Presença de Paulo Ferreira da Cunha na NOVA ÁGUIA (II)

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E “o resultado” – como, logo de seguida, refere – “é a incompetência generalizada em que vivemos. Generalizada, mas letrada”. E o que se pode extrair, desta tão breve quanto incisiva observação? Desde logo, a valorização da cultura histórica, em todas as áreas. Depois, um tão impiedoso quanto certeiro diagnóstico do estado do nosso ensino, em todos os níveis. Por fim, uma não menos certeira refutação de um dos “mitos” mais difundidos dos nossos tempos: o de que a geração mais jovem é “mais qualificada de sempre”. Como, se tão assaz inculta?!

Daqui também se extrai, a nosso ver, o perfil “politicamente incorrecto” de Paulo Ferreira da Cunha, algo que maximamente valorizamos, por considerarmos que essa “peste intelectual” – expressão nossa – é uma das razões maiores da nossa decadência (não especificamente portuguesa). Cada vez mais, por toda a Europa, por todo o Ocidente, por todo o Mundo, as pessoas em geral – intelectuais incluídos, e por vezes à cabeça… – limitam-se a ecoar (e, assim, a caucionar) absolutas inanidades que não resistem ao menor exame crítico. O “mito” de que a actual geração mais jovem é “mais qualificada de sempre” é, a esse respeito, um bom exemplo. Não há dia em que mil e uma vozes o não ecoe, acriticamente.

Num outro ensaio, “Fernando Pessoa, hermenêutica jurídica e retórica”, publicado no sétimo número da Revista (1º semestre de 2011), podemos apreender um outro traço de carácter de Paulo Ferreira da Cunha, igualmente pouco comum nos tempos de hoje: a sua auto-ironia. É que, neste seu ensaio, Paulo Ferreira da Cunha pretende, com evidente simpatia, “explicar o relativo desprezo de Fernando Pessoa pelas coisas jurídicas, numa vasta e variada obra que não está de modo algum isolada do político e do social”. E, nas entrelinhas, quase que podemos ler: “Bem te compreendemos, Fernando, bem te compreendemos…”.

No ensaio seguinte, “Dalila, Mestre Ecléctica”, publicado no décimo número da Revista (2º semestre de 2012), debruça-se, Paulo Ferreira da Cunha, sobre alguém, Dalila Pereira da Costa, com ainda maior “desprezo pelas coisas jurídicas” (e pedagógicas…), qualificando-a até como “Mestre”: “Dalila era Mestre, desenvolveu um ensino oral, que nela fluía, como é comum nos grandes mestres, de forma natural e sem o aborrecido e intimidatório didatismo de alguns, que são pseudomestres de pose e profissão. Na realidade, são apenas professores, e maus. Apesar de o presente desnorte pedagógico-didáctico os elevar e entronizar, enquanto torna a vida do mestre professor totalmente desesperante – ou seja, sem esperança. E isso mata o Mestre./ No futuro, certamente, os Mestres não serão professores (…)”. ■