■