O holocausto comunista

A gota de água que gerou todo este despautério foi a repulsiva babugem que o Conselheiro de Estado Louçã deixou escorrer do seu vampiresco esgar de superioridade quando, da sua tribuna de bonzo da SIC, aludiu ao chumbo da transposição para o ordenamento cá da terrinha da resolução do Parlamento Europeu que coloca o comunismo e o nazismo em pé de igualdade, condenando ambos os regimes por terem cometido “genocídios e deportações”, tendo sido “a causa da perda de vidas humanas e de liberdade, numa escala até agora nunca vista na história da Humanidade”.

Com evidente arrogância supremacista, permitiu-se comentar jocosamente o clamor de indignação que Aline Beuvink havia produzido há tempos, movida não só pela razão mas, muito especialmente, pela sua circunstância de pertencer a uma família que viveu a tragédia da opressão comunista na primeira pessoa. 

Em finais de 2019, Beuvink, uma deputada municipal de Lisboa de origem ucraniana, insurgiu-se contra o facto de o PS, o PCP, o BE e os apêndices terem denegado a decisão do Parlamento Europeu. A “vox populi” já há muito que assumira que o PS está apenas interessado em que a extrema-esquerda lhe deixe a sombra suficiente para prosseguir com as suas negociatas, vendendo o país a patacos. Mas será só isso? 

O escarcéu produzido pelas declarações do Conselheiro Louçã levou-me a recordar um diálogo que tinha arquivado na minha memória, datado de 10 de Junho de 2006. No decorrer das cerimónias do Dia de Portugal desse ano, um bem-apessoado locutor anunciava com pompa e circunstância a atribuição da Ordem da Liberdade a mais um comunista. Não era a primeira vez que um defensor da Ditadura do proletariado (leia-se da sua Nomenklatura) era agraciado com tal distinção, mas não deixa de ser sempre revoltante, mesmo com a desvalorização que o inefável Sampaio introduziu na distribuição de condecorações. Acabei por parar na 2, para ouvir o Eduardo Lourenço a auto-elogiar-se, mas confesso que fiquei estupefacto quando as câmaras se detiveram no diálogo do Eduardo Lourenço (E.L.) com o Manuel Alegre (M.A.):

M.A.: Hoje já não sei se gosto do Gorbatchev. Aquilo foi incrível.

E.L.: Pois foi, pois foi!

M.A.: O gajo perdeu o controlo da coisa.

E.L.: É verdade, perdeu o controlo do processo.

M.A.: Aquilo não foi uma implosão. Foi uma autêntica derrota.

E.L.: Uma derrota da História!

A História é oferecida pré-mastigada

Como se depreende deste diálogo, a queda do Muro não afectou só o PC. Hoje, com a manifesta vinculação entre o megacapitalismo especulador com a extrema-esquerda revolucionária, uma poderosa máquina propagandística mediática impõe o controlo da narrativa histórica como instrumento de domínio das gerações posteriores. Apresentada em versões a “preto e branco”, reduzida à luta de barricadas de “bons” contra “maus”, a História é oferecida pré-mastigada, tipo “fast-food”, tornada atractiva para consumo generalizado de quem foi treinado a pensar pouco e, sobretudo, pela cabeça dos outros. Como resultado, a obesidade mental grassa e a ignorância viraram poderosa arma de controlo social. 

Romantizada pela propaganda historiográfica dos apologetas, a imagética hollywoodesca do fenómeno comunista está hoje em franca revisão com o controlo do poder por antigos militantes. 

A queda do Muro perturbou-os, encostando os pró-russos às cordas, mas rapidamente os de filiação trotskista, maoista ou castro-chavista, se fizeram de alheios ao assunto. Fora simplesmente “algo que correra mal”. 

Contam-se pelos dedos os que pediram desculpa ou os que manifestaram tão-somente remorsos por se haverem considerado herdeiros dos Estalines, Mao Zedongs, Pol Pots ou Castros, que torturaram e assassinaram em escala nunca antes vista na história da Humanidade. E são hoje governantes, banqueiros, magistrados, jornalistas, professores, diplomatas, altos funcionários do aparelho de Estado, gente da casta que nos subjuga, continuando a usar e abusar do velho adágio “coça as minhas costas que eu coço as tuas”. 

