A “CNN” perdeu uma oportunidade de causar uma boa primeira impressão no nosso país. A “CNN Portugal”, na sua abertura, com as mesmas personagens ou a mesma narrativa de há décadas, não começou com grande credibilidade, nem contribuiu para o necessário arejar do claustrofóbico debate nacional.
Os anúncios iniciais da “CNN” – ridicularizados por milhares de portugueses nas redes sociais – com os figurões políticos do costume, de braços cruzados, a olharem arrogantemente para os portugueses auto-satisfeitos, a darem-nos lições hipócritas do que ao longo de décadas nunca souberam implementar ou nunca funcionou; ou as iniciais entrevistas dóceis e soporíferas a membros do Governo ou seus representantes, não foram bons cartões de visita. Parecem sugerir que a “CNN” poderá representar mais do mesmo que todos os outros canais de televisão que já cá existiam: autopromoção de políticos poderosos, sem qualquer contraditório, e negação da verdade sobre a mediocridade factual desses nossos governantes e seus resultados. Como a “CNN” é novidade, esperemos que ainda vá a tempo de corrigir estes erros iniciais. É importante para Portugal tentarmos dar-lhe uma segunda oportunidade.
A “CNN” chegou a Portugal auto-intitulando-se representante da verdade, por exemplo, com anúncios em que afirma ser a única estação que sabe identificar verdadeiras maçãs quando todos os outros dizem que são bananas. Realmente, seria importante para Portugal que houvesse, finalmente, algum canal de televisão que apresentasse as verdades dolorosas sobre os nossos políticos e os seus resultados.
Infelizmente, a “CNN Portugal”, exactamente como a maioria dos outros canais de televisão já cá existentes, começou por pintar os nossos políticos e ex-políticos, cujas ideias são bananas demasiado amadurecidas e fora de prazo, com péssimos resultados há décadas, como luzidias maçãs frescas.
O português Horta Osório, um dos maiores financeiros mundiais, com certeza com muito mais apego por Portugal e coragem para ser verdadeiro perante os seus compatriotas que a americana “CNN” – ou os dependentes da política que lá foram contratados para, sobretudo, se elogiarem a si mesmos – não se cansa de nos avisar: a nossa economia não cresce nada, apenas a um por cento (quase sempre abaixo da inflação).
Já a “CNN”, a toda hora, desde que começou no final do mês passado, diz-nos que está tudo bem com o rumo e governação de Portugal, tal como também o está para a “TVI” (desde que despediu as grandes jornalistas Leal e Borges), para a “RTP” (agora sem a honrosa excepção que havia às sextas as 9 da noite), ou para a “SIC” (felizmente nesta última ainda há um verdadeiro defensor da verdade, quartas-feiras, às 11 da noite).
Precisamos, urgentemente, de uma televisão que confronte políticos a autopromoverem-se com as verdades dos seus resultados, promovendo o debate e o contraditório, onde dois pontos de vista sejam apresentados, boa governação versus má governação, para os espectadores tirarem as suas conclusões.
A “CNN” começou convidando os mesmos comentadores e políticos do costume, que insistem só no ponto de vista de que está tudo bem economicamente com Portugal, além dos mesmos entrevistadores, nada questionadores desses responsáveis pela situação económica deplorável a que chegamos. Os portugueses, naturalmente, gozaram com os políticos do costume a tentarem gozar connosco em mais um palco novo. Assim, nas redes sociais, inúmeros cidadãos anónimos, e outros mais conhecidos, fizeram várias montagens divertidas sobre todos os piores políticos do nosso regime serem comentadores da “CNN” só para se autopromoverem, onde já quase não se distinguia entre a realidade banal e a ficção comediante.
