Não há outra forma de dizê-lo: desde que a esquerda tomou o poder em Cuba, em Dezembro de 1958, o nível de vida dos cubanos não tem parado de descer. Nos últimos tempos, contudo, uma vez perdidos os apoios internacionais que alimentavam o regime comunista a balões de oxigénio, o nível de vida na ilha dos irmãos Castro desceu abaixo de tudo o que seria de esperar. A fome, as doenças relacionadas com a malnutrição, a pavorosa taxa de mortalidade, a falência dos serviços públicos e a feroz repressão dos protestos populares fazem de Cuba, outrora propagandeada como “paraíso socialista”, um verdadeiro inferno para quem lá vive. Só a clique do partido único não se queixa.
A crise alimentar é o pior dos pesadelos que os cubanos hoje sofrem. Sem divisas para importar bens alimentares, Cuba pode apenas contar com a produção de uma agricultura débil e obsoleta. As prateleiras das lojas estão vazias – e os poucos produtos disponíveis são disputados desde madrugada em longas filas de donas de casa desesperadas. Para comprar comida (excepto arroz, que lhe vem da ditadura comunista do Vietname), o país precisaria de ter dólares ou euros com que pagar aos fornecedores brasileiros, americanos ou argentinos. O resultado é a penúria generalizada, com produtos como frango, azeite, milho, leite e feijões a alcançarem preços astronómicos. Uma simples pasta dentífrica é hoje uma miragem para a esmagadora maioria dos cubanos. Esta é a pesada herança de quase sete décadas de regime castrista-guevarista.
A crise alimentar em Cuba deixou de ser um indício estatístico para se tornar uma realidade de todos os dias: nos últimos meses, segundo o relatório “Em Cuba Há Fome”, divulgado pela organização independente Food Monitor Program (FMP), “um em cada quatro habitantes teve de ir para a cama sem jantar”. Cerca de 96% dos cubanos deixaram de ter acesso aos alimentos básicos devido à inflação e à queda do poder de compra. Em 72% dos lares as famílias tiveram de adoptar “dietas alternativas” não saudáveis, devido à impossibilidade de aceder a uma alimentação equilibrada e minimamente nutritiva.
Estas situações ocorrem com mais frequência em províncias como Artemisa, Ilha da Juventude, Mayabeque e Guantánamo. Os grupos mais afectados são aqueles que apresentam maior vulnerabilidade, entre eles idosos, mulheres grávidas ou lactantes, pessoas com deficiências físicas ou mentais e pacientes com doenças crónicas.
A falta de alimentos não é o único desafio, pois a ela junta-se o colapso dos serviços básicos indispensáveis. ‘Apagões’ eléctricos frequentes afectam 71% dos lares, enquanto 60% deixaram de ter acesso à água potável (um em cada quatro lares só tem água de três em três dias). Ora, a ausência de eletricidade e água limita ainda mais as possibilidades de preparar ou conservar alimentos, aumentando os riscos para a saúde.
A economia doméstica tornou-se um sufoco: 60% dos cubanos perdem entre 5 e 15 horas semanais exclusivamente à procura de comida. Cerca de 42% dos lares gastam toda a sua renda mensal com a pouca alimentação que conseguem obter, enquanto 25% precisam de investir até cinco vezes o salário mínimo mensal para conseguir adquirir produtos básicos. Arranjar comida é agora a grande prioridade para milhões de cubanos. E os poucos que a encontram dificilmente podem adquiri-la, devido a uma taxa inflacionária galopante.
A organização independente Food Monitor Program (FMP) adverte que a situação é provavelmente ainda mais grave do que a reflectida nos dados apurados, devido à autocensura, à resignação face à precariedade e à ignorância nutricional. Esta crise alimentar tem reflexos não apenas na saúde física, mas também no desempenho laboral, escolar e emocional dos cidadãos, afectando diretamente o tecido social e o desenvolvimento do país.
