Diálogo com Ângelo Alves (IV)

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E quanto a Agostinho da Silva? Sendo verdade que ele próprio se assumiu como “ruim católico” e que, pelo menos em parte, mitificou “a história pátria, ao atribuir-lhe uma valor messiânico” – nas já aqui referidas palavras de Ângelo Alves, que nos parecem claramente dirigidas a Agostinho da Silva –, isso também não será suficiente para o inscrever, sem mais, nessa alegada “corrente idealístico-gnóstica do pensamento português contemporâneo”. E o mesmo se poderá dizer, ainda com maior convicção, em relação a Álvaro Ribeiro – não tivesse ele proclamado “a perfeita compatibilidade entre a Filosofia Portuguesa e a Filosofia Católica”. Aliás, Álvaro Ribeiro foi ainda mais longe, designadamente quando afirmou que “a filosofia portuguesa tem sido constantemente filosofia cristã”, ou que “a mais alta poesia portuguesa tende para o Mistério da Santíssima Trindade”. Chegados aqui, escusado quase que seria dizer que igualmente não concordamos com a inserção do MIL: Movimento Internacional Lusófono e da Revista Nova Águia nessa alegada “corrente idealístico-gnóstica do pensamento português contemporâneo” – e aqui falamos com especial conhecimento e autoridade. O MIL não é um movimento gnóstico (ou anti-gnóstico) – agrega pessoas das mais diversas sensibilidades filosóficas e religiosas, que têm “apenas” em comum a vontade expressa de defender e difundir, à escala global, a cultura de língua portuguesa.

Dito isto, não podemos deixar de dizer que muito nos honrou – e continua a honrar – a distinção de Ângelo Alves, ao ter considerado, nesta sua obra, o MIL: Movimento Internacional Lusófono e a Revista Nova Águia como “o terceiro momento alto” de uma corrente que teve como os dois primeiros momentos altos o “Movimento da Renascença Portuguesa” e o “Movimento da ‘Filosofia Portuguesa’”. Apenas não concordamos que se qualifique essa corrente como “idealístico-gnóstica”. Pelas razões aqui aduzidas, o “Movimento da Renascença Portuguesa” foi demasiado heterogéneo para ser qualificado, sem mais, dessa forma. E o mesmo se diga, ainda com maior veemência, em relação ao “Movimento da ‘Filosofia Portuguesa’”. Quer no primeiro caso, quer sobretudo no segundo, o que uniu as figuras dos dois movimentos foi, “apenas”, o desígnio de afirmar uma tradição filosófica de língua portuguesa, enquanto expressão maior da nossa História e Cultura. Nessa medida, o MIL: Movimento Internacional Lusófono e a Revista Nova Águia reconhecem-se sem qualquer reserva nessa linhagem, ainda que o nosso horizonte seja, no século XXI, naturalmente mais amplo. Trata-se, a nosso ver, neste novo século, não já apenas de reforçar o nexo entre Pensamento, Língua, História e Cultura a uma escala estritamente nacional, mas de estender esse caminho e esse horizonte a todo o amplo e plural espaço de língua portuguesa, afirmando, nessa medida, não já apenas uma Filosofia Portuguesa, mas, em última instância, uma Filosofia Lusófona. ■

Agenda MIL – 2 de Março, no Centro Regional do Porto da Universidade Católica Portuguesa: Colóquio “Ângelo Alves: Obra e Pensamento”.