Assistimos até agora na nova “CNN Portugal” à mera rotação da propaganda do governo, sem qualquer questão. Por exemplo, a “CNN” anunciou efusivamente a imposição de mais um suposto benefício para o povo, chamado tarifa de solidariedade da “Internet”. Isto com o entrevistado representante do Governo a alardear sem cessar os benefícios de aplicar ainda mais taxas ao cidadão de rendimento médio e às empresas, já muito híper-taxados, que, com certeza, vão ter de pagar mais um suposto benefício do Governo. O entrevistador da “CNN”, claro, também ficou a concordar, a acenar que sim e entusiasmado com as supostas vantagens desse enésimo benefício, que alguém vai ter que pagar, mesmo que não seja implementado, e que levará a mais taxas adicionais sobre os portugueses, que pagam a conta toda. Nem uma única questão sobre de onde vem o dinheiro e o impacto no orçamento familiar de milhões de portugueses de classe média, que já pagam tantas outras taxas e impostos para terem serviços de que nunca usufruem. Nem uma única questão sobre se num país onde já há cerca de 4500 taxas sobre empresas precisamos mesmo de mais para pagar benefícios do Governo que raramente vemos, como os prometidos computadores para crianças pobres que nunca chegaram. Nem uma única questão se vamos deixar de pagar os prejuízos sem fim dos Transportes Aéreos de Lisboa, perdão, de Portugal (TAP), para pagar a “Internet” aos mais necessitados. Seria de certo melhor alternativa do que, mais uma vez, aumentar as taxas do português médio que paga sempre tudo e para todos, especialmente os ordenados dos membros do Governo, dos seus assessores ou dos gestores desses supostos programas sociais que raramente funcionam.
Há em Portugal um peditório infindável que deixa o português médio miserável, supostamente em nome de esmolas que poucos vêem, agora ainda por cima propagandeado com chancela americana! Para esta total e flagrante ausência de contraditório e debate a uma medida do governo, sem qualquer escrutínio sobre as implicações, já cá tínhamos a “RTP”! A “TVI” escusava de usar o dinheiro que recebeu dos contribuintes portugueses durante a pandemia para ir buscar os americanos da “CNN”. Na “TVI” já não havia uma única questão aos políticos sobre sermos os únicos na Europa a fechar, já este ano, todas as centrais a carvão, sem precaver o futuro a médio-prazo, enquanto as energias renováveis ainda falharem bastante. Além de sermos os únicos a investir sem parar milhares de milhões de euros dos portugueses de todas as cidades numa companhia de aviação pública lisboeta.
Aliás, a “CNN” até agora portou-se pior do que já cá havia, apesar das cores vermelhas mais gritantes e de vermos mais sinais faiscantes no ecrã. A “TVI” tinha vindo a perder fulgor investigador de grande qualidade que já teve, despedindo grandes jornalistas, como Ana Leal e Alexandra Borges, para as substituir por comentadores representantes de escritórios de advogados que contratam deputados, claro, a elogiar os deputados e governantes que lhes facilitam os negócios com dinheiro do Estado. A “CNN” parece querer continuar o pior recente caminho da “TVI”. Se estivesse realmente interessada na verdade do que se passa em Portugal parece-nos que a “CNN” contrataria de volta Ana Leal e Alexandra Borges ou iriam buscar a sempre verdadeira Sandra Felgueiras, recentemente afastada da RTP por não hesitar em identificar as verdades, como ausência de liberdade de imprensa ou tráfico de influências de políticos em Portugal.
A “CNN”, temos pena de concluir assim, cheira assim a mofo logo à nascença, sem estofo para contribuir para qualquer debate vivo que conduza em Portugal a reformas e melhoria que nos tirem de últimos lugares da Europa. Ficamos na “mesma como a lesma”. Por isso foi tão ridicularizada nas redes sociais. Entre os membros do Governo ou os comentadores que já eram elogiadores não questionadores desses políticos na “TVI”, tanto faz quem apareça na “CNN” a dizer o mesmo e a apregoar supostas maravilhas sobre o Governo e os socialistas. A continuar assim, será mais uma das novas oportunidades Socráticas perdidas. ■




