O pior deste regime

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Em Política, e desde César, “não basta ser, é preciso parecer” pela ética e mudança. No final de Setembro, naquilo que parece ser um assombroso regresso ao passado do pântano, Paulo Pedroso anunciou que coordenava a campanha presidencial de Ana Gomes. A candidata de imediato confirmou que tinha o “maior orgulho” nisso, afirmando que Pedroso “exerceu com competência e seriedade os mais variados cargos ao serviço da República”.  

Pedroso, realmente, já usa a política ou influências políticas há muito: já no século passado foi deputado e secretário de Estado; depois, na primeira década deste século, foi ministro, colega de Sócrates. Recentemente, até Fevereiro de 2020, sem qualificações extraordinárias em finanças ou banca, apenas porque nomeado pelo Governo de Costa, obteve um dos melhores empregos do mundo: Administrador Executivo Suplente do Banco Mundial. Protótipo e protegido, pois, do regime e da “elite” política privilegiada da capital, ensimesmada e auto-satisfeita com este sistema ruinoso de troca de favores das últimas 4 décadas. Mais do mesmo. 

Em contraste com o distanciamento da realidade e bolha artificial dessa “elite” política lisboeta abonada que se autonomeia para tudo, no final de Maio foi lançada uma plataforma independente de apoio a Ana Gomes, vinda do Portugal real, ou seja, daqueles que têm de obter qualificações para as suas áreas profissionais ou empresas, fazer entrevistas de empregos ou ir a eleições competindo com outros candidatos.

Essa plataforma cívica era composta por profissionais e/ou autarcas independentes de todos os pontos do país e da diáspora pelo mundo, muitos deles vocais e corajosos contra a decadência ética e económica, propondo reformas.  Nessa altura, a agora candidata de imediato se “distanciou” da plataforma, segundo a Lusa e todos os muitos jornais tradicionais que fizeram questão logo de frisar o “distanciamento”.  A boa-fé, talvez demasiado inocente, dessa plataforma cívica, incentivava Gomes a concorrer à Presidência da República para “lutar contra a cartelização da justiça e o tráfico de influências,” como alternativa ao “candidato do regime” Marcelo.  

Perante a aproximação de Ana Gomes, como Marcelo, ao ‘status quo’ político das influências do costume, personalizado em Pedroso e nos socráticos fervorosos que a rodeiam, impõem-se agora 13 perguntas infra à candidata na qual muitos Portugueses queríamos tanto acreditar e apoiar como lutadora credível contra os negócios misturados com política e tráfico de influências. Essa esperança é algo que se tornou bastante mais difícil, vendo Pedroso por detrás da sua campanha.  Esperemos que Gomes perceba a gravidade desta nomeação, que reflicta e que responda, diretamente ou através de ações. 

Perguntas Para Ana Gomes:

1. Será uma campanha com um coordenador tóxico conotado com o pior do regime capaz de reduzir a abstenção e ser apelativa para o país real com vontade se ver livre da podridão política?

2. Será que ter políticos gastos como conselheiros principais de Gomes conduz a diversidade de pensamento e capacidade criativa e inquisitiva para a liderança suprema de uma nação que urge salvar dos últimos lugares sociais e económicos da Europa para onde foi afundada pela classe política?  

3. É alternativa ter mais do mesmo – coniventes figuras beneficiadas pelo regime apodrecido – do que Marcelo já está tão rodeado no Conselho de Estado? (É que Marcelo até já lá tem supostos “militantes da esquerda democrática, sempre ao lado dos injustiçados” – outra expressão que Gomes usou para elogiar Pedroso – na realidade “reguladores” bancários muito bem pagos e a assobiar há décadas para o lado da corrupção política que injustiça todos os Portugueses).   

4. É rodeada de figuras favorecidas pelo regime que Gomes vai combater o nepotismo, favoritismo e tráfico de influências?

5. É ao lado de políticos do costume que Gomes vai dar o exemplo de “jogar alto” (outra expressão usada por Gomes ao defender Pedroso) na liderança máxima para a mudança em Portugal, promovendo o mérito e a avaliação de resultados?  

6. Será que ter a companhia próxima de tais políticos de um regime que já desceu tão baixo explica as últimas intervenções televisivas da candidata, esta semana, de repente tão serena sobre a corrupção?  

7. É suficiente afirmar, como Gomes fez recentemente sobre a concessão do nosso lítio, no valor de 350 milhões, a uma empresa de 3 dias de um amigo do primeiro-ministro, que é preciso fazer uns “estudos ambientais?” (para ser mais específico, é mesmo só isso que é preciso averiguar sobre negócios assim e seus protagonistas? Para esse tipo de reacção suave perante assuntos tão graves não temos já Marcelo?).

8. É mesmo só mais dessas respostas vagas e não comprometidas com nenhuma mudança que agora vamos ter na candidatura à presidência? (Por exemplo, a candidata agora também vai só dizer sobre os mais outros 600 milhões de prejuízo na TAP, só nos últimos 6 meses, que é preciso uma comissão de inquérito na Assembleia? Isso Marcelo já não faz também?).  

9. O que vai Ana Gomes exigir a Costa e a outros membros do Governo, agora ou na Presidência, com conselheiros assim, de diferente de Marcelo sobre o BES, Novo Banco, Caixa Geral de Depósitos, Montepio, PPPs rodoviárias, rendas excessivas da EDP, CP, Metro de Lisboa, ou SATA?

10. Sobre a nova dívida europeia que aí vem para cobrir os efeitos da pandemia, Gomes vai ser ousada e exigir pôr termo a muitos desses negócios misturados com política  porque foi assim que se afundou um país inteiro e se pôs uma grande parte da população a emigrar – excepto os filhos dos políticos – sem precisar de perder uma guerra, ou vai, polidamente, sugerir mais “estudos” e “comissões” ‘comme d’habitude’ no regime desde há décadas? 

11. O que vai dizer agora Gomes de diferente de Marcelo sobre os déficits monstruosos, bem acima dos 10 mil milhões de euros, deste e dos próximos anos que aí vêm, e que se vão pagar muito caro pois o dinheiro da Europa é na maioria mais dívida para mais gerações (apesar de toda a propaganda a dizer que não)?  

12. Será que Gomes, agora aconselhada por políticos do costume, logo distanciada do país real, vai ficar silenciada como Marcelo ao ver sempre a mesma receita do costume – distribuir milhares de milhões de fundos por empresas com amigos de políticos ou ex políticos –, receita que terá os resultados de sempre? (ou seja, nova bancarrota e economia asfixiada não competitiva internacionalmente). 

13. Defenderá Gomes os Portugueses de nova bancarrota e sacrifícios só para as classes pobres e médias sem nenhuma consequência para a eternamente autoprivilegiada classe política e suas práticas geradoras de bancarrotas sucessivas? ■