O velho continente estagnou. Enquanto os radicais arrastam a Grécia para o abismo, os tecnocratas de Bruxelas não oferecem alternativas. Até já os estóicos alemães começam a revoltar-se contra a falta de liderança europeia. Mas neste pântano de miséria há um estadista de direita que talvez mereça ser ouvido.

Zero: é este o número que sintetiza a evolução da actual União Europeia. Previa-se, com muita propaganda, que 2015 seria o ano da retoma económica do “grande projecto”, pleno de dinamismo e de iniciativas, numa derradeira tentativa para salvar a Torre de Babel em que se transformou o complexo burocrático de Bruxelas. Afinal, nem por isso.

Em Abril, a inflação na Europa foi de 0,0%, ou seja, os preços não subiram nem baixaram. Não ajuda que em Janeiro, Fevereiro e Março já tenha havido deflação, algo que os eurocratas tinham prometido que iam evitar.

Em termos de produção industrial, novamente 0,0% de evolução. Diga-se que Portugal está acima deste valor, mas os nossos 0,2% também não são grande causa para celebração. A própria máquina industrial alemã entrou em crise, registando uma queda que faz pedalar em seco as fábricas-colosso da Bacia do Ruhr. Entretanto, o volume de comércio a retalho caiu 0,8%.

O que não está a zeros, no entanto, é o desemprego, que continua elevado em toda a Europa: 11% em média na União, 13% em Portugal. O sub-emprego mantém-se também persistente: mais de 10 milhões de pessoas no Velho Continente, o equivalente à população portuguesa, trabalham em part-time mas prefeririam trabalhar em horários completos. Os ordenados praticamente estagnaram, registando um ténue e pálido aumento de apenas 0,2%, segundo o Eurostat.

E quanto ao produto interno bruto, em geral? Novamente estagnação: 0,4% de crescimento no primeiro trimestre deste ano é muito pouco para compensar a queda livre dos anos anteriores. Portugal, vítima da enorme recessão de 2008, ainda se encontra muito abaixo do PIB que tinha há uma década atrás, e o Banco de Portugal estima que em 2016 ainda teremos um PIB mais pequeno do que em 2008.

Não deixa de ser irónico que o país esteja hoje a crescer mais rapidamente do que durante todo o consulado de José Sócrates, Durão Barroso ou António Guterres, sinal de que a estagnação em terras lusitanas se vinha acentuando há muito tempo. Mesmo assim, com evoluções do PIB na ordem dos 0,9% em 2014 e 0,4% no primeiro trimestre deste ano, Portugal não se consegue livrar do pântano.

Agora seria o momento ideal para uma Europa em recuperação dar uma boa ajuda a um Portugal com as contas saneadas. Mas quem aguarda ajuda de Bruxelas bem pode esperar sentado.

Europa: zero de decisão

ZeroEurosO famoso “plano Juncker”, inicialmente, parecia ser aquilo por que os europeus há muito ansiavam: um programa de expansão financeira que iria injectar dinheiro na economia. O objectivo, segundo o seu proponente, Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, era evitar a perigosa deflação e restaurar o crescimento da Europa, estando supostamente 315 mil milhões de euros dedicados a este fim. Infelizmente, tal como tudo na União Europeia, o “miraculoso” plano anda perdido no labirinto da indecisão burocrática de Bruxelas.

O plano foi anunciado em Novembro do ano passado, e ainda está em discussão à data do fecho desta edição. Aparentemente, o presidente da Comissão Europeia e o Parlamento Europeu não se conseguem entender sobre a dimensão dos projectos, a sua natureza ou mesmo sobre a forma como vão arranjar o dinheiro.

Mas a verdade é que, quando analisado mais a fundo, o “plano salvador” revela falhas grosseiras, de que a maior parte das pessoas só se deu conta quando a proposta de Juncker foi conhecida na íntegra.

Percebeu-se então que os eurocratas e o seu ‘boss’ alimentavam a expectativa de que a maior fatia do dinheiro a injectar nas economias europeias, cerca de 90% do total, proviesse de investidores privados – quando existem as maiores dúvidas de que os investidores queiram despejar ainda mais capital sobre uma Europa inoperante.

Foi igualmente um mau augúrio que a apresentação do “plano Juncker” no Parlamento Europeu incluísse um “momento Sócrates”, suficiente para alertar os mais distraídos: enlevado pela própria retórica, o presidente da Comissão descreveu em tons plásticos a sua “visão” de automobilistas conduzindo veículos eléctricos em auto-estradas inteligentes, bem como escolas carregadas de computadores de última geração que resolvem todos os problemas educativos. Todas estas ideias peregrinas deixaram estarrecido um Parlamento onde o despesismo dos governos socialistas da Europa ainda causa calafrios.

O grande problema, especialmente para os deputados moderados e da direita, é de que esta “visão” corresponde a um “cheque em branco”, que muitos suspeitam que irá ser usado em mais obras com muito pouco retorno financeiro. Para tornar o plano ainda mais amargo para os povos do Norte, o plano favorece o Sul europeu, cuja credibilidade financeira ainda é muito baixa graças ao esbanjamento louco de outros tempos.

Um país no seu perfeito juízo não pode esperar da Europa de hoje bom vento ou bom casamento. Não admira, por isso, que um povo insuspeito esteja a revoltar-se contra todo o complexo de Bruxelas: não, caro leitor, não falamos dos gregos de sempre, mas sim dos alemães, que estão connosco no pântano.

