O racismo: do metafórico ao literal

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Há poucas semanas, Joacine Katar Moreira escreveu, na rede social “twitter”, que “o feminismo branco é intrinsecamente elitista e racista”. Mais recentemente, Mamadu Ba, num vídeo publicado no canal “youtube”, defendeu – metaforicamente, é claro, como logo ressalvou – que “temos que matar o homem branco”. Escusava Mamadu Ba de ter feito essa ressalva – por mais racista que seja, decerto que ninguém esperaria (pelo menos, em Portugal…) que viesse a agir em consequência. Não existem, para tal, para usar um conceito consagrado, “condições objectivas”.

Já na Alemanha dos anos 30 do século passado essas condições foram-se criando, para o deslize do plano metafórico para o plano literal. No início, convém lembrar, o inimigo era também apenas metafórico: o “judaísmo internacional”, “inimigo das pátrias” e das “culturas nacionais”, fomentador do “capitalismo financeiro”, quando não também do “marxismo” e do “bolchevismo” (por isso, de resto, se apresentou o nazismo como uma “terceira via”). Progressivamente, porém, o regime nazi concluiu que para combater realmente o “espírito judaico” era preciso eliminar, literalmente, a “matéria judaica” – leia-se: os judeus.

No Portugal do século XXI não há forma de essas condições se criarem, pelo que podemos ficar descansados. A nossa longevidade histórica enquanto país sedimentou uma cultura que convive bem com a diferença: seja ao nível da cor de pele, seja ao nível do credo religioso. É também por isso que o radicalismo islâmico, tão pujante noutros países europeus, permanece entre nós um fenómeno residual. Não há, também aí, “condições objectivas” para que ele fermente de forma significativa. Por isso, poderia (e deveria) Portugal ser uma mais-valia para a resolução da situação que se está a viver no norte de Moçambique – não apenas enviando forças militares, para pacificar, no imediato, o território, mas, mais importante a médio-longo prazo, ajudando a fomentar por lá essa nossa cultura de tolerância inter-religiosa.

Por cá, devemos promover ainda mais essa cultura. E por isso não nos passa pela mente sugerir, quer a Joacine Katar Moreira quer a Mamadu Ba, que “voltem para a sua terra”. No caso de Mamadu Ba, porque isso poderia ser realmente perigoso – proclamar, no Senegal, que “é preciso matar o homem branco” teria, muito provavelmente, (más) consequências bem literais. No caso de Joacine Katar Moreira, porque ela é melhor prova, no Parlamento, da magnanimidade da nossa cultura. Por nós, eles devem pois ficar e até, se for caso, constituírem um novo partido. Seria curioso verificar como muitos daqueles que fustigam (justamente) o “Chega” por estigmatizar os ciganos iriam apadrinhá-lo. Vai uma aposta?

Agora mais a sério: é mais do que tempo de Joacine Katar Moreira perceber que estigmatizar o “feminismo branco” é, no mínimo, contraproducente para a justa reivindicação dos direitos das mulheres negras. Analogamente, é mais do que tempo de Mamadu Ba perceber que os brancos não são ontologicamente agressores e os negros ontologicamente vítimas. Não. Os brancos também se escravizaram entre si, tal como os negros entre si se escravizaram. Depois, historicamente, é um facto, houve uma época em que, mais frequentemente, foram brancos a escravizar negros. Mas essa época foi felizmente ultrapassada e, também nesse caso, é contraproducente continuar a querer perpetuar uma mera situação histórica. De outro modo, no século XXII ainda veremos alguns países a pretender justificar o seu fracasso com o tempo da escravatura… ■