O Estado da Nação

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O debate sobre o “Estado da Nação” na Assembleia da República deveria ser o momento alto de cada ano da legislatura, mas não sendo os deputados escolhidos pelo povo, mas pelos directórios partidários, não surpreende que, como aconteceu há dias, seja a manipulação da realidade levada a cabo pelo Governo e pelo partido no poder que fazem o dia. Ao bom povo que se deixa enganar resta o empobrecimento, retratado de forma eloquente no quadro que acompanha este texto.

O quadro mostra a evolução dos rendimentos dos povos da antiga “Cortina de Ferro” que entraram na União Europeia depois de Portugal e com rendimentos inferiores aos nossos. Verificamos agora que ao longo dos últimos vinte anos – não vinte dias ou vinte meses – o rendimento em todos esses países cresceu de forma acentuada em relação à média europeia, isto é, esses países estão a atingir o objectivo de aproximação aos níveis de vida dos países mais ricos da Europa.

E Portugal? A linha que desce não engana, Portugal leva vinte anos seguidos em que se afasta dos níveis de vida dos outros povos europeus, ou seja, o grande objectivo da adesão à Europa, a melhoria de vida dos portugueses em relação aos outros povos continua a ser uma miragem para a maioria dos portugueses. Mas não só, no “World Competitiveness Ranking”, que mede a competitividade dos países, em 2000 Portugal ocupava o 28º lugar, mas em 2020, o ano passado, desceu para 37º. No desenvolvimento humano da ONU a posição do país era em 2000 de 28º, mas passou em 2020 para 38º. Os salários médios em termos reais, que são o principal factor de mudança de uma sociedade, desceram em Portugal cerca de 3% desde o ano 2000. Poderia consumir todo o espaço deste texto com outros exemplos de que Portugal vai a caminho de ser o país mais pobre e mais atrasado da União Europeia.

A questão principal do “Estado da Nação” deveria ser saber a razão porque apesar de todos os sacrifícios das famílias portuguesas e das promessas de bem-aventurança dos partidos políticos e dos governos, Portugal está, em termos relativos, bem pior do que há vinte anos? A razão é fácil de encontrar, basta pensar na razão porque os países da “Cortina de Ferro” do quadro exposto eram dos mais pobres da Europa quando viviam em socialismo, ou porque os povos de Cuba, da Venezuela e da Coreia do Norte estão entre os povos com menos liberdade e mais pobreza do mundo. Ou porque caiu o regime da felicidade universal que era a União Soviética e o povo russo não mostra ter quaisquer saudades desse tempo.

Estas são as explicações que o povo português merecia ter do Presidente da República e do primeiro-ministro no dia em que deveria ter sido debatido o “Estado da Nação”. Infelizmente, o que tivemos foi o mesmo que durante anos tiveram os povos que referi, muita propaganda, ilusões e mentiras. Com a nota, para ser justo, que existe uma diferença entre o caso português e os casos da “Cortina de Ferro”, de Cuba, da Venezuela, da Coreia do Norte e, já agora, de outros países, como é o caso da China. Em Portugal ainda podemos falar com relativa liberdade, podemos criar organizações políticas e ainda existe alguma alternância nos governos, ainda que sob a influência dominante do Partido Socialista nos últimos vinte anos, o que, porventura não por acaso, corresponde aos anos da decadência portuguesa. Porque será?

Existem muitas respostas para esta questão, porventura demasiadas respostas. As minhas respostas, por ordem da importância que lhes atribuo, são as seguintes: (1) em Portugal a pobreza e a ignorância têm séculos e existe um certo conformismo do povo, típico do país rural que fomos até recentemente, conformismo acentuado pelo anterior regime quando se dizia não estarmos preparados para a democracia; (2) a explosão escolar depois do 25 de Abril mudou metade do País, mas não a outra metade, que do ponto de vista económico e social continua atrasado, pobre e ignorante, isto é, muito dependente e muito influenciável; (3) o Partido Socialista, como o partido da democracia e de Mário Soares, criou uma classe dirigente do regime que foi perdendo qualidade, mas que fruto das mordomias adquiridas e das mordomias conferidas a amplos sectores da sociedade portuguesa, como é o caso do funcionalismo público, se tornou uma guarda pretoriana ganhadora de eleições; (4) a “geringonça” permitiu adicionar um poder político acrescido ao PS que, apesar das contradições criadas, pode permitir ainda durante algum tempo a ilusão do bom povo, nomeadamente os mais velhos que valorizam ainda muito a libertação do anterior regime político; (5) a pobreza profissional dos dirigentes do PS que domina a política portuguesa, é criadora de casos sem fim, o que ajuda a consumir o debate público, a tornar confusas as opções políticas de fundo e a desviar a atenção dos portugueses do essencial, como seja, por exemplo, a recusa de reformar o sistema eleitoral; (6) à política dos casos, foram adicionadas as chamadas questões fracturantes, o que tem permitido adicionar ao PS uma falsa ideia de modernidade, o que vai iludindo a sua incompetência profissional, económica e tecnológica.

A associação SEDES tem o seu congresso este ano e está a estudar muitas destas questões e as causas do nosso atraso no contexto da União Europeia e tenho esperança que algumas das respostas de que o País precisa possam surgir desta iniciativa. Entretanto, pessoalmente, tenho defendido que o principal objectivo nacional verdadeiramente transformador reside na alteração radical do modelo educativo, a ser centrado nas creches e no pré-escolar, com o fim de acabar com a dualidade da nossa sociedade e da nossa economia e terminar com a ignorância numa geração, o que representa meio caminho andado para acabar com a pobreza. Precisamos de uma nova democracia, de uma nova sociedade e de uma nova economia, em resumo, de um novo País, sem políticos de fachada e sem corrupção.

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Nota: enquanto os portugueses empobrecem, outros portugueses criaram dívidas enormes que os contribuintes pagam com os seus impostos e deixaram-nos uma dívida externa gigantesca a ser paga pelos nossos filhos. Um exemplo entre muitos e dos mais edificantes vem esta semana bem explicado na revista “Sábado”. Trata-se de Nuno Vasconcelos, alguém que nunca fez nada na vida com algum préstimo, mas que nos deixou uma dívida de mais de mil milhões de euros e vive agora ricamente no Brasil, graças à incompetência e à cooperação dos banqueiros e dos governantes portugueses que nada fazem. Isto é também parte do “Estado da Nação”. ■