Líder do Chega enfrenta balbúrdia e ajoelha

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Como sempre, vamos começar pelo princípio.

Sexta feira, 18 de Setembro, o tempo ameaçava chuva, e Évora tinha feito do Chega o seu partido. Ruas e becos estavam enxameados de cartazes, bandeiras e flores.

Pelas 17.50 já a polícia de choque vinda de Lisboa enjaulara com baias de ferro cerca de cinquenta ruidosos antifacistas que animavam a Praça do Giraldo. Quem conhece o povo de Évora e arredores – lembrar que a cidade tem Universidade, e que os jovens tradicionalmente são os mais disponíveis para protestar – dizia-nos que se tratava de anarquistas de esquerda, e jurava que o PCP e o Bloco se tinham posto ao fresco evitando “dar ainda mais palco ao André Ventura”.

Pouco antes das 19 horas, na porta de Moura, aglomeravam-se jornalistas e polícias, estes oriundos dos contingentes de Beja e Évora, e bem menos musculados que os seus colegas do Corpo de Intervenção.

Às 19.45 estávamos todos fartos da espera pelo Ventura. A chuvinha miúda começou a cair e os cinquenta militantes do Chega iam engrossando com carros particulares que despejavam mais três ou quatro pessoas de símbolos e T-shirts.

Por essa altura anoitecia em Évora. Trajado a rigor, um jovem de 18 anos (“ainda não posso tirar a carta”) carregava uma bandeira de Portugal. Não mais o vi na II Convenção do partido de André Ventura.

Cerca de 500 manifestantes esperavam o líder. A polícia entra em frenesim. Alarme (quase falso). Chegou Pacheco de Amorim mais um lote de apoiantes do Chega.

Rodeado de seguranças privados, André Ventura finta os pingos da chuva e aparece aos militantes, que nessa fase seriam, segundo a polícia, entre os 600 e os 700.

Quando chega, quase às 20.15, com as emoções ao rubro, de noite, e à luz de tochas, Ventura conquista o caminho até à Praça do Giraldo, onde o fechado café Arcádia é o triste espelho da crise.

André sobre as escadas da igreja e diz coisas.

Qual o conteúdo das coisas?

Ninguém percebeu bem. Só se ouviam as vozes entusiasmadas e palavras de ordem. Ao longe, os ululantes de esquerda, contidos pela polícia, conseguiram pôr o Grândola Vila Morena em altos berros, utilizando o primeiro andar de uma academia recreativa que tomaram de assalto, como bons anarquistas.

Pouco depois, mudaram para José Mário Branco. “A cantiga é uma arma de pontaria / A cantiga é uma arma e eu não sabia / A cantiga é uma arma contra a burguesia”. Uma canção que mostra o “tiro ao lado na História” da parte destes anarquistas.

Mas qual era a tal burguesia que rodeava Ventura? Todos viram na televisão e, tal como o PSD, o Chega é manifestamente um partido popular e interclassista.

E assim se foi jantar, tarde para meu gosto, mas por solidariedade para com uma camarada que tinha de enviar peça para a rádio. Outros ritmos, bem diferentes do dos semanários. Outras adrenalinas. Mas outras reduzidas possibilidades de reflexão. E isso conta.

E assim se chegou a Sábado. Cada militante ou observador pagou quinze euros e foi incentivado a almoçar na espelunca que alugara ao Chega o espaço da Convenção.

O discurso de André Ventura tem o dom de empolgar a sala. A isto chama-se carisma. Na Direita, como ele, só vi em Sá Carneiro; e à Esquerda, em Álvaro Cunhal.

Uma coisa é certa: André Ventura vai até onde quiser.

“Não me vou vergar ou vender ao sistema”. Sala de pé.

“Vamos alterar a máquina do Estado”. Idem.

“Nas legislativas vamos ser o terceiro partido. Mérito dos militantes!” Idem.

“Vou lutar com todas as minhas forças para que as eleições presidenciais tenham uma segunda volta”. Idem.

“Tenho os melhores militantes de Portugal”. Idem.

“Vencer. Vencer. Vencer. Eles ainda não perceberam que este é o grande objectivo do Chega”. Idem.

“Mas eles já perceberam que nós não cedemos”. A sala continuava de pé.

Vários jornalistas de esquerda acusavam o incómodo de ‹mostrar› aquele líder do Chega. Mas ser jornalista implica cumprir as regras da Lei de Imprensa e do Código Deontológico, o que é uma chatice. Mesmo que nem todos cumpram.

Mas voltando aos rostos dos jornalistas. Incrédulos, iam deixando um ar de espanto e vários alertas para o perigo que vinha do Chega.

Há dois anos, Ventura era militante do PSD. Tinha sido o candidato autárquico a Loures, dando o melhor resultado que algum dia se teve.

Agora, Ventura quer todo o seu novo partido mobilizado para a luta: Regionais dos Açores, Presidenciais e Autárquicas de 2021.

Domingo era para ser o dia institucional. Era, mas não foi. 

A lista para a direcção apresentada por Ventura – em ‘directas’ renovou a liderança com mais de 99% dos votos – chumbou sem que ninguém percebesse o que se estava a passar. Quem me explicou foi Luís Paulo Fernandes, vice-presidente da Distrital de Leiria (por onde foi cabeça-de lista) e que eu conhecia de outras funções, e de outros carrosséis.

Pois bem, o Chega mantém o anacronismo de ter os candidatos às secções e às autárquicas ‹escolhidos› pelas distritais. Com as sondagens em torno dos dois dígitos, as autárquicas de Outubro de 2021 vão eleger muitos vereadores do Chega e, quem sabe, presidentes.

Diogo Pacheco de Amorim teve a coragem de defender o processo. Mas os militantes não lhe perdoaram o apagão na Democracia. Para quem já viu muitos Congressos, estou certa para vos dizer que Pacheco de Amorim tem um longo passado, mas não terá um longo futuro no Chega.

Perante a crise, a solução foi mudar a lista. Ventura puxa Pacheco de Amorim para o segundo lugar na direcção. Mas na hora de votar, novo chumbo.

Nova interrupção, Ventura negoceia e apresenta a mesma lista. Não se sabe qual o lote de cedências que fez ao aparelho do seu partido. Nas autárquicas logo de verá.

E foi assim. André Ventura subiu ao palco para o encerramento da II atribulada Convenção Nacional do Chega.

Às 20.14 ajoelha-se no palco, comovido. Uma hora depois sai da sala, exausto mas feliz.

Na saída, e baixinho, disseram-lhe ao ouvido: “André, o meu PSD precisa do teu Chega para uma nova AD”.  ■