A revolta das formigas

Embora os radicais de esquerda gostem de passar a ideia de que os alemães vivem no maior dos luxos enquanto os sulistas morrem à fome, essa imagem é radicalmente falsa. O alemão foi o primeiro povo a ter de aceitar a austeridade, logo no início dos anos 2000. Nessa altura, a Alemanha era designada como “o homem doente da Europa”, em contraste com as galopantes economias britânica e francesa.

O patronato, o Estado e os sindicatos alemães chegaram a um acordo geral. Os trabalhadores aceitaram ver os seus ordenados reduzidos, na condição de não haver despedimentos. O patronato aceitou pagar impostos mais elevados. E o Estado comprometeu-se a desbloquear a “prosperidade” de outros tempos logo que fosse possível. Não deve ter sido fácil para as formigas trabalhadoras do Norte ver as cigarras do Sul vivendo à grande e à socialista enquanto pouco ou nada produziam. Mas havia sempre a promessa de prosperidade futura.

Promessa que não foi cumprida: tanto o PIB como a produção industrial da maior economia europeia estão a recuar, segundo os dados do Eurostat. A balança comercial alemã apenas se mantém positiva à custa de uma grande ausência de consumo interno e, por isso mesmo, o Estado “merkeliano” foi adiando o aliviar do cinto.

Vivendo uma situação nem boa nem má, apenas estagnada, os alemães foram ainda por cima obrigados, na última década, a resgatar as cigarras. E a indignação foi crescendo. Notícias como a de que a PlayStation 4, uma dispendiosa consola de jogos de 400 euros, esgotou em Portugal no primeiro dia de venda, enquanto que milhares de unidades ficaram nas prateleiras germânicas, causaram muito ressentimento. A paciência dos alemães chegou ao fim.

Este ano, segundo dados do Estado alemão, já houve duas vezes mais greves na Alemanha do que em todo o ano de 2014. E as greves na Alemanha não são preguiçosas e politizadas como as portuguesas: os caminhos-de-ferro alemães, por exemplo, estiveram totalmente parados durante 138 horas seguidas. O que queriam os grevistas? Um aumento de 2%, o primeiro em oito anos. Já na capital do país uma greve dos funcionários dos “multibancos” obrigou os berlinenses durante vários dias a terem de levantar dinheiro nos balcões dos bancos, como se fazia nos dias de outrora.

As greves sucedem-se, tanto no sector privado como no sector público, geralmente reclamando aumentos muito razoáveis. Como na Alemanha não existe o peso dos partidos políticos em cima das exigências laborais, tem sido possível chegar a consensos, aqui e ali. Mas o certo é que até já os alemães estão fartos do pântano económico e da União Europeia. Actualmente, mais de metade, segundo várias sondagens, gostaria de regressar ao Marco, e cerca de um quarto vê de forma negativa a União Europeia e os seus dirigentes.

A alternativa é antiga

No meio de todo este caos, é da Grã-Bretanha que surge a primeira verdadeira alternativa aos tecnocratas insensíveis de Bruxelas, à frieza numérica de Merkel e aos despesistas da esquerda europeia. Falamos de David Cameron e do seu Partido Conservador.

Enquanto no Sul se olha para os utópicos de esquerda como alternativa, os conservadores britânicos decidiram olhar para o passado e redescobrir as suas origens. Deitando fora o liberalismo económico dos anos 80 do século passado, os “tory” redescobriram o chamado “conservadorismo nacional”, uma forma de pensar a sociedade que foi a base deste partido desde o século XIX. Os conservadores acreditam numa sociedade de desenvolvimento orgânico, em vez de organizado pelo Estado, onde todas as classes sociais têm obrigações umas para com as outras.

Cameron venceu as eleições apelando a todos os tipos de eleitorado, e o próprio líder britânico admite que deseja “casar” a responsabilidade fiscal e a economia de mercado livre com justiça e responsabilidade social.

Em vez da austeridade miserabilista de Ângela Merkel, o primeiro-ministro britânico oferece aos seus cidadãos mais humildes a possibilidade de comprarem a habitação social onde vivem. Em vez do colapso na demografia e o abandono das famílias à sua sorte, como visto em Portugal, Cameron duplicou o número de creches grátis para facilitar a vida às famílias. Em vez da taxação abusiva e castradora dos programas de esquerda, baixou os impostos, especialmente sobre os combustíveis. Aboliu também inúmeras regulações burocráticas que só dificultavam a vida a quem quer trabalhar e insistiu na responsabilidade fiscal para não penhorar o futuro dos jovens britânicos. O resultado é que o Reino Unido é dos poucos países de baixo desemprego e de crescimento económico sustentado na Europa.

“Somos o verdadeiro partido dos trabalhadores”, disse Cameron depois de ter derrotado os trabalhistas. “Queremos dar a todos no nosso país a oportunidade de prosperar, com a dignidade de um trabalho, o orgulho de um recibo de vencimento, uma casa própria e a segurança e a paz que advêm de se conseguir sustentar uma família”.

Uma perspectiva muito diferente das utopias dos “Podemos” e “Syrizas” deste mundo e, quem sabe, talvez o caminho para sairmos deste pântano em que nos encontramos. Mas, até lá, estamos bem atolados.

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