Pela vida dentro*

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Como refere o próprio autor, este livro nasceu de uma sugestão minha – sendo que a história desse “nascimento” se conta em breve palavras: após uma visita conjunta ao Embaixador Francisco Ribeiro Telles, Secretário-Executivo em exercício da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) e filho de Gonçalo Ribeiro Telles, o grande Mestre do João Reis Gomes, ele contou-me uma série de episódios extraordinários, um deles envolvendo Winston Churchill – que ele tinha chegado a conhecer em criança.

Nesse breve trajecto entre o Palácio dos Condes de Penafiel e o Palácio da Independência, sede do MIL: Movimento Internacional Lusófono, ocorreu-me então essa ideia, que logo enunciei: “João, você deveria escrever uma auto-biografia. Escreva que eu edito”. O João não acedeu de imediato – tendo chegado a replicar que a escrita não era o seu forte –, mas percebi que ficou entusiasmado com a ideia. De tal modo que, passado pouco tempo, me anunciou que tinha começado a escrever…

Já após o período de confinamento por que passámos, voltámo-nos a encontrar no Palácio da Independência – e o João foi-me dando conta que a obra tinha entrado “em fase de revisão”, o que a sua mulher, Isabel, me confirmou. Em Junho deste ano, reunimo-nos para acertamos os detalhes finais da edição e, um mês depois, a obra nascia… Mais um Livro MIL, sendo que este foi um daqueles que mais gostei de editar. Não apenas por o João ser um Amigo. Mas também, e sobretudo, pelo facto de ele ser, realmente, “um homem extra-ordinário”. E uso a expressão entre aspas porque foi assim que Eduardo Lourenço se referiu a Agostinho da Silva, no prefácio ao seu livro “A última conversa” (Ed. Notícias, 1995). 

Bem a propósito: o João sempre me fez lembrar muito o Agostinho da Silva, o que se confirmou quando li este livro, sobretudo nas passagens em que o João dá mais conta do seu activismo social e político. Vinham-me sempre à ideia algumas palavras do próprio Agostinho – como estas: “Nenhuma direita se salvará se não for de esquerda no social e no económico; o mesmo para a esquerda, se não for de direita no histórico e no metafísico”. É que, assumindo-se como um homem “de esquerda no social e económico” (e, claro está, no ecológico), o João tem uma visão histórica do país que falta a (quase) toda a “esquerda portuguesa”. 

Desde logo por isso, o João é alguém que importa conhecer de perto. Desde logo por isso, este é um livro que importa ler. Para mais, lê-se facilmente – é um livro breve, escrito numa prosa acessível e fluente, sem artifícios retóricos. Se o João fosse um romancista, teria pegado na sua vida e escrito um livro com várias centenas de páginas – e havia mais do que matéria para encher várias centenas de páginas… Como o João não é um romancista, nem finge sê-lo (ao contrário de muitos, que, não o sendo, o fingem…), escreveu um livro breve, menos extenso. Menos extenso mas, diria, mais intenso. O que neste livro podemos ler é a memória viva de alguns episódios que, no seu conjunto, dão conta da vida de “um homem realmente extra-ordinário”. ■

*De João Reis Gomes (Ed. MIL, 2020). Para encomendar:
 
info@movimentolusofono.org