O Chega de António Costa

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António Costa e a esquerda em geral usam o Chega de André Ventura para amedrontar os portugueses e tentar encostar os partidos do centro e da direita à extrema-direita e ganhar votos ao centro, com vista às próximas eleições autárquicas. Nesse processo a esquerda, e muitos inocentes úteis, não se calam com o Chega e com isso só promovem esse partido junto de cada vez mais portugueses críticos do regime, entre os quais muitos que querem mais e não menos democracia. 

Penso frequentemente no que acontecerá se passar pela cabeça de André Ventura fazer uma campanha mediática a favor da reforma das leis eleitorais, da defesa da participação democrática dos portugueses na vida política e passar a escolher os seus candidatos à Assembleia da República através de eleições primárias. Ou seja, o que acontecerá se o Chega passar a defender a democratização do regime que o PS tudo tem feito para evitar, ou seja, devolver aos eleitores portugueses o direito de escolher os seus deputados, em vez de isso ser feito pelas oligarquias partidárias, como agora acontece. 

O que acontecerá ainda se o Chega fizer uma campanha inteligente de combate à corrupção e procurar crescer organicamente, sem a tentativa de fazer alianças. Dir-se-á que, por essa via, o Chega deixaria de ser o Chega para passar a ser um partido verdadeiramente democrático, ainda que com ideias de direita, cuja possibilidade é negada pela esquerda. Mas enganam-se, porque se o partido de André Ventura é tão mau como dizem e tão sem escrúpulos como afirmam, não existe qualquer razão válida para o Chega não usar a tática política à custa das convicções, que é afinal aquilo a que o PS já nos habituou.

Por outro lado, António Costa está mais próximo do Chega do que muito boa gente pensa e tudo fará para se manter no poder e ganhar eleições nas condições antidemocráticas habituais. António Costa não é mais verdadeiro que o Chega, nem é menos hipócrita do que André Ventura e agora até usa a mesma linguagem, como assistimos numa entrevista recente. 

Os ataques feitos a Rui Rio e ao PSD não resultam do receio de ligação do PSD e do CDS ao Chega, ou de uma frente unida de toda a direita, que António Costa sabe não ser provável, antes resulta da necessidade de manter o PCP e o Bloco de Esquerda no carro da grande família socialista e de ganhar alguns dos seus votos para o PS. Infelizmente, muitos portugueses esquecem-se de que António Costa é um companheiro fiel de José Sócrates, que escolheu para si os mesmos ajudantes do ex-Primeiro-ministro, que segue as mesmas políticas atrabiliárias e tem as mesmas ambições pessoais, mesmo que à custa do endividamento crescente do país e do progresso e do desenvolvimento de Portugal. Porque se António Costa fosse o que dizem ser os seus apoiantes, como seriam possíveis, num verdadeiro democrata, os factos que passo a enumerar:

1.

Opor-se à democratização do regime e à participação democrática dos portugueses na vida política, através da recusa de reforma das leis eleitorais, com o resultado da decadência democrática do regime;

2.

Como seria possível a sua longa e eficaz convivência com a corrupção, ou que o partido de Mário Soares tenha esquecido a sua tradição de ética democrática e se esconda por detrás da Justiça, para não condenar comportamentos como os de José Sócrates, mas também de outras centenas de militantes e amigos do PS a contas com a Justiça?

3.

Como seria possível nunca ter explicado os negócios do SIRESP, dos Kamov, do Novo Banco e aceite sem pestanejar o assalto ao Estado feito através de muitas centenas de nomeações dos membros da família socialista?

4.

Como é possível a defesa dos interesses da EDP, ou aceitar sem pestanejar, ou explicar, os pagamentos anuais das escandalosas PPPs de José Sócrates?

5.

Como é possível ignorar mais de vinte anos de estagnação económica de Portugal, a bancarrota criada pelos governos de José Sócrates e o facto de Portugal se continuar a atrasar relativamente a todos os outros países da União Europeia e os portugueses a empobrecer se comparados aos outros povos e tudo isso sem um qualquer estremecimento nacional?

6.

Como é possível não haver uma estratégia coerente de desenvolvimento de Portugal, não reconhecer que o maior problema do país reside na educação e na menor qualificação dos recursos humanos relativamente aos outros países europeus e não reconhecer como essencial o crescimento de uma indústria exportadora que absorva os trabalhadores desempregados, ou com empregos desqualificados e portanto mal pagos?

7.

 Como é possível que o dinheiro da “bazuca” sirva para fazer mais negócios do modelo Sócrates, como o hidrogénio ou o lítio, apesar da sua possível valia tecnológica, ou conviver com um modelo energético que arruína a economia e aceitar sem uma palavra de explicação uma via-férrea em bitola ibérica, recusando a concorrência através do isolamento do nosso sector ferroviário no plano europeu, ou entregar as exportações portuguesas aos centros logísticos espanhóis?

8.

Como é possível a protecção que o PS tem dado aos devedores de milhares de milhões de euros aos bancos, fazendo-o com o dinheiro dos impostos dos portugueses, ao ponto de tentar manter secretos os nomes desses supostos empresários?

9.

Como é possível aceitar que o futuro de Portugal e dos portugueses resida na boa vontade da solidariedade europeia e no amesquinhamento das nossas qualidades como povo?

10.

Como é possível que para as próximas eleições autárquicas o PS desvalorize os candidatos do PSD, mas escolha os seus candidatos com processos por corrupção?

11.

Como é possível que o seu governo seja de uma incompetência arrepiante demonstrada nos fogos de 2017, nos milhares de mortes de Covide nos lares de idosos, nos acontecimentos trágicos do SEF, no tratamento do roubo das armas de Tancos, na desorganização do Serviço Nacional de Saúde, na ausência de reforma da Justiça e na sua crónica falta de meios de investigação, como os casos recentes dos imigrantes de Odemira, ou a marginalização de instituições democráticas como o CREeSAP e as IPSS, além do desconforto com a actividade privada e o recurso crescente ao autoritarismo e ao secretismo?

12.

Como é possível, finalmente, que o Governo financie os meios de comunicação que lhe são mais favoráveis e promova os comentadores amigos à custa da liberdade informativa, da inteligência e da racionalidade da informação fornecida aos portugueses?

Tudo isto e muito mais é possível porque António Costa está longe de ser um democrata, ou um caso exemplar de seriedade e de ética republicana, ou de ter a dimensão do estadista, para ser essencialmente um oportunista esperto e sem as qualidades necessárias para retirar Portugal do atoleiro em que o próprio PS tem, pouco a pouco, conduzido os portugueses. ■