A desastrada saga da TAP

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A TAP (Transportes Aéreos Portugueses) nasceu bem, no já recuado ano de 1945 (a 14 de Março), com gente capaz, gestão equilibrada, objectivos adequados e exploração sustentada. Criou uma boa escola na selecção e preparação das tripulações; o serviço era simpático, profissional e competente; a manutenção era boa e mantinham-se elevados padrões de segurança, tendo o primeiro acidente sério, apenas ocorrido em 19 de Novembro de 1977 (Se excluirmos a perda de um C-47, com três tripulantes a bordo, no Monte da Caparica, em 27/1/1948). Começou a criar nome e este passou a ser uma imagem de marca do país. O último ano em que a TAP gerou lucros com equilíbrio orçamental, foi, creio, em 1974, durante a Administração Vaz Pinto.

É certo que a TAP tinha uma grande preponderância sobre a então Direcção-Geral de Aeronáutica Civil (a concorrência era diminuta e a actividade aérea civil alargava-se apenas a meia dúzia de aeroclubes) e na gestão do espaço aéreo nacional, bem como gozava de alguma protecção em regime de monopólio, nomeadamente nas carreiras para os territórios ultramarinos portugueses. No âmbito da Defesa, dominava a Aeronáutica Militar e Naval e depois a Força Aérea.

Os problemas da TAP começaram em 1974, após a situação que derivou do golpe de Estado, alçado a revolução, em 25 de Abril de 1974. Como, aliás, praticamente todos os problemas que passámos a ter. Para ilustrar o ponto lembro o que escrevi num número da Revista “Mais Alto”, em 1986, onde provei, fazendo umas contas simples, que só o subsídio de almoço dos funcionários da TAP (calculados nessa época em cerca de 10.000 em Portugal e 2.000 no estrangeiro) custava ao erário público mais do que o orçamento da Brigada Ligeira de Paraquedistas que tinha então cerca de 3.100 homens… (“Regalias e Outras Coisas Mais”, Mais Alto, nº 241, Mai/Jun. 1986). Naqueles tempos conturbados, que ficaram para a História (até esta ser reescrita…) como os da implantação da “Liberdade” e da “Democracia”, o país foi atravessado por uma onda de anarquia que destruiu e/ou prejudicou todo o tecido produtivo nacional.

Quando as coisas começaram a estabilizar (levou 10 anos), a TAP ficou inundada de ‘boys’ e ‘girls’ dos diferentes partidos políticos entretanto formados, bem como ao despontar de inúmeros sindicatos, o mais poderoso dos quais se veio a revelar ser o dos pilotos e que, até hoje, nunca deixou de ser, verdadeiramente e apenas, o sindicato dos pilotos da TAP e não dos pilotos portugueses. Sendo a TAP do Estado (“nossa”, dizem eles!) assistiu-se a esta coisa única: passou a viver-se, simultaneamente, a dualidade da incompetência – pelo menos nenhuma administração conseguiu endireitar a empresa – e do despesismo das diferentes administrações (que vogavam ao sabor dos Partidos e suas conveniências), e à ditadura dos sindicatos, a quem as administrações sempre se vergaram (ajoelharam), para evitar conflitos internos e paralisações, sempre custosas, resultando num contínuo aumento das remunerações e benefícios vários, muito acima da linha média nacional. Os benefícios estendiam-se aos reformados, bastando dizer que uma boa refeição no refeitório da TAP custava uma quantia irrisória. Desconheço como está agora.

A operacionalidade também passou muito a desejar, com poucas horas de trabalho e excesso de períodos de descanso, sobretudo nas rotas de longo curso e com número excessivo de tripulações por aeronave. Quanto à manutenção, estive (era comandante do avião), por exemplo, mais de uma hora à espera de uma equipa de manutenção, que interrompeu o seu trabalho para ir jantar, sendo o contrato de outra companhia que não a TAP. 

Pelo meio houve a tentativa mal sucedida da criação da “Air Atlantis”, para operações ‘charter’, e da “LAR”, linhas aéreas regionais, em 1985; tentou-se uma fusão, com a “Swissair”, que resultou em nada e alguns prejuízos e uma aproximação com a Ibéria que deu ‘bluff’; fez-se um contrato ruinoso com uma companhia de manutenção brasileira, em 2006; mandou-se várias vezes pessoal para casa com reformas antecipadas, para passados poucos meses já lá terem mais outra catrefada de “colaboradores”; e arranjou-se maneira de haver um conflito com os pilotos para se reformarem aos 60 anos (um erro crasso) para a seguir novamente passar para os 65 anos. Nem a adesão à “Star Alliance”, em 2005, tirou a TAP do vermelho. Fora o muito que fica por dizer.