Da “pasionaria” Ana Gomes ao conselheiro Louçã, todos assumem publicamente e sem rebuço o seu negacionismo dos hediondos crimes do comunismo perante a displicente (ou conivente) indiferença dos ‘Media’ que os afagam e agasalham. Mas na sua compassiva compreensão sobre os inúmeros campos da morte e as reeducações populares das Revoluções culturais quem o conselheiro Louçã – qual porta-voz de todos os que não demonstram arrependimento pelo que defenderam, defendem ou fizeram – insultou não foi apenas Aline Beuvink. No seu sorriso canalha, riu-se de todos os torturados, exilados, caluniados e chacinados pela loucura da distopia comunista. No seu esgar de gozo de superioridade totalitária, injuriou a Liberdade e a Verdade, pilares fundamentais da Democracia.

Mas o que foi o Holodomor?

Estaline decidiu “resolver” a “questão” ucraniana

Reconhecida pelas autoridades das Nações Unidas como “uma das maiores atrocidades do nosso tempo”, o Holodomor, o genocídio ucraniano, só emergiu verdadeiramente à luz do dia quando o país assumiu a sua independência no turbilhão provocado pela queda do Império Soviético.

Assombrosos e horrendos relatos de coetâneos do massacre foram, então, recolhidos e divulgados. Viktor Yushchenko, então Presidente da Ucrânia, mandou desclassificar e tratar mais de trinta mil documentos, na posse do KGB local, sobre a “Grande Fome” de 1932-33. Neles se prova de forma inequívoca que o Holodomor foi deliberadamente ordenado por Estaline, sob a supervisão directa do seu homem de mão, Pavel Petrovitch Postyshev. Note-se que os “kulaks” – ou “kurkuls” (em ucraniano) –, pequenos proprietários e rendeiros apontados como inimigos da classe campesina, já haviam começado a ser deportados para a tundra siberiana desde meados dos anos vinte, pelo que os agora afectados eram inquestionavelmente os camponeses pobres. 

No princípio dos anos 30 do século XX, mais precisamente a partir de 1932, decidido a resolver a “questão” ucraniana, cuja identidade nacional acreditava estar fortemente enraizada nas massas camponesas, Estaline mandou elaborar um programa radical de colectivização forçada da terra, ao mesmo tempo que elevava em 44 por cento as quotas obrigatórias de exportação de trigo nas terras consideradas como o “Celeiro” do Império Russo. 

Cada aldeia era obrigada a fornecer ao Estado uma determinada quantidade de cereais; a Lei da colectivização impunha que nenhum trigo fosse dado aos membros de uma unidade colectiva sem que as metas impostas por Moscovo fossem atingidas. Como esse valor ultrapassava geralmente a produção efectiva, a comunidade não conseguia assumir a sua quota-parte e era colocada numa lista negra. 

Consequentemente, as estruturas locais da OGPU (Direcção-Geral de Assuntos Políticos) e do NKVD (Comissariado dos Assuntos Internos) realizaram operações maciças contra os camponeses ucranianos, cossacos e cazaques, a fim de lhes confiscarem teoricamente algum cereal escondido; na prática, todos os géneros alimentícios. 

O facto de até as próprias sementes para o cultivo do ano seguinte serem confiscadas diz bem da verdadeira intenção das autoridades comunistas.

Ao mesmo tempo, implementavam um sistema de passaportes interno que impedia os rurais de se movimentarem à procura de comida. A morte por fome era uma consequência inevitável.

50 anos depois, ainda
com medo de represálias

Yaroslav Lukov, da BBC, contou como sempre mantivera uma atitude céptica em relação às histórias que a avó lhe começara a contar, apenas no fim dos anos 80, sobre crianças e bebés terem sido comidos (alguns, inclusive, ainda em vida). Pensava que os relatos de canibalismo desenfreado eram demasiado chocantes para poderem corresponder à verdade, até que se viu confrontado com documentação inequívoca sobre o assunto. No desespero da fome, bebés e crianças desapareciam sem rasto, mortos e comidos pelos progenitores ou vizinhos. Tresloucados, pela fome, matavam ou aproveitavam-se da prostração moribunda de vizinhos, para de seguida os comer. Casos houve em que se estabeleceu mesmo um comércio de carne humana, conhecido e tolerado pelas autoridades comunistas, como demonstram vários documentos.

