PCP: celebração anacrónica e atentado à inteligência

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Houve sem embargo duas excepções ao modelo adoptado pelos comunistas pelo mundo inteiro desde 1917: uma antiga e outra moderna. Comecemos pela primeira.

Como na Europa Ocidental e Central houve forte oposição ao ideal comunista, levando inclusive ao aparecimento de movimentos totalitários de sinal contrário, como foram o fascismo italiano e o nazismo na Alemanha, complementada pelo falhanço da implantação do comunismo em Espanha, por via da vitória das forças nacionalistas, começou a ser desenvolvido um conjunto de estudos sociais, mais tarde conhecido por “marxismo cultural”, no Instituto de Investigação Social, ligado à Universidade de Frankfurt. Daí ter ficado conhecido como “Escola de Frankfurt”. Esta “escola” passou a desenvolver alguns conceitos diferentes do pensamento marxista e hegeliano clássico e relacionando-as com a psicanálise, sociologia e outras disciplinas, revendo o “determinismo económico”; dando mais valor à importância da cultura e sendo céptica relativamente às virtualidades da luta operária revolucionária. Fez também uma análise crítica das ideias “iluministas” e do positivismo, procurando determinar porque teriam falhado em muitas das suas premissas e consequências. E, claro, sem deixar de atacar o capitalismo. Daí que as suas principais conclusões tenham sido condensadas como “teoria crítica”.

O instituto foi fundado em 1924, por Carl Grunberg, possuindo numerosos pensadores como Theodor Adorno, Erich Fromm, Max Horckheimer e Herbert Marcuse, talvez o mais conhecido. O italiano Gramsci foi também um dos seguidores mais influentes. Este instituto mudou-se para a Universidade de Columbia, em Nova-York, em 1941 (onde também passou a efectuar estudos sobre racismo), tendo regressado à casa mãe, em 1949. 

Na prática resultou que sendo considerado inadequado a tomada do poder no “Ocidente”, pela via da “luta armada dos trabalhadores”, dado que nas sociedades evoluídas e respectivas matrizes culturais e sociais serem avessas à comunização, passou a atacar-se os fundamentos dessa mesma sociedade a fim de a decompor e sobre o seu cadáver construir então, os “amanhãs que cantam”…

Deste modo, sobretudo a partir dos anos sessenta, passou-se a subverter as bases da família tradicional; a atacar a religião, sobretudo a Igreja Católica; as virtudes militares; a moral, tornando-a relativa; exponenciando o individualismo e o hedonismo; a disseminação das ideias através dos meios artísticos e culturais; a tolerância e o incentivo da droga e da pornografia; o amor livre; o pacifismo; o feminismo; o elogio dos vícios e a ridicularização da virtude; a imposição da homossexualidade e da cultura da morte; a manipulação genética, etc., enfim, a subversão de toda a lei natural.

Ataca-se, outrossim, o conceito de Nação, vituperando-se o “patriotismo” sob a capa de se estar a conter o “nacionalismo”, segundo os mesmos, fautor de guerras e conflitos. O multiculturalismo e a migração desregrada calçam como uma luva neste conceito. Aliás, o comunismo é, na sua essência, internacionalista e proselitista! Para quem tanto afirma defender a liberdade como a diversidade, não está mal…

Nem a Santa Sé escapou a toda esta vaga de “revolução permanente”, sobretudo a partir do Concílio Vaticano II, com o aparecimento dos chamados católicos progressistas e os teólogos da libertação; as concessões em termos de doutrina; a peste da pedofilia e o emaranhado mafioso do Banco do Vaticano. Até a notável Doutrina Social da Igreja, definida pelo Papa Leão XIII, mil vezes superior a qualquer teorização marxista, tem ficado perdida no meio disto tudo.