A situação é tão grave que a FMP fez um apelo urgente a organismos internacionais como a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e o Programa Mundial de Alimentos (PMA) para que intervenham com urgência face ao que qualificam de emergência alimentar silenciosa que afecta milhões de cubanos. Até o simples pão escasseia dramaticamente, devido à ruptura dos abastecimentos de farinha.
As mortes por desnutrição em Cuba aumentaram drasticamente. Os próprios dados oficiais, analisados pela plataforma elToque, reconhecem que a desnutrição se tornou uma das principais causas de morte na ilha, acompanhada pelo colapso do sistema penitenciário onde, como denunciou Cubalex, presos políticos morreram de fome extrema e de abandono.
A crise alimentar é bem visível nas ruas do país. Desmaios por fome foram relatados em várias províncias, afectando idosos, jovens e mulheres. Muitos cidadãos dependem da caridade nas ruas ou da mendicidade. Pessoas com limitações físicas ou ex-combatentes pedem ajuda com cartazes que dizem “Isto é para comer”, enquanto outras esgaravatam nos caixotes do lixo.
A falta de farinha de trigo para produzir pão subsidiado agravou a crise alimentar em Cuba, confirmou recentemente a Deutsche Welle. O pão subsidiado é vendido por um peso cubano, e os moradores têm direito a um número limitado de pães por mês, anotados num cartão de racionamento. Mas é preciso encontra-lo, o que se torna cada vez mais difícil. Em padarias privadas ainda é possível encontrar pão, mas a um preço muito mais caro e inacessível para boa parte da população.
Aquela agência alemã de informação cita um estudo do Observatório Cubano de Direitos Humanos (OCDH) segundo o qual 88% dos cubanos vivem em extrema pobreza, situação que força muitos a tentar emigrar, numa tentativa para fugirem ao regime comunista, hoje dirigido pelo presidente Miguel Díaz-Canel, herdeiro e seguidor dos ditadores Fidel e Raul Castro e líder supremo do Partido Comunista, o partido único do país.
Segundo uma sondagem efectuada pelo OCDH, a crise alimentar é a principal preocupação dos cubanos (72%). Em seguida, aparecem os apagões (55%), a inflação e o custo de vida (50%), os baixos salários (49%), a saúde pública (21%) e a corrupção (20%). As faixas da população em pior situação são os idosos (78%), as pessoas que não recebem os antigos auxílios do regime por conta da crise (61%), os desempregados (44%) e os presos (26%).
Não surpreende, assim, que 91% dos cubanos reprovem o governo, contra apenas 4% que continuam a apoiar a gestão política, económica e social do regime. Cerca de 64% dos entrevistados consideram que o principal responsável pela falta de abastecimento alimentar é o governo cubano e a sua administração deficiente. E 26% apontam a corrupção como causa directa, enquanto apenas 8% associam a situação ao embargo dos Estados Unidos.
Segundo a OCDH, sintomaticamente, 53% dos cubanos, principalmente os mais jovens (dos 18 aos 30 anos), acreditam que o modelo capitalista norte-americano é a melhor opção para o desenvolvimento nacional, enquanto apenas 3% dos entrevistados vêem o actual modelo cubano como uma referência. As entrevistas para o estudo foram feitas em todas as províncias do país. A margem de erro foi de 2,8 pontos percentuais com um nível de confiança de 95%.
O descontentamento generalizado com a gestão estatal e o desespero pelas duras condições de vida têm-se traduzido em protestos cívicos, como o que ocorreu em Santiago de Cuba, onde os manifestantes gritaram frente à polícia “temos fome”. Em Maisí, mães bloquearam o trânsito exigindo água e comida e levantando a voz contra o regime. Por alguma razão as prisões da ditadura cubana estão cheias.
A cada mês que passa, o regime torna-se mais repressivo. Quase 3 milhões de pessoas fugiram de Cuba desde 2021, a maioria para os Estados Unidos. Mas muitos mais não conseguem abandonar a ilha e são vítimas da feroz perseguição da polícia política castrista-guevarista. No passado mês de Agosto, 13 novos presos políticos entraram na lista negra, somando um trágico recorde de 1.185 presos políticos em Cuba.
