PS: por uma alternativa credível

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Quem vê o PS de António Costa e a forma como ele tem manobrado habilmente o conteúdo da narrativa de que tudo vai bem dentro do partido, não imagina as dissidências internas ou a falta de pluralismo e ausência de diálogo de fundo que tem sido apanágio do seu mandato como secretário-geral, após o golpe palaciano a António José Seguro.

Os exemplos são inúmeros, para aqueles que quiserem estar atentos:

Desde o afastamento deliberado de pessoas apoiantes de Seguro na composição das listas para o governo, autarquias e eleições europeias, até à perseguição política e total falta de compromisso, que culminaram na saída por dissidência directa de alguns dos quadros mais bem preparados que o Partido Socialista já teve nas suas fileiras, é exemplo gritante o caso de Ventura Leite, que inclusive chegou a deputado da nação, bem como outros ilustres que puseram fim a mais de 30 anos de militância activa.

Por outro lado, o total fechamento e oposição à abertura do partido junto da sociedade civil, que tinha sido uma das grandes bandeiras da liderança de António José Seguro, não permitindo que pessoas isentas dos vários interesses que se enraizaram, possam integrar e renovar o partido ou sequer eleger quem pretendem em primárias abertas.

Por fim, e como consequência destes dois factores, a inércia e incompetência total e absoluta que grassa pelo partido e que por osmose tem extravasado na liderança (ou ausência dela) no país. A isto assistimos sem surpresa, porque os actores são os mesmos nos dois palcos, confundindo inúmeras vezes o partido com o governo e pondo este à frente dos interesses do país. 

António Costa e o seu séquito têm vindo paulatinamente a destruir o pluralismo e o debate salutar de ideias que outrora tinha sido instituído no partido e que enformou a praxis política em detrimento de uma narrativa de pensamento único e de núcleo de sábios, que nada contribui para o desenvolvimento do partido da sua matriz ideológica que está hoje completamente subvertida, o que no limite põe em causa a sua própria manutenção/continuidade/existência no espectro político nacional no médio e longo prazo. 

Como consequência disto, o PS é hoje uma carcaça de um partido que outrora existiu e que apenas se aguenta em pé devido ao seu esqueleto informe e mirrado, sem qualquer espinha dorsal, que abana em todos os seus eixos à esquerda e à direita, ao sabor do vento na tentativa (desesperada) de se equilibrar, como um moribundo sem a massa (crítica) que outrora o sustentou e enformou como um partido relevante.

A metáfora usada é apropriada para reflectir a questão de fundo que nos traz aqui e que passa por um total desrespeito e um descrédito nos militantes base isentos da política, muitos deles com empregos e carreiras profissionais de excelência e com altas qualificações e que se mantêm sucessiva e premeditadamente afastados das decisões de fundo do partido, impedindo assim que este possa tornar-se um organismo saudável e robusto novamente ao  alimentar-se de ideias e debate e sobretudo propósito em prol de um país mais justo e próspero para esta e as próximas gerações.

Perante este esgotamento e vazio intelectual e meritocrático levado a cabo de forma deliberada, é cada vez mais necessário reafirmar a matriz cidadã, através do surgimento de novas forças políticas periféricas e sem (ainda) representação parlamentar, que reformulem e questionem a legitimidade da governação actual e do ‘status quo’ a um nível local e nacional, colocando assim a sílaba tónica na representatividade dos cidadãos nas decisões que os afectam no dia-a-dia. É também por isso que só um partido com uma matriz vincadamente voltada para os movimentos independentes poderá afirmar-se como alternativa e captar todo este pujante e latente potencial que a sociedade civil encerra e que os partidos e seus decisores tão habilmente e com base em agendas pouco claras têm vindo a ignorar. ■