Na obra prima do escritor britânico W. Somerset Maugham, o personagem principal (Larry), fruto de um episódio marcante na sua vida, procura respostas para as suas dúvidas existenciais, o que o conduz num rumo aparentemente sem sentido e sem lógica.
Anseia por algo que lhe aporte uma mais-valia para a sua vida frustrada, num permanente desafio intrapessoal para encontrar um caminho que lhe faça sentido.
Portugal de há muito que se encontra na mesma situação do personagem de Somerset Maugham.
O país vive numa permanente incerteza do seu futuro, o caminho que tem sido trilhado é deveras criticável pela sua inocuidade e improdutividade, consubstanciadas na ausência de um futuro mais promissor e risonho para os seus cidadãos.
Mas ao invés de Larry, que incessantemente procurava uma resposta para as suas dúvidas existenciais e um caminho novo, em Portugal tal não ocorre.
Os políticos estão plenos de certezas e desde que os fundos de Bruxelas continuem a jorrar dinheiro, que sentido faz procurar um destino próprio e autónomo para o país?
Costa justificou sair de cena por causa de um parágrafo supostamente escrito “pela mão” da Procuradora Geral da República.
Mas o ainda (e porquê?) primeiro-ministro, longe de possuir a persistência e os valores humanos de Larry, aproveitou o ensejo que lhe foi proporcionado pelo Ministério Público com a “Operação Influencer” e deixou o país numa crise ainda maior do que a que ele próprio tinha criado no decurso dos seus oito anos de “governação”. Um país com um SNS – Serviço Nacional de Saúde de rastos e em conflito aberto com a tutela, um sistema de Ensino desorganizado, sem exigência e desmotivador para os seus diferentes actores, em particular os professores, um país de onde os cidadãos de valor fogem e são substituídos, sem qualquer crivo ou exigência, por uma imigração massiva indiferenciada e na sua maioria clandestina, um país com salários dos mais baixos da UE, mas com um custo de vida dos mais altos, onde ter uma habitação condigna passou a ser um luxo, devido à ausência de políticas atempadas e apropriadas.
Costa deixou bem clara a sua marca em Portugal, uma marca de total não conformidade com padrões mínimos de exigência de qualidade de vida dos cidadãos, apostando num assistencialismo bacoco e miserabilista ao invés de avançar com as inúmeras reformas estruturais de que o país tanto necessita.
O seu putativo substituto após as próximas eleições de 10 de Março do próximo ano, poderá ser o actual líder do PSD, Luís Montenegro.
E qual o caminho que procura Montenegro para Portugal? Quais são as suas dúvidas e como procura dar-lhes resposta? Que visão existe no seu interior e de que forma a pretende consubstanciar na prática?
Para já comporta-se de modo aleatório e quando citou Pedro Abrunhosa – “Este é o momento para fazer o que ainda não foi feito” – faltou-lhe elencar o que falta e quer fazer.
Montenegro encarna bem Larry quando admite estar consciente que as pessoas esperam mais dele do que aquilo que tem evidenciado e aproveita para fazer uma espécie de auto-análise, admitindo que tenta ser sempre o mais justo possível, honesto, solidário e humano.
Montenegro tem, pois, dúvidas sobre si mesmo e não tem um caminho para o país e, mais grave, caiu na habitual armadilha de fazer promessas eleitorais de ordem fiscal, laboral e social no seu discurso do passado dia 25 de Novembro. Mais do mesmo na política à portuguesa, sempre oca de ideias e reformas.
Como se já não bastasse este estado de difusa existência do país, eis que também Marcelo, o Presidente Comentador, deu mais um contributo para que os portugueses experienciem as dúvidas existenciais de Larry, isto é, sintam a necessidade urgente de um caminho, mas sem conseguirem vê-lo.
No caso das gémeas brasileiras, divulgado, e muito bem, pela “TVI”, na pessoa da excelente jornalista Sandra Felgueiras, Marcelo é sempre culpado e tem de apresentar de imediato a sua resignação ao cargo de Presidente da República Portuguesa.
E tal não remete para questões legais, mas tão só morais e éticas.
No primeiro cenário possível, o de Marcelo poder ter metido uma cunha directamente ao Ministério da Saúde para que as gémeas fossem tratadas com prerrogativas não existentes habitualmente para outros casos similares, é inquestionável a demissão de Marcelo, pois um Presidente da República não pode dar-se ao luxo de abrir o flanco desta maneira.
Coloquemos agora o segundo cenário, em que Marcelo não meteu cunha nenhuma, mas tomou conhecimento (e isso parece estar provado) de que tinha chegado à sua Casa Civil um pedido, intermediado supostamente pela sua nora. Nesta situação, o Presidente estava obrigado a impedir a sua Casa Civil de transitar o assunto para o Ministério da Saúde. Um Presidente da República em nenhum momento pode permitir, directa ou indirectamente, que seus familiares ou amigos destes se aproveitem do cargo que ocupa para usufruírem de possíveis vantagens. Se se provar ter sido esta a realidade, Marcelo pecou por negligência passiva e é obrigado igualmente a demitir-se.
Estamos perante um assunto complexo e inoportuno, a dirimir pelo Ministério Público, mas para já sem qualquer garantia de um esclarecimento e decisão justos.
Com a época natalícia a aproximar-se rapidamente, propícia à festa, mas também à reflexão sobre a vida, Portugal, os portugueses, vivem no fio da navalha, com uma cada vez maior acentuação das suas dúvidas existenciais sobre o seu futuro e o dos seus descendentes.
Para quando um caminho? ■
Um país no fio da navalha




