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Não deixa de ser uma ironia digna da tragicomédia grega que actualmente se vive: os radicais de esquerda que tanto se rebelaram contra “o grande capital” são hoje os seus melhores aliados. Com a Grécia à beira do abismo, os milionários helénicos torcem para que o Syriza dê o passo em frente…

Não é uma conspiração urdida por um grupo sinistro: é apenas um movimento normal dos “mercados”. Na semântica socialista, os “mercados” são uma entidade incorpórea, misteriosa, embora na sua base estejam apenas pessoas. E essas pessoas, especialmente as mais abastadas, começaram a fugir com o seu dinheiro da loucura esquerdista que se vive na Grécia e a pô-lo a bom recato.

Graças a isso, os milionários gregos encontram-se hoje numa posição única: caso a Grécia abandone a União Monetária e regresse ao velho Dracma, vão poder comprar o país quase todo com os seus euros. E podem agradecê-lo a Tsipras e a Varoufakis, que estão prestes a atirar o país contra as rochas.

A Grécia mentiu para poder entrar no Euro, já não há dúvidas em relação a isso: uma brutal irresponsabilidade que, a prazo, condenou a economia do país. Mas regressar ao Dracma, agora, será outra irresponsabilidade.

Nem mesmo os maiores defensores das moedas soberanas aconselham aos países em crise uma saída da Zona Euro. Portugal, por exemplo, no caso hipotético de um dia querer regressar ao Escudo, precisaria de ter as finanças em ordem e uma economia forte a sustentar a confiança na moeda.

Desvalorização e miséria

No nosso actual estado, endividados, descredibilizados (embora já muito menos do que durante o longo consulado socialista) e em crise, o Escudo iria imediatamente começar a desvalorizar de forma brusca, até valer muito pouco. É esse o problema que a Grécia está a dias de enfrentar.

A médio prazo, a desvalorização da moeda reforça a competitividade, mas é uma solução artificial. Entre o período do PREC e a vitória com maioria absoluta do PSD, o Escudo foi sucessivamente desvalorizado, mas a economia, no geral, não se tornou mais competitiva.

No caso da Grécia, a curto prazo, o que o regresso ao Dracma implica é a deterioração das escassas poupanças, dos salários e das pensões. Os gregos preparam-se para acordar um dia e descobrir que as suas contas estão convertidas na nova moeda: Dracmas que perdem valor de hora para hora.

O cenário é sombrio. Importar seja o que tornar-se-á impossível, visto que os produtos são vendidos em moeda forte: Euro, Dólar ou Libra Esterlina. Existe o perigo real de uma crise humanitária, dado que quase toda a comida grega é importada, podendo o país ter de pedir ajuda caridosa às Nações Unidas ou à União Europeia.

Nos primeiros tempos de bancarrota grega, o fornecimento de electricidade terá de ser suspenso, visto que o petróleo é importado, e quem o vende não vai aceitar pagamento em Dracmas. A Grécia caminha para o abismo, com os (muitos) eleitores do Syriza a assobiar alegremente para o ar. Mas nem todos os gregos vão nesta romaria: os mais ricos preparam-se, mesmo, para lucrar com a falência helénica.

Dinheiro seguro

A primeira vaga de gregos a retirarem o seu dinheiro do país aconteceu logo em 2010. Na altura, como era inevitável, a banca descapitalizou-se, visto que, por muito que protestem, os gregos de classe mais baixa ou média pouco ou nada pouparam, mesmo durante a época das “vacas gordas”.

Esses mesmos gregos ricos têm agora o seu dinheiro seguro em bancos estrangeiros, muitos deles na Suíça, e quando a república helénica estoirar, os seus euros (e dólares e libras) vão valer uma fortuna quando comparados com os Dracmas. Um pequeno conjunto de pessoas pode tornar-se dona de quase toda a propriedade de um dos países que já é um dos mais desiguais da União Europeia.

A Alemanha ainda tentou travar este movimento, ameaçando taxar ou congelar todas as contas de gregos abastados, mas estes simplesmente limitaram-se a mudar o seu dinheiro para outras paragens. O capital não tem nacionalidade, e no mundo financeiro desregrado da actualidade, isso é uma verdade bem trágica.

Gregos revoltam-se

Nem todos os gregos engoliram o discurso dos “radicais caviar” no poder: na Grécia também há quem se aperceba da proximidade do abismo. Os mineiros, por exemplo, tradicionalmente votantes de esquerda, saíram às ruas de Atenas a protestar contra as novas regras “ambientais” que a brigada do “politicamente correcto” obrigou Tsipras e companhia a aplicar, mesmo em detrimento de uma das poucas indústrias que mantém o país a funcionar. Os mineiros receiam também a bancarrota, que lhes irá reduzir os ordenados ao valor da miséria.

A resposta da esquerda, como sempre “respeitadora” da liberdade de expressão e do pluralismo democrático, foi rápida: uma contra-manifestação de anarquistas que acabou em violência. Já o governo afirmou que a manifestação tinha sido organizada pelos donos das minas e pelos “reaccionários”, e que os milhares de trabalhadores eram apenas “fantoches” do capital. O discurso marxista nunca muda.

Foram atirados objectos e insultos contra os mineiros, homens humildes que apenas temem pela sua vida e pelo sustento das suas famílias. Outros grupos só não se manifestam contra o governo Tsipras pelo clima de medo que estes extremistas instalaram no país.

Mas o governo radical do Syriza não está disposto a assumir as suas responsabilidades no desastre. Pelo contrário, prepara-se para dar o golpe final e fugir: Tsipras já admitiu que em caso de bancarrota poderá convocar eleições gerais, escassos meses após ter sido eleito, passando a batata quente ao senhor que se segue.

De certa forma, é pena que não tencionem ficar. Varoufakis, com o seu apartamento ‘glamour’ e casacos ingleses de luxo, talvez se sentisse bem na companhia da nova oligarquia que se prepara para tomar conta do país. Os milionários, sem dúvida, saberiam recompensá-lo: afinal, foram as suas políticas de confronto que lhes dão a possibilidade de virem a controlar uma Grécia levada à extrema miséria.

A “esquerda caviar” faz sempre jus ao seu nome.

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  • Gilberto Conde

    « Comunismo NÃO É “estatização dos meios de produção”. Essa é a DEFINIÇÃO NOMINAL de UMA DAS ACEPÇÕES do TERMO “comunismo”. Concretamente, historicamente, o comunismo é um movimento mundial que age por meio de milhares de organizações, ALGUMAS DAS QUAIS brandem a “estatização dos meios de produção” como seu objetivo, outras não. E, dos governos comunistas, NENHUM realizou essa estatização, exceto no papel. Mesmo partidos comunistas que aleguem esse objetivo explicitamente insistem em marcá-lo para o longo prazo – no mais das vezes puramente hipotético – e no máximo estatizam uma coisinha aqui, outra ali, o que as socialdemocracias também fazem. Na própria URSS o governo tolerou sempre uma economia de mercado mais ou menos clandestina e nunca fez porra nenhuma para acabar com ela. Dela provieram centenas de bilionários que, da noite para o dia, brotaram na Rússia quando caiu o comunismo.» — Olavo de Carvalho

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