Diálogo com Ângelo Alves (III)

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Feita esta primeira crítica, prossigamos então a leitura desta obra de Ângelo Alves, incidindo agora o nosso olhar sobre o que ele nos diz sobre o “Movimento da ‘Filosofia Portuguesa’”, alegadamente o “segundo momento alto” dessa “corrente idealístico-gnóstica do pensamento português contemporâneo”. Começando por ressalvar que “o magistério do filósofo de O Criacionismo persiste nalguns dos seus discípulos” (p. 17), defende, porém, Ângelo Alves que “alguns dos representantes desta corrente filosófica foram opositores declarados não só da Igreja Católica, mas da doutrina e mundividência cristã, ora racionalizado as categorias e dogmas cristãos, como o trinitário e o cristológico, ora transcendendo e mitificando a história pátria, ao atribuir-lhe uma valor messiânico…” (pp. 18-19). Também aqui, Ângelo Alves parece-nos ter sido excessivo, na sua crítica. Se no “Movimento da ‘Renascença Portuguesa’” houve mais diferenças do que coincidências – desde logo, entre Teixeira de Pascoaes e Leonardo Coimbra –, o mesmo se poderá dizer, ainda com maior ênfase, quanto ao chamado “movimento da ‘Filosofia Portuguesa’”, o que igualmente inviabiliza, a nosso ver, a sua inserção nessa alegada “corrente idealístico-gnóstica do pensamento português contemporâneo”.

Falemos, para o atestar, de três nomes, que Ângelo Alves igualmente refere, de forma expressa: José Marinho, Agostinho da Silva e Álvaro Ribeiro. Quanto ao primeiro, se será excessivo qualificá-lo como “opositor declarado não só da Igreja Católica, mas da doutrina e mundividência cristã”, é inquestionável que ele assumiu, em relação à religião em geral e ao cristianismo em particular, algum distanciamento ou, pelo menos, alguma ambivalência, designadamente neste seu testemunho, em que a religião cristã aparece, ao mesmo tempo, valorizada e desvalorizada – nas suas palavras: “Se, por outro lado, na ordem do conhecimento, eu lutei contra a ameaça que o espírito cristão representa para a filosofia, na ordem do existir autêntico, pelo contrário, desde a primeira juventude, e de uma vez por todas, o cristianismo representou para mim o ímpeto e o exemplo ao qual o homem não pode e não poderá jamais furtar-se.”. Tal ambivalência de sentimentos relativamente à religião cristã não abalou, contudo, o posicionamento ultimamente religioso de José Marinho, posicionamento esse que o próprio assumiu em múltiplas passagens da sua obra – nas suas palavras: “Se nós definirmos religião como o viver ligado ao absoluto, seja efectivamente seja intencionalmente, devo dizer que esta situação espiritual foi permanente em mim. Abandonei a prática do cristianismo, nunca o sentido central dele. Comecei a filosofar não porque me faltasse a fé, mas porque se me pôs a urgência de esclarecê-la.”. ■

Agenda MIL – 29 de Fevereiro, 14h30, no Palacete Viscondes de Balsemão (Porto): 1ª sessão das novas “Tertúlias de cultura portuguesa”. Para mais informações: www.movimentolusofono.org