As sondagens são sonsas ou fazem-se?

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Há uma sondagem recente em que a diferença entre Costa e Rio diminui para 7% desde as eleições de 2019. Há outra sondagem, também apresentada neste final de Dezembro, que, pelo contrário, diz que essa vantagem aumentou para o dobro, 14% no mesmo período.  Em que ficamos? Qual é o mistério?

Este artigo identifica algumas das questões que devemos colocar na sociedade civil sobre sondagens recentes – incluindo aparentes diferenças entre projeções artificiais de 39% e dados brutos reais do total da amostra de 28% para Costa – já que demasiados “jornalistas” não as fazem e partem logo para manchetes a engalanar Costa.

Antes de entrarmos na estatística quantitativa, analisemos o contexto qualitativo onde surgiram recentemente projecções tão lisonjeiras para Costa, mesmo após o que se viu na realidade dos Açores. 

Em Portugal, nos actuais jornais tradicionais e telejornais das 20 horas da maioria das televisões nacionais, antes de abrirmos a página/ipad ou ligarmos a TV já sabemos o que nos vão dizer; é tudo tão previsível que se torna entediante.  “Jornalistas,” mesmo aqueles na RTP a quem todos nós pagamos o salário via taxa da factura de eletricidade, desrespeitam-nos e em vez de serviço público fazem serviço ao poder. Parece haver uma competição envolvendo até ‘Media’ privados sobre quem lisonjeia mais o Governo.

Lemos recentemente, com alguma incredulidade, no ‘Expresso’, que desde as eleições de 2019, apesar de tudo o que desde aí, à luz da pandemia, ficou ainda mais claro sobre a fragilidade da economia e pobreza de Portugal nos últimos lugares da Europa (em poder de paridade de compra só à frente da Bulgária), o Governo de Costa e seus governantes “formados” nas juventudes partidárias está, alegadamente, de vento em pompa seguindo e somando cada vez mais e mais eleitores. 

Para o ‘Expresso’, o Governo não só “resiste” e “recupera”, como “subiu” ainda 3% nas sondagens desde as últimas eleições e o PS está agora, alegadamente, 14 pontos percentuais à frente do PSD.  Ora 14%, até para a RTP, parece demasiado, pois na sondagem da estação estatal em colaboração com a Universidade Católica puseram a diferença em apenas 7%, afirmando que diminuiu a diferença entre Costa e Rio desde 2019.

No entanto, o ‘Expresso’ insiste em que a diferença aumentou para os 14%.  Autêntico milagre! Outro milagre cá, como a Covid, alegadamente, era.  Segundo dados da OCDE, Portugal gastou apenas 57 euros por pessoa na nossa saúde em medidas contra a Covid-19 ‘versus’ o dobro disso, em média, nos outros países europeus – e o mesmo se passando na economia -, mas por cá o povo está, alegadamente, cada vez mais satisfeito com um Governo que gasta tudo em ‘lobbies’ da energia como o Hidrogénio, TAP, BES ou PPPs rodoviárias, e quase nada na população. 

Nomeadamente, porque é que a projeção para o PS é de 39% na sondagem apresentada no ‘Expresso’, mas os dados brutos do total da amostra nessa mesma sondagem para o PS são 28%? Gostaríamos de melhor perceber esta discrepância e imputação dos indecisos e recusas.  

O mesmo em relação a este milagre inexplicável dos 14% a mais de Costa em relação à concorrência directa, segundo as sondagens maravilhosas para Costa feitas por um grupo (não identificado no ‘Expresso’) de indivíduos no ISCTE também não identificados nesse jornal, quer no que se refere a muitas das extrapolações e lógica de imputação estatística a partir dos dados brutos, quer no que se refere a quem, se alguém, encomendou e pagou esse estudo.  

Dado o contexto qualitativo já referido, duvidamos que, perante tanta manteiga ao Governo nos jornais e painéis, haja gente envergonhada de adorar Costa lá no íntimo deles; é mais provável que as pessoas tenham sido forçadas a ter vergonha de admitirem que votam nos partidos ou candidatos ‘non gratae’ dos ‘Media’ do regime. 

Relembremos que antes das legislativas de 2015, a maioria das TVs e jornais tradicionais anunciava que Costa ganhava a Passos, nalguns casos por 5 a 10%! Só mesmo em cima da eleição as sondagens ganharam um pouco de vergonha e admitiram que, mesmo depois de tanta austeridade e medidas duras impostas depois da bancarrota de Sócrates, Passos poderia ganhar a Costa. Isto porque poucochinhos portugueses confiavam e confiam em Costa e no seu Governo de jovens socráticos sempre propensos a bancarrotas após desaires de milhares de milhões de euros sempre na banca, energia, PPPs rodoviárias e companhias públicas. 

Voltando à sondagem apresentada pelo ‘Expresso’ durante esta semana, reiteramos a perplexidade e deixamos a questão de as letras pequeninas no artigo deles não explicarem com clareza (mesmo para os leitores mais informados e que fizerem um esforço maior do que eles e estão à espera para compreender) os dados que eles apresentam, ufanos, como um grande distanciamento de Costa, totalmente inesperado perante tudo o que se tem passado, de 14 pontos percentuais em relação a Rio.  

O que explica a projeção de 39% de intenção de votos para o PS ‘versus’ total da amostra (com recusas, indecisos e abstenção) de 28% para esse partido.  Aparentemente, os 13% de abstencionistas foram excluídos, segundo o que nos é explicado em letras pequenas no princípio de uma sentença muito pequena a explicar as projeções. Se foram excluídos, por que aparecem na amostra total, segundo a mesma frase em letras pequenas? Se os 15% de indecisos e recusas foram imputados, com que suposições e métodos isso foi feito, em que percentagem e a quem foram atribuídos, se é que foram atribuídos a alguém? 

A resposta deveria ser simples, pois verdadeiros especialistas em sondagens simplificavam-nas para os leitores em vez de as complicarem ou cobrirem de fumo. Por exemplo, sim ou não atribuíram bastante mais eleitores projetados ao PS de Costa que ao PSD de Rio? Se sim, qual a razão? Poderá até ser lógica, mas gostaríamos de saber.  

Outra questão sobre a sondagem do ‘Expresso’: parece haver o mesmo pequeno desnível de projecção ‘versus’ dados brutos do Chega igual ao do BE e da CDU. Uma vez que estes últimos partidos são agora, claramente, partidos queridos dos ‘Media’, com os respetivos candidatos presidenciais, em vez de entrevistados ou questionados, elogiados com fervor messiânico na RTP, por exemplo, não é mais natural que os inquiridos nas sondagens tenham mais receio de admitir que votam Chega? E sendo assim, o desnível entre dados brutos e projectados não deveria ser maior para contabilizar esse factor? ■ 

Duvidamos obter respostas para tais perguntas mas orgulhamo-nos de sermos nós na sociedade civil, voluntariamente, dos poucos a questionar o que os “jornalistas” profissionais pagos não fazem partindo logo para a propaganda eufórica e algo infantil, ou pelo menos nada sofisticada, de pré-anunciar grandes vitorias do governo de Costa e dos seus jotas socráticos  por 14% a mais. Isto quando, depois, já se viu a nível nacional em 2015 e a nível regional nos Açores em 2020, tais projeções se desvanecem-se na realidade das derrotas ou vitorias de Pirro de Costa por cada vez mais poucochinho.