Dos Reis Magos a D. Sebastião

0
345

Elvas, Celebração da Epifania, 2020

O que define essencialmente o ser humano e o distingue de todos os demais seres é a sua necessidade se encontrar sentido para a existência. Essa procura é a “estrela” que nos move, que nos guia, que mais substancialmente nos faz viver.

Os animais, ao invés, não sentem essa necessidade: satisfazem-se em viver na pura imanência, na estrita satisfação das suas necessidades naturais.

O ser humano, ao contrário, só se cumpre nesse movimento de transcensão da pura imanência. Por isso, ele tem sempre uma “estrela”, por muito que essa estrela o leve, por vezes, por ínvios caminhos. Há sempre, pois, uma “estrela”. Há sempre, assim, uma “Epifania”, uma luz, por mais que invisível.

Essa “estrela” que nos move, que nos guia, que mais substancialmente nos faz viver, constitui-se, para cada um de nós, como o absoluto, de que nos nutrimos – como escreveu Leonardo Coimbra, a abrir a sua obra Alegria, a Dor e a Graça: “As almas verídicas (porque há aparências, esboços de alma) nutrem-se dum único alimento – o absoluto.”

Aquele que segue a “estrela” é pois, pelo menos potencialmente, cada um de nós, aqui e agora (sublinhe-se: aqui e agora). Não é um outro, tal como um outro não era “D. Sebastião”, conforme defendeu José Marinho na sua Nova Interpretação do Sebastianismo, em que procurou “uma antropologia renovada, ou seja, uma nova visão compreensiva do homem, dos seus caminhos e dos seus fins”; “Qual é o destino do homem? – Tal é a interrogação pela qual se conclui e recomeça incessantemente todo o estudo como o que empreendemos”.

E isto porque, no seu entender, D. Sebastião, a própria “Ilha do Encoberto”, simboliza, sobretudo, o nosso “ser autêntico”: “Na Ilha Encoberta, D. Sebastião espera a hora, tal como no mais secreto da nossa alma e do nosso ser, espera o ser sumamente bom e sábio que nós somos e que tarda em manifestar-se plenamente, e sempre de algum modo se reafirma nos caminhos ínvios e vários do mundo.”.

Ainda nas palavras de Marinho: “…a ilha encoberta que é também a profunda alma humana onde o abscôndito espírito divino fez a sua morada (…).”. Daí que pelo famigerado “regresso de D. Sebastião” não se simbolize senão o regresso do homem ao seu “ser autêntico”, no seu “trânsito do viver caótico ao viver harmonioso”, na sua “passagem do reino ilusório da necessidade ao da liberdade”. Daí, enfim, todo o sentido da “viagem”: é por ela que nos tornaremos o que na verdade somos. Sigamos assim, tal como os Reis Magos, a “estrela”. Ela nos levará a nós próprios. A luz da “estrela” diz-nos apenas: “Torna-te naquele que és”. ■

Agenda MIL – 24 de Janeiro, 18h30, Escola Superior de Medicina Tradicional Chinesa (Lisboa): Lançamento de “Vida Conversável”, de Agostinho da Silva (Colecção NOVA ÁGUIA).