A repressão contra ativistas e manifestantes pacíficos continua a intensificar-se, deixando um rasto de violações sistemáticas dos direitos humanos e da legalidade. No último mês, as organizações humanitárias registaram um elevado número de casos de cidadãos detidos, processados e condenados arbitrariamente por exercerem o seu direito à liberdade de pensamento, expressão, manifestação e reunião, a causa mais frequentemente escolhida pelas autoridades cubanas para privar da liberdade milhares de pessoas todos os anos.
Os casos dos 13 novos presos políticos que entraram na lista negra em Agosto reflectem um padrão recorrente de perseguição política, uso desproporcional da força, fabricação de acusações e aplicação de penas criminais extremamente severas, tudo com o objectivo de silenciar qualquer forma de oposição ao regime cubano. Entre as vítimas encontram-se activistas e manifestantes pacíficos, cidadãos comuns, muitos deles em condições de especial vulnerabilidade, submetidos a tratamentos cruéis, espancamentos e longas detenções preventivas ordenadas pela acusação e sem qualquer tutela judicial. Eis alguns exemplos.
O trabalhador Adrián González Pérez foi detido em Agosto de 2025 após protestar publicamente contra o Governo de Cuba. Como se recusou a pagar a multa de 36.000 pesos a que foi “condenado” por inspectores estatais, foi preso sob a acusação de “desobediência e resistência”. Foi levado para a prisão provincial de Guantánamo, onde ainda permanece em prisão preventiva sem qualquer tutela judicial. Leonardo Maleta Veranes, proveniente do bairro Altamira, em Santiago de Cuba, foi detido arbitrariamente na noite de 25 de julho de 2025, após escrever slogans numa escola exigindo a libertação do activista José Daniel Ferrer e denunciando a ditadura. Torres Rodríguez, residente no bairro Versalles de Matanzas, foi detido em 11 de outubro de 2024 por agentes da Polícia Nacional Revolucionária após ter expressado publicamente críticas ao regime no seu perfil do Facebook. Pedro Luis Fernández Peralta foi preso em Havana por, supostamente, “organizar grupos que pintavam cartazes anti-governamentais”.
O sistema judicial cubano é usado diariamente como ferramenta de repressão e controlo social violento. O escritor e jornalista independente José Gabriel Barrenechea Chávez, de 53 anos, está há um ano preso por ter manifestado a sua opinião sobre o regime. O Ministério Público pede para ele 6 anos de prisão, argumentando a sua “total aversão ao processo revolucionário e ao seu máximo dirigente” nas redes sociais. Outros dois acusados, Yandri Torres Quintana, de 37 anos, e Rafael Javier Camacho Herrera, de 27 anos, enfrentam a pena mais alta, com 9 anos de prisão cada um. O seu “crime”: terem gritado na rua “Queremos electricidade!”…
Em 31 de agosto de 2025, a lista carcerária em Cuba incluía um total de 1.185 prisioneiros políticos e de consciência que sofrem sentenças judiciais ou disposições de limitação de liberdade por parte das Procuradorias sem qualquer supervisão judicial. De 1 de Setembro de 2024 a 31 de Agosto de 2025, a lista de prisioneiros políticos de Cuba somou um total de 152 novos reclusos (uma média de 13 novos prisioneiros políticos por mês).
Para além das torturas, privações e humilhações que sofrem nos cárceres do regime comunista, muitos cubanos presos são vítima de trabalhos forçados. O regime usa o trabalho escravo dentro das prisões com fins económicos e punitivos, sobre um total de 60 mil dos 90 mil reclusos e 37.458 condenados no país. Esta situação foi já denunciada pelo Comité de Direitos Humanos das Nações Unidas (A/HRC/57/46).
É esta a herança de fome, violência e corrupção deixada ao pobre povo cubano pela ditadura comunista castrista e guevarista. ■
A herança de fome do socialismo cubano




