Couto Viana, por António Quadros (II)

E acrescenta, logo de seguida, António Quadros: “Sem ambiguidades, Couto Viana vê o 25 de Abril e o período subsequente como a época da catástrofe, que precipitou o país para a decadência e para proximidade da morte. Sem ambiguidades, afirma-se nacionalista, sebastianista e monárquico. Mas é chegado o momento, cremos, de os adversários e os oponentes se ouvirem uns aos outros. Uma voz como a de António Manuel Couto Viana tem de contar para a força das coisas porque exprime, mais do que a sua própria emotividade pessoal, os ecos de uma profunda vivência nacional, silenciada ou reprimida que seja pelos ideais convencionais hoje dominantes, embora já não tão seguros de si e dos seus dogmas.

Organizado em estrutura coerente, Ponto de Não Regresso divide-se em cinco partes: No Signo de Camões; No Signo da Páscoa; No Signo do Desejado; No Signo da Restauração; e No Signo do Cárcere.

Em No Signo de Camões, Couto Viana começa por marcar com desespero o contraste entre o Portugal dos «Lusíadas» e o Portugal de hoje, como no poema A Camões, dolorosamente: Coroa, bandeira, brasão e lema,/ O vasto Império do coração,/ Vou encontrá-los no teu poema:/ Na pátria, não!// Corro o teu canto de canto a canto,/ Numa demanda de salvação;/ Ali, a glória do herói, do santo:/ Na pátria, não!// Ali, num reino ditoso e amado,/ Reina sem névoa Sebastião;/ Ali, presente pureza passada:/ Na pátria, não!// Ali, se enlaçam beleza e graça/ E, na certeza de ter missão,/Tenho o tamanho da minha raça:/ Na pátria, não!

Na Carta apócrifa de Camões para hoje, assim principia: Exaltei o passado, num presente/ Triste, apagado, vil./ Mas havia o futuro, mar em frente/ Para epopeias d’África e Brasil.

Para concluir, confundindo a sua voz com a do Poeta: Hoje, o presente/ É ainda mais vil e apagado e triste/ Porque, no mar em frente,/ Nenhum futuro existe.// A cobiça e a traição/ E não um rei, é hoje quem governa:/ Dorme, pois, para sempre, coração!/ Sê tu, silêncio, a minha pátria eterna!

Em No Signo da Páscoa, porém, a esperança reacende-se, com a analogia com o Cristo pascal, morto e ressurrecto: Por isso já não creio na agonia/ Do meu país:/ Não morre a terra e tudo principia/ está viva a raiz!

E, em No Signo do Desejado, é mais uma vez o velho mito que levanta o ânimo do poeta: E quem trará na mão o jugo e a lança?/ Seu vulto, em contraluz, saberei distinguir?/ Ilumine-lhe a face, a fé, a esperança/ Sepultadas, em flor, em Alcácer Quibir// Que novo Império destinado/ Lhe tem Deus, de quem é capitão?/ O futuro da glória do passado/ No céu, no mar, no coração!”.

Agenda MIL – 23 de Junho, em Coimbra, e 28 de Junho, via zoom, mais dois eventos para o apoio da PASC: Plataforma de Associações da Sociedade Civil (para mais informações: www.pasc.pt).

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