Por favor, não compliquem

0
1072

Quase todos os portugueses ficaram surpreendidos com a vitória por maioria absoluta do Partido Socialista nestas legislativas, ou seja, em vista das sondagens, ninguém esperava essa maioria e, assim sendo, concentraram o seu voto para que o PS não perdesse e António Costa continuasse a governar. Pessoalmente, preferia que o centro direita tivesse ganho e o país pudesse fazer as reformas necessárias e iniciar um processo de crescimento económico, porque como tenho dito e escrito não acredito ser possível criar maior justiça social sem desenvolver a economia.

Os próximos quase cinco anos irão mostrar aos portugueses se estou errado ou se aquilo que para mim é uma evidência será a provável evolução. Mário Soares, quando confrontado com o mesmo dilema, pensou o mesmo do que hoje afirmo, quando anunciou ter colocado o socialismo na gaveta. Claro que Mário Soares não desistiu da justiça social, apenas achou necessário dedicar a sua governação a criar as condições necessárias à produção de riqueza e a fomentar o crescimento económico.

António Costa não é Mário Soares e teve uma educação familiar marxista e próxima do PCP e, apesar de ser hoje um bom burguês, como aliás uma grande parte da família socialista, acredita nas manhãs que cantam e no milagre da reprodução dos pães. Diga-se que um milagre em parte real, por via do dinheiro que até agora nos tem chegado de Bruxelas.

Pessoalmente, tendo tido na família, tal como António Costa, uma educação marxista, bem como no meio social em que cresci, tive de combater a pobreza que não me permitiu chegar à universidade e verifiquei que apenas o trabalho produtivo me permitia alcançar alguma evolução social e o crescimento pessoal e económico que desejava. Depois, viajei por todo o mundo e vi com os meus próprios olhos que as tentativas para melhorar a vida dos povos chocavam com a realidade, com a ineficiência económica, a baixa produtividade, a compressão da democracia e com o crescimento da autoridade do Estado. No caso dos países da Europa de Leste salvou-os a educação, razão porque hoje, com as alterações introduzidas no modelo económico, o rendimento das famílias está a crescer muito acima do nosso.

Estas são as razões porque, em oposição ao PRR do Governo, escrevi que apenas a educação que preconizo e a industrialização, através de médias e de grandes empresas, permitirão retirar Portugal, no curto e no médio prazo, da pobreza e da ignorância histórica em que ainda vive uma grande parte da população portuguesa. Apenas um modelo económico de mercado e um novo modelo educativo dos filhos das famílias pobres permitirá superar o falhanço do modelo económico de António Costa, baseado no apoio às micro e pequenas empresas – mais de 90% das empresas portuguesas – e no mercado interno. Ou seja, não será com as soluções de António Costa dos últimos seis anos que sairemos do buraco da pobreza endémica em que estamos inseridos para poder aspirar à tal aproximação ao nível de vida dos países europeus mais produtivos, aproximação há muito desejada pelos portugueses.    

O PRR criado pelo Governo do PS conduz a uma grande dispersão dos recursos recebidos da União Europeia, que poderão resolver alguns atrasos pontuais da sociedade portuguesa, mas não provocarão o grande salto no crescimento económico de que precisamos e a necessária melhoria da produtividade média em Portugal. Seja porque a existência de muitos milhares de pequenas e de microempresas, em grande parte comerciais, que sobrevivem nas margens da falência, não poderão constituir uma solução para a fraca produtividade do nosso tecido económico, que é algo que o turismo também não superará com os baixos níveis de preços praticados e os correspondentes baixos salários. 

Como uso dizer, em Portugal, cada vez que nasce um novo edifício, alguém lá irá colocar um café, uma pastelaria, ou um novo restaurante, iniciativas que representam uma forma de sobrevivência das famílias, mas não são uma contribuição válida para o crescimento da produtividade nacional, para a competitividade das empresas portuguesas e para o crescimento das exportações. Estas iniciativas de mera sobrevivência existem nas feiras e mercados, na agricultura familiar, nas pequenas lojas e minimercados de bairro, na pesca artesanal, nas limpezas, nos milhares de barbearias e cabeleireiros ou nos mais variados biscates de que vivem muitos milhares de portugueses. Muitas destas micro e pequenas empresas servem necessidades da sociedade, mas, dado o seu número demasiado elevado e a enorme concorrência existente, o resultado reduz-se à prática de preços muito baixos e ao endividamento, o que mantém a maioria dessas empresas nas margens da sobrevivência.

Ou seja, apenas a industrialização, através de médias e de grandes empresas exportadoras, que absorvam em tarefas repetitivas na produção, nos armazéns e nos transportes uma grande parte da mão-de-obra portuguesa com baixas qualificações, permitirá um modelo económico mais equilibrado, mais produtivo e a elevação dos salários médios. Não será certamente o Estado com mais apoios, mais burocracia e mais interferência na economia que irá conseguir o desejado crescimento da média dos salários.

Em resumo, precisamos de um novo modelo educativo com alicerces mais sólidos, que comece a sua construção pela base, que são as crianças, o que permitirá terminar numa geração com grande parte da pobreza e da ignorância que atrasa Portugal há séculos. Em complemento, precisamos de mais investimento nacional e internacional na indústria, de empresas médias e grandes, dirigidas aos mercados internacionais, de forma a compensar o desaparecimento das micro e pequenas empresas, evitar o resultante desastre social e melhorar a produtividade média do conjunto da economia. Sem esquecer que a indústria também necessita de dirigentes e de quadros altamente qualificados, o que permite integrar os jovens que emigram por não encontrarem no mercado de trabalho nacional oportunidades compensadoras.

Portugal viveu nos últimos oitenta anos, em dois períodos diferentes, o maior crescimento médio da economia: (1) foi a quando da entrada no pelotão fundador da EFTA e o consequente crescimento das indústrias de confecção, de calçado, da cerâmica, dos moldes e dos plásticos; (2) a quando da criação do PEDIP, dirigido à indústria, e a fundação da AutoEuropa, com o resultante crescimento da produção e exportação de componentes e de sistemas do automóvel. Estas duas iniciativas foram ambas baseadas no investimento estrangeiro, em empresas industriais, médias e grandes, com produções dirigidas aos mercados externos.

Não é preciso agora inventar muito mais. Razão porque termino com a afirmação de que seria bom que o novo Governo do PS não inventasse muito e devotasse o seu maior esforço inicial na atracção do investimento estrangeiro para reforçar a indústria, para o que Portugal representa a melhor localização nas rotas do Atlântico e no centro dos dois maiores mercados mundiais, a Europa e a América do Norte. Por favor, que o novo Governo faça alguma coisa de útil e não complique. ■