Uma polémica de Verão

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Com a chegada do Verão e a interrupção (apenas) aparente da guerra cultural em curso em torno da nossa memória histórica que, um pouco por todo o Ocidente, tem visado a estatuária pública, emergem algumas polémicas bem menos relevantes – as típicas polémicas de Verão, a não por acaso designada “silly season”.

Falamos, entre nós, da escolha da ex-deputada do Partido Comunista Português, Rita Rato, para dirigir o Museu do Aljube, em Lisboa, que se intitula “Museu da Resistência e Liberdade”. Tem-se alegado que a pessoa em causa não tem o menor currículo para dirigir um Museu e, pior ainda, teve declarações públicas em que, manifestamente, escamoteava a dimensão opressiva dos regimes comunistas – desde logo, o da União Soviética. O que, para dirigir um auto-intitulado “Museu da Liberdade”, seria alegadamente intolerável.

Publicamente, há mesmo quem clame para que Rita Rato se torne numa nova Zita Seabra, renegando tudo o que PCP sempre defendeu e assumindo o óbvio: que o PCP sempre caucionou regimes muito mais opressivos do que o do Estado Novo. Obviamente, Rita Rato jamais o fará. Ao invés, é expectável que, na direcção do Museu, reforce o logro do título “Museu da Liberdade”.

Para mais, o eleitorado do PCP convive bem com esse logro. Muitos deles (e conhecemos alguns…) jamais aceitariam viver num regime comunista e reconhecem que, no plano macropolítico e macroeconómico, o ideal do PCP é algo que a história já se encarregou de refutar suficientemente. No entanto, votam no PCP sem qualquer angústia ou sequer um vago sentimento de contradição. Apenas porque vêem no PCP o melhor exemplo que temos de um “partido sindical” – ou seja, o partido que, sobretudo no funcionalismo público, mais defende, pelo menos no imediato, os “interesses dos trabalhadores”.

Rita Rato, pela sua já longa militância no PCP, sabe decerto isso – admitimos até que, ela própria, jamais aceitasse viver num regime comunista. Tal como os padres ateus que, Domingo após Domingo, continuam a celebrar missa, por mera inércia e/ou por constatarem que isso é reconfortante para os “fiéis”, Rita Rato, na direcção do “Museu da Liberdade”, confortará também, certamente, as dúvidas dos mais incréus… Não há, pois, por isso, motivo para tanto escândalo, ou sequer polémica, ainda que de Verão. Somos todos suficientemente cínicos para sabermos que eles sabem que nós sabemos. ■