Yurij Luhovy, o produtor e editor canadiano do documentário “Harvest of Despair” (Colheita do Desespero), que relata o Holodomor com base em depoimentos de quem o viveu em primeira mão, interrogava-se, aquando do lançamento do filme em 1984, como era possível que sobreviventes do genocídio a viverem então no Canadá e nos EUA, 50 anos depois, ainda hesitassem em falar, com medo de represálias. Com efeito, tinham consciência de que longo era o braço do poder soviético e múltiplas as hidras da sua cumplicidade. Porque se é verdade que desde o genocídio do biénio 32-33 muitas foram as vozes que denunciaram o ocorrido, outras houve que o branquearam e o desvalorizaram. 

Apesar de perfeitamente cientes da dimensão do massacre, Louis Fischer, do “The New Republic”, e Walter Duranty, do “The New York Times”, empenharam-se em servir Moscovo mais que a verdade. Este último foi mesmo recipiente do Prémio Pulitzer em 1932, tendo essa atribuição sido alvo, recentemente, de um malogrado pedido de revogação, com um abaixo-assinado subscrito por milhares de pessoas. Mas esses focos, na sua maioria manejados por Moscovo, não conseguiram ofuscar os relatos feitos quer por outros colegas como, Malcom Muggeridge do “Manchester Guardian”, ou William Henry Chamberlain do “Christian Science Monitor”, ou Eugene Lyons da “United Press”, ou Harry Lang do “Jewish Daily”. 

Só agora começam a surgir
relatos do que se passou

Igualmente vários próceres comunistas, como Nikita Khrushchov ou o arrependido Victor Kravtchenko que, tal como Lev Kopelev, participou, enquanto jovem militante comunista, no massacre dos camponeses ucranianos, denunciaram a seu tempo os factos vividos no Holodomor. Kravchenko, alto funcionário da URSS, depois dissidente, que escreveu o célebre livro “Eu escolhi a liberdade”, onde denunciou a repressão dos Gulag, foi sujeito a um julgamento e acosso mediático em França, porque os intelectuais negacionistas pró-comunistas, entre os quais o guru Jean-Paul Sartre, o acusavam de ser um títere da CIA, desqualificando as suas denúncias. Anos mais tarde, seria Alexandre Soljenitsyn, prémio Nobel da Literatura em 1970, a descrever em “O Arquipélago Gulag” todo o horror dos campos de concentração soviéticos, detalhadamente exposto por quem o viveu na primeira pessoa. Também o velho bolchevique dissidente Victor Lvovitch Kibaltchitch (conhecido como Victor Serge) denunciou os crimes do Holodomor.

Mas como já acontecera com o massacre das elites polacas (e lituanas) nas florestas de Katyn, só agora, mas mesmo assim muito a descompasso, surgem relatos sobre o que se passou no sangrento lodaçal soviético. Geralmente trazidos a lume por antigos comunistas, os horrores sofridos pelos súbditos do socialismo científico ainda não conseguiram ganhar o “momentum” necessário para suprir as lacunas, as mentiras e as inverdades propaladas pela dominante historiografia apologética, persistentemente inebriada no obsessivo “anti-fascismo”. 

Deveras impressionante é o relato que Nicolas Werth nos traça do Gulag, na “Ilha dos Canibais”; mas, detalhes e estórias à parte, nada que os que sempre denunciaram o comunismo, quer nas suas evidências reais, quer na sua acepção político-filosófica, não soubessem ou não antevissem. Para os que estiverem interessados em conhecer com algum detalhe a narrativa do que se passou no Holodomor aconselho o documentário acessível (por enquanto) no Youtube, “The Holocaust the New York Times ignored”: https://youtu.be/BqnfmCu6fUk. ■

- Advertisement -spot_img
- Advertisement -spot_img

Últimos artigos