Com tudo isto, só por milagre qualquer empresa conseguiria gerar lucro, mesmo se a operação fosse muito lucrativa. Deste modo, a TAP só teve, aparentemente um ano de contas positivas uma única vez desde 1974, tendo acumulado dívidas sucessivas que nunca conseguiu pagar. Tão pouco gerou dividendos (a não ser para as administrações!) que permitissem renovar a frota, sendo esta feita à custa de mais dívida. Nunca houve coragem, saber e querer para fechar a TAP um dia e reabri-la no dia seguinte, com regras completamente novas. A situação foi-se deteriorando, até que um governo PSD/CDS, que teve de fazer frente a uma bancarrota do País e com os “capatazes” da “Troika” a vigiá-lo, resolveu acabar com o “cancro” em que a TAP se tornara (como tantas outras empresas) e intentou privatizar a companhia – o que já tinha sido tentado do anterior sem sucesso. Desta vez a tentativa não só resultou como, aparentemente, foi a melhor privatização feita durante esta malfadada III República. Tudo feito no meio dos protestos das carpideiras do costume que, até hoje, pouco fizeram para sanear devidamente qualquer empresa nem apurar responsabilidades sobre má gestão. O governo insistiu mas, nas eleições seguintes, tendo-as ganho, perdeu o Governo. Originalidades portuguesas…

O novo executivo (da “geringonça”), dando voz e corpo às tais carpideiras (de lágrimas de crocodilo), foram-se aos então sócios maioritários da TAP e negociaram com eles uma retrocessão do acordado, ficando então o Estado com 50% do capital, mas não tendo direito a interferir na gestão operacional da empresa… Mais uma originalidade (trapalhada) portuguesa, que deve ser única no mundo. E agora chegou-se à situação de, não querendo ver a companhia desaparecer numa vergonhosa falência – atirada ao tapete pela epidemia do Covid 19, mas já com graves problemas do anterior – vai-se optar por salvá-la precariamente, à custa de vários artifícios e, claro, injectando uma palete de dinheiro retirado dos fundos públicos. A receita (suicidária) e costumeira, agora capitaneada por um ministro com laivos de arruaceiro meio histérico. E que ainda teve o despautério de afirmar que se iria contratar uma empresa a fim de esta descobrir os melhores gestores a nível do mercado internacional para virem gerir o que vai emergir deste conjunto de cacos… Aposto desde já, o que quiserem, que daqui a dois ou três anos, vai estar tudo de pantanas novamente.

Por isso bem podem vir aqueles que se dizem “Tapistas” a gritarem bem alto que a empresa gera um negócio de muitos milhões; dá emprego a muita gente; é um grande factor de exportação e importação (afinal os termos equiparam-se?); carreia turistas; “vende” a imagem de Portugal, etc.. A TAP desde 1974 que não se sustém a si própria, é um foco de destabilização social e uma vaca com muitas tetas, que tem alimentado muitos gulosos. E deixou de ser, desde aquela data, uma história de sucesso, apesar dos vários galardões com que foi distinguida. Os braços da balança estão irremediavelmente inclinados para a insustentabilidade, seguindo-se o modelo e objectivos que até agora vigoraram, o que fere gravemente o interesse nacional, que todos os filhos d’algo evocam e sempre desprezam. Também tenho pena (e revolta) daquilo em que a TAP se tornou, que é um dos espelhos em que o nosso (?) desgraçado país se transformou.

A TAP é apenas mais um episódio do desmantelamento do país em curso: a alienação de soberania; a almoeda a patacos do patriotismo; a prostituição da nacionalidade; a venda da finança (e não só) aos espanhóis; a crise da Igreja; a corrupção dos costumes e dos negócios; a destruição da Instituição Militar e da Diplomacia; a propalação de mentiras históricas; a destruição da matriz cultural portuguesa; o descalabro criminoso do ensino; o caótico sistema de justiça; a falsa segurança interna, o erro sistémico do regime político e da Constituição; o desregramento (falta de uma Ideia e um Plano) da Economia; o desprezo pela Estratégica e pela Geopolítica; a subversão da Autoridade sem a qual nada se pode realizar. Não há uma que se aproveite, nem problema que se resolva. Minto: há o vinho; a sua qualidade, e até o preço, recomendam-se. É curto, mas vai dando para andarmos alegretes, ou já nem isso. ■