Gouveia e Melo, uma estrela em ascensão

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Tiveram este mês início os preparativos para uma potencial campanha eleitoral do Vice-Almirante Gouveia e Melo com vista às próximas presidenciais. Ninguém imaginaria, há apenas seis meses, que este militar com ar de durão tivesse uma apetência tão grande para “entrevistas de vida” e banhos de multidão, mas o que é certo é que tem sabido usar habilmente o seu cargo de coordenador da Task Force do Plano de Vacinação contra a Covid-19 para se tornar uma verdadeira estrela mediática em ascensão na vida política.

A vaia monumental que na semana anterior recebeu de um grupo de jovens negacionistas, em Odivelas, ao visitar um centro de vacinação, parecia já prenunciar o inevitável desagravo. Este surgiu no último fim-de-semana, em Alcabideche (Cascais), no dia em que abriu a vacinação para as crianças entre os 12 e os 15 anos. Desta vez, com programação ou espontaneamente, o Vice-Almirante foi recebido com uma estrondosa ovação. “Não, não estava à espera”, comentou o militar, com oportuna modéstia. E acrescentou, personalizando ainda mais o acto: “Acho que estes aplausos foram mais para me animar, dizer ‹estamos consigo›, e eu agradeço imenso e fico comovido, como é evidente”.

Pouco antes, Gouveia e Melo fora chamado ao Palácio de Belém, onde compareceu no seu alvo uniforme nº 1. Para surpresa geral, o Presidente Marcelo condecorou-o então com a Grã-Cruz da Ordem de Avis, com o pretexto pouco plausível de homenagear a sua “carreira militar”.

Aos jornalistas que lhe perguntam se toda esta exposição mediática significa a sua disposição para iniciar uma nova carreira aos 61 anos, Henrique Gouveia e Melo vai respondendo vagamente que “não tem jeito para a política”, por mais que seja visível a satisfação que as luzes da ribalta lhe inspiram.

O à-vontade com que lida com as multidões e as câmaras das televisões é patente. Há dias, teve uma saída “à Marcelo” ao aceder gostosamente, com um sorriso de orelha a orelha, a um grupo de jovens que o desafiaram para tirar umas ‘selfies’. E não esconde que até já está a escrever as suas memórias…

Nada o faria prever, há escassos meses, quando o Vice-Almirante não passava de um militar anónimo na Task Force da Vacinação. Henrique Eduardo Passaláqua de Gouveia e Melo nasceu em Novembro de 1960 na então Província Ultramarina de Moçambique, onde viveu e estudou até aos 14 anos. Forçado a deixar a terra natal como “retornado”, passou quatro anos com a família no Brasil antes de chegar a Lisboa para ingressar como Cadete na Escola Naval, em Setembro de 1979. Terminou o curso em 1984 e iniciou então uma discreta carreira como oficial da Armada, primeiro em navios de superfície e depois na minúscula (e sempre avariada) frota submarina. Frequentou cursos de especialização, foi chefe de gabinete do Chefe do Estado-Maior da Armada (2014-2016) e Comandante Naval (2017) antes de ser integrado na Task Force do Covid, que coordena desde Fevereiro deste ano.

Quem diria que neste currículo se iria encontrar um potencial candidato a Presidente da República… 

Mariana

Discretamente, também Mariana Vieira da Silva, ministra de Estado e da Presidência, iniciou os preparativos para uma potencial entrada na corrida em direcção à liderança socialista. Mariana, que este mês foi chamada a presidir ao Conselho de Ministros por 15 dias, na ausência do titular em férias, junta-se assim ao pelotão de potenciais pretendentes: Pedro Nuno Santos, Fernando Medina e Ana Catarina Mendes. Curiosamente, todos se sentarão ao lado de António Costa, na mesa do Congresso que este fim-de-semana se realizará em Portimão.

Embora Costa tenha dito, no último fim-de-semana, que a questão da sua sucessão no partido só será abordada em 2023, quando ele próprio decidirá se voltará (ou não) a candidatar-se, é indesmentível que as movimentações já começaram. Este mês, ao surgir como Primeira-Ministra em exercício, por indicação de Costa, Mariana Vieira da Silva surgiu aos olhos dos socialistas como uma séria candidata. Sobre o assunto, a única declaração da filha do ex-ministro Vieira da Silva foi significativa: “Inevitavelmente, todos os partidos serão um dia liderados, em momentos diferentes, por mulheres”… ■