É tudo isto o que a “Escola de Frankfurt” espalhou pela Europa, sendo explorado por franjas ainda mais bizarras, e exportou para os EUA, ainda durante o segundo conflito mundial – depois combatida naquele país durante a paranoia anticomunista da época Macarthy, nos anos 50 – país onde hoje campeia infrene, nas universidades mais conceituadas e em Hollywood, gerando a actual América de Biden e Kamala Harris, o Canadá de Justin Trudeau e o Forum de S. Paulo, de onde irradia para toda a América Central e Sul (o comunismo dos irmãos Castro sempre foi mais estalinista e não consegue adaptar-se, tal como o PC, à maioria destas modernices…).

Deste modo já há algum tempo que não se ouve defender a luta de classes; nem a luta dos trabalhadores contra os patrões; dos proletários contra os burgueses. Não, agora a luta é a da mulher contra o homem; do homo contra o hétero; do preto contra o branco (melhor dizendo, de todas as cores contra o branco); do ateu contra o religioso; do colonizado contra o colonizador; dos muçulmanos contra os cristãos (e todos contra a Igreja de Roma). Os antepassados são umas bestas ignaras e imorais e, portanto, a História está toda errada, havendo que a reescrever e, já agora, redefinir o vocabulário, criminalizando o que sai fora das novas normas. Nem no pior tempo das várias Inquisições, se assistiu a um vendaval destes.

Grande parte deste desfiar de ideias/causas – qual delas a pior – está já na agenda dos assuntos a tratar na ONU, essa organização babilónica, coio de inutilidades, que finge tratar do Direito Internacional e da harmonia entre os Estados, e até hoje, não conseguiu resolver qualquer problema grave que tenha surgido. Todos os santos dias, se tira uma nova ideia (escabrosa) da cartola, até porque a “revolução” é como uma bicicleta, tem que estar em movimento, quando pára, tomba… Além do mais, os fins justificam os meios; lembram-se?

O segundo desvio à ortodoxia marxista – leninista – estalinista, tão cara ao PC que coube em sorte aos portugueses, tem a ver com a actual situação na China (onde já tinha havido uma zanga nos tempos do Maoismo, também ela condenada pelo PC de Cunhal), a qual mantendo um aparelho partidário com todos os tiques comunistas, de cerca de 90 milhões de filiados, passou a executar uma política económica e financeira de capitalismo de estado, abandonando a maior parte das teorias marxistas sobre a organização e praxis económica. E com isto está desenvolver um poderio nunca visto, à escala mundial, que vai ter consequências profundas na geopolítica global. A situação aproxima-se, pois, de uma anarquia completa.

Apenas uma última nota para referir algo que passa despercebido e que, por norma, raramente é referido: é que a maioria dos ideólogos e revolucionários socialistas e comunistas, iniciais, foram judeus Ashkenazy. E ainda hoje existem em Israel muitos “Kibutz”, que não são mais do que adaptações dos “Kolkhozes” (grandes quintas comunitárias) soviéticos. É necessário dizer isto para se poder dar todo o devido enquadramento às coisas. (Atenção, Jesus Cristo encarnou, ao que se sabe, no seio da comunidade dos Essénios e falava aramaico…).

Comemorar os 100 anos do PC (P) devia ser considerado um anacronismo, um desvirtuamento da realidade; um atentado a toda a matriz cultural, política e social portuguesa. A inconsciência social, a negação da nacionalidade. A elegia daquilo que é contrário à virtude, à moral, ao dever e a todos os valores humanistas, aprisionando o Homem, no próprio sistema. 

A exibição pública nas principais praças das maiores cidades portuguesas da bandeira do PC – que não é mais do que a réplica da bandeira de uma potência estrangeira, a URSS, com a agravante de ter sido sempre inimiga de Portugal – o que devia ser proibido liminarmente por lei, é um ultraje a todos os bons portugueses.

Por tudo isto e muito mais, celebrar o centenário do PC, representa uma incomensurável falta de vergonha e consciência colectiva e é, em síntese, e simplesmente, um atentado à inteligência. ■