A anarquia das trotinetes

Inês Montargil
Inês Montargil
Médica Dentista Membro da Direção Nacional do CDS-PP

O uso crescente de trotinetes elétricas em Lisboa é bem visível.
O uso das “rodas elétricas” na via pública, numa primeira abordagem, parece uma solução moderna e ecológica, mas traz riscos significativos e muitas vezes graves, tanto para quem as conduz como para os peões ou para quem conduz um veículo em via pública.
Apesar das recomendações, para que seja seguro o uso das mesmas, traçado nas vias e a aplicação de algumas regras, a verdade é que está muito aquém da verdadeira segurança para quem conduz estes aparelhos, assim como de quem passa por eles.
A capital francesa já proibiu o uso das trotinetes elétricas desde setembro de 2023. Em Madrid a proibição de alugar estas trotinetes também já foi aprovada, de forma consciente, mas ainda faltam muitas mais.
Não devemos ter aquele espírito típico de andar a reboque das outras cidades, tentando imitá-las em tudo. Lisboa deve ter a coragem de implementar as medidas que considera corretas e adequadas à sua realidade. Porque não sermos nós o exemplo e tomarmos a iniciativa de fazer o que realmente achamos certo? Porque não dizer basta a este caos de trotinetes na cidade?
A falta de obrigatoriedade do uso de um capacete de estrutura rígida obriga o indivíduo a uma exposição total, sem qualquer proteção.
Quando existe uma colisão ou uma queda, o impacto é direto, causando muitas vezes lesões graves na zona da cabeça e pescoço, muitas vezes irreversíveis.
Numa cidade como Lisboa, em que a via pública tem muitas vezes buracos, desníveis, é irregular, cidade que não é plana, as pequenas rodas das trotinetes tornam-se perigosas, aumentando o risco de quedas e acidentes.
Um simples obstáculo pode provocar uma queda violenta. E as pedras soltas nas nossas estradas são uma constante.
Vejo muitos jovens com idades entre os 12 e 15 anos a chegarem às escolas, sem qualquer proteção e, muitas vezes, sem conhecerem as regras de trânsito, representando um perigo tanto para eles próprios, como para os condutores que circulam ao lado, que muitas vezes são surpreendidos e assustados pelas manobras imprudentes, perigosas e inesperadas destas trotinetes.
É comum ver estes jovens a circularem em sentido contrário. Surreal e inconsciente. Por vezes dois na mesma trotinete.
Faço aqui um apelo aos pais para que estejam atentos ao uso das trotinetes pelos mais jovens. A ausência de medo, a falta de informação e o desconhecimento das regras de segurança, aliados à sensação de invulnerabilidade típica da juventude, podem ter consequências trágicas. Viver num mundo “cor-de-rosa”, onde nada de mal parece poder acontecer, é um erro que pode custar caro.
É fundamental que os pais orientem os filhos sobre os perigos reais das trotinetes. Desde a velocidade excessiva, o uso em locais inadequados e a falta de proteção, como o capacete, aumentam exponencialmente o risco de acidentes graves. A responsabilidade começa em casa, explicando os perigos. Só assim será possível evitar que um momento de diversão se transforme numa tragédia que marca para sempre a vida destes jovens e das suas famílias.
Acresce ainda o perigo associado ao uso destas trotinetes pelos jovens durante a noite, muitas vezes sob o efeito do álcool, quando a falta de iluminação adequada as transforma num verdadeiro risco, não só para quem as conduz, mas também para os peões e condutores, que dificilmente as conseguem ver a tempo de evitar um acidente.
Quantos de nós já não fomos surpreendidos por uma trotinete, sem termos a noção da estrutura estreita e da dificuldade em percebê-la através dos espelhos retrovisores à medida que se aproxima?
Quantos de nós já não fomos surpreendidos por ultrapassagens demasiado apertadas ou, ao abrir uma porta de repente, surgir uma trotinete?
O silêncio das mesmas e a falta de iluminação surpreende qualquer um, principalmente à noite.
E para os peões estas trotinetes muitas vezes representam um pesadelo.
Muitas trotinetes circulam nos passeios, colocando as pessoas em risco, muitas vezes idosos com mobilidade reduzida ou crianças em quem um embate a 20Km/h pode causar ferimentos sérios e graves.
Trotinetes abandonadas em passeios que bloqueiam o acesso a peões, cadeiras de rodas, carros de bebés e muitas vezes a saída de pessoas de edifícios.
A verdade é que Lisboa tornou-se palco de uma verdadeira revolução na mobilidade urbana, pelo aumento do uso das trotinetes elétricas, e dos tuk tuk, mas isso daria um outro artigo e extenso…
O que começou como uma alternativa ecológica, prática, moderna para deslocações curtas, para facilitar a vida a alguns portugueses no meio do trânsito caótico desta cidade, rapidamente se transformou num problema urbano que afeta a segurança, a circulação e a própria vida de Lisboa.
Os hospitais de Lisboa confirmam o perigo de que aqui falo. Só o Hospital de São José recebeu perto de mil pessoas nas urgências num único ano devido a acidentes com trotinetes elétricas. Muitos destes sinistros envolveram lesões graves, especialmente fraturas e traumatismos cranianos, consequência direta da falta de proteção e do desrespeito pelas normas de segurança.
Como não existem regras claras e fiscalização eficaz, as trotinetes representam risco tanto para quem as conduz como para quem partilha o espaço público, e por esta razão a única solução é o fim das trotinetes elétricas.
Por tudo isto, é tempo de pôr fim ao uso das trotinetes na cidade de Lisboa. A segurança e o bem-estar dos cidadãos devem estar acima da conveniência e da moda, a capital precisa de ruas seguras, as pessoas têm de se sentir tranquilas a passear nos passeios e devemos terminar com o caos deste trânsito. A culpa não é somente das trotinetes, longe disso. Daria também um outro artigo, “o trânsito caótico na cidade de Lisboa”. Mas acreditem que o uso das trotinetes em nada ajuda. ■

INÊS MONTARGIL
Médica Dentista
Membro da Direção Nacional do CDS-PP

- Advertisement -spot_img
- Advertisement -spot_img

Últimos artigos