Portugal como filiátria?

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A propósito do texto de Paulo Rangel “Portugal como filiátria” (in PÚBLICO, 10.08.2021), que saudamos – tanto mais porque é raríssimo ver um político referir-se a autores como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Leonardo Coimbra, Orlando Ribeiro, José Marinho, Agostinho da Silva, Jorge Dias, Cunha Leão e António José Saraiva –, permitimo-nos algumas considerações, em expressa homenagem a Pinharanda Gomes, dois anos após a sua partida, um dos nossos mais finos e fundos filósofos da Ideia de Pátria (cf., por exemplo, “Anamnese da Ideia de Pátria”, in NOVA ÁGUIA, nº 1, 1º semestre de 2008).

Começando por recordar que “a pátria, todos o sabemos, é literalmente a terra dos pais, a terra do pai”, Paulo Rangel contrapõe depois a ideia de Pátria à ideia de Mátria, citando para o efeito Natália Correia, que, como aduz, «queria sublinhar que a dimensão afectiva da nossa pertença a uma comunidade – a uma comunidade de destino, a uma nação – se revelava muito mais pela conotação uterina, visceral, umbilical de “mátria” do que pelo sentido fálico, guerreiro, autoritário de “pátria”». Tudo isto para, em jeito de síntese, propor o conceito de “filiátria”: «A mátria-pátria não é apenas a terra das mães e dos pais, dos egrégios avós, vindos de tempos imemoriais. A grande realização da pátria-mátria é tornar-se a terra dos filhos: é fazer-se “filiátria”».

Não contestando em absoluto o que Paulo Rangel defende, julgamos porém que a ideia de Pátria – mais fina e fundamente considerada –, já contém em si esse sentido de futuro. A esse respeito, de resto, um dos autores que Paulo Rangel refere (José Marinho) longamente distinguiu “princípio” de “origem”, afirmando depois que foi “para realizar o universal concreto e real que surgiram as pátrias”. Ou seja, nesta contrapolar visão, Pátria não é tanto a terra de origem (a “terra dos pais, a terra do pai”) mas, sobretudo, a terra de destinação – como igualmente António Vieira já havia sinalizado na sua “História do Futuro”. Nessa medida, a Pátria será também, cumulativamente, “filiátria”.

Parafraseando um outro político, não interessa pois tanto donde se vem (a terra de origem) mas, sobretudo, para onde se pretende ir (a terra de destinação). Nessa medida, Paulo Rangel tem toda a razão quando assume como nossa a medalha de ouro de Pedro Pablo Pichardo nas recentes Olimpíadas. Não sendo português de nascença, o atleta originariamente cubano assume a vontade de se integrar ainda mais na nossa comunidade histórica – e isso chega e sobra para fazer dele um nosso compatriota. Nesta “História do Futuro”, Portugal e a própria Portugalidade são mais origem do que destinação. Esta, a “terra do fim”, será extensiva a todos os lusofalantes – abarcará e abraçará, em plena fraternidade, a Portugalidade, a Angolanidade, a Brasilidade, a Caboverdianidade e todas as restantes identidades dos Povos da Lusofonia. ■