A Carta ao futuro – mais de meio século depois (II)

RENATO EPIFÂNIO

Nas restantes cinco partes da sua Carta ao Futuro, mantém, Vergílio Ferreira, este seu tom tão caracteristicamente existencialista, dissertando, de forma sucessiva, sobre a “angústia” e a “alegria final nos limites da nossa condição” (II, p. 34), sobre a alegada “morte de Deus” (III, pp. 40 e segs.), sobre “os limites da condição humana” (IV, pp. 59 e segs.), sobre a “redenção pela arte” (V, pp. 81 e segs.) e, finalmente, sobre o conforto do “sentimento estético”: “Porque é dentro da emotividade que o mundo tem sentido, e a verdade humana, e a orientação fundamental de tudo o que nos orienta. Porque o sentimento estético é uma comunicação original com a essencialidade da vida (…)” (VI, p. 97).

Ao sinalizarmos aqui esse “tom tão marcadamente existencialista”, estamos a fazer um mero juízo de facto – não de valor –, para nós tão evidente e pacífico que nem sequer nos daremos ao trabalho de recordar as posições assumidas pelo próprio. Sim, sabemos que ele se sentia mais próximo de alguns existencialistas – como Jaspers – do que de outros – como Sartre –, mas, passados já mais de cinquenta anos, essas pequenas querelas são para nós quase que inteiramente irrelevantes. O que para nós aqui mais importa é apurar o que, nos tempos de hoje, se mantém de realmente actual do pensamento de Vergílio Ferreira.

A nosso ver, há desde logo algo que se mantém realmente actual, mais do que isso, algo que nos tempos de hoje é particularmente pertinente. E não falamos aqui de nenhum sentimento de “angústia”, nem sequer de “drama”, muito menos de “náusea”. E também não nos estamos aqui a referir ao mais do que estafado tópico da “morte de Deus”. Para além de toda essa “ganga existencialista” – que nos seja permitida a expressão –, há, reiteramo-lo, algo que se mantém realmente actual, mais do que isso, algo que nos tempos de hoje é particularmente pertinente e, por isso, operativo. Falamos da sua paixão pelo humano, da sua aposta pelo humanismo, a nosso ver, com efeito, algo que nos tempos de hoje é particularmente pertinente e, por isso, operativo.

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