Diálogos Improváveis: A apologia do croquete

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– Ouve lá, estive a pensar e acho que devíamos fazer uma mega homenagem ao Otelo! Devíamos condecorá-lo. Estava a pensar numa cerimónia no CCB, com a colecção Berardo de fundo… 

– Tens noção que o Otelo foi um tipo controverso, não tens? Depois do 25 de Abril teve dez anos negros… Matou gente, assaltou bancos…

– E depois? Queres ver que era o primeiro bandido que condecorávamos? 

– Também no plano pessoal é delicado. Teve duas mulheres…

– E então? Mais do que isso tive eu!

– Ao mesmo tempo…

– Eu também, mas foi uma vez na faculda…

– Duas famílias, Graça… Ele tinha duas famílias!!

– Isso agora não interessa nada… Estava a pensar numa coisa mega, mesmo. Não queres falar com o nosso primeiro para ele contratar lá o tipo dos croquetes?

– O tipo dos croquetes??

– Sim, o… como é que ele se chama? O… o marido da Eva!

– O Adão?

– Sim, esse! Já que lhe pagamos uma fortuna para servir croquetes no 25 de Abril, também podia fazer aqui uma perninha… E também podíamos pedir ao Camilo para dar uns “workshops”…

– Ao Camilo?

– Sim, o pai das manas. O tipo percebe daquilo a valer. Ia ser um estouro!

– Ó Graça, poupa-me!

– Ouve lá, só porque achas que vais ser o próximo, não precisas falar assim… Aliás, para quem anda a comprar comboios no IKEA, tás cá com uma moral…

– Comboios no IKEA?

– Sim. Não és tu que andas a comprar sucata em Espanha e depois os montas aqui? Mais valia ires ao IKEA, que o frete era de borla…

– Não percebes nada disto. Não é sucata. Têm 50 anos e estão em muito boas condições. Depois de arranjados vão andar mais rápido que os carros do Eduardo.

– Não quero saber nada dessas coisas. Aliás, ouvi dizer que gastaste mais não sei quantos milhões em automotoras e agora não tens maquinistas para as conduzir…

– Eu não digo que não percebes nada? Estou muito mais à frente… Vou requalificar os pilotos que estou a despedir na TAP para conduzirem comboios… Estou a pensar chamar-lhe Linhas de Novas Oportunidades. Percebeste? Linhas… porque são paralelas como os carris por onde eles circulam!

– Um grande paralelo me saíste tu… Agora vens com essa do apoio energético…

– Então não é boa ideia? Apoiar os mais desfavorecidos na transição energética para que possam ter casas mais eficientes? Estou a dar a possibilidade àqueles que quase nada têm para porem portas e janelas…

– Àqueles que nada têm? Primeiro têm que ter computador e “e-mail” para se candidatarem. Depois têm que ter casas, ou seja, têm que ser proprietários… Tu achas mesmo que são esses os mais desfavorecidos?

– Por exemplo, um amigo meu, que tem casa na Quinta da Marinha vai pôr painéis solares e o meu cunhado vai instalar uma bomba de calor em casa. Nem imaginas o gelo que era aquilo e quanto ele gastava em “pellets” para a aquecer, pobre coitado! Ficou-me mesmo agradecido…

– Pois, pois… todos conhecemos a forma como tu fazes as contas… Ainda me estou a rir com a volta que deste quanto à questão da TAP e com a balança comercial… Só exportações, exportações… Nas importações nem tocaste… Queres ver que agora produzimos aviões e combustível? 

(Fez-se silêncio.)

– Ó Pedro, e quem é que vais entrevistar esta semana? ■