O racismo: dos EUA a Portugal

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Um amigo norte-americano pergunta-nos se em Portugal não se passa algo que se possa comparar ao que recorrentemente acontece nos Estados Unidos da América, no plano das relações inter-raciais.

Respondemos-lhe que não, apesar de algumas pessoas (cada vez mais, reconheça-se) procurarem projectar na realidade portuguesa grelhas de análise que, fazendo sentido nos Estados Unidos da América, têm pouco ou nenhum cabimento entre nós.

Pergunta-nos igualmente se em Portugal não há presença do “supremacismo branco”, de novo tão expansivo nos EUA. Há, respondemos, mas de forma absolutamente residual – apenas como uma imitação forçada de correntes norte-americanas e (norte-)europeias, que pouco ou nada têm a ver com a nossa história e cultura (e que, por isso mesmo, não têm tido real expressão entre nós).

Falamos-lhe ainda das teorias luso-tropicalistas que, da esquerda à direita, foram historicamente uma aposta (ainda que, nalguns casos, mais na teoria do que na prática) de promover uma sã convivência inter-racial. Daí, desde logo, a subtil, a abissal diferença entre o que se passa nos EUA e no Brasil, a esse nível (sublinhando: a esse nível).

Damos-lhe igualmente o exemplo de Marcelino da Mata – um guineense de origem que se tornou no militar português mais condecorado de sempre e que, regularmente, é homenageado pela nossa direita dita “mais radical”. Algo, decerto, impossível de acontecer entre a direita “mais radical” norte-americana. Não é difícil de imaginar o que diriam a este respeito: “O quê?! Vocês homenageiam um preto, um africano?! Não têm nenhum branco, nenhum europeu, para homenagear?!”.

Agostinho da Silva, esse grande sonhador de uma comunidade lusófona multicolor, multirracial, escreveu que “cada povo é o que é, mesmo antes de o ser” (in “Reflexão à margem da literatura portuguesa”). Acompanhando-o nesse sonho, não concordamos porém com esta sua afirmação: cada povo é, por inteiro, a nosso ver, uma construção histórico-cultural. Mas daí toda a diferença: histórica e culturalmente, os EUA construíram-se na descriminação racial; histórica e culturalmente, Portugal procurou seguir um outro caminho.

Por isso mesmo, porém, nada garante que assim continue a ser: nem o povo norte-americano está predestinado a continuar a ser um povo racista, como em grande medida ainda é; nem o povo português está predestinado a ser, de longe, o povo menos racista da Europa, como não nos cansamos de o reiterar. As matrizes histórico-culturais, não sendo vacinas perpétuas, são todavia importantes. Seria preciso que Portugal se estrangeirasse por inteiro para que a nossa matriz histórico-cultural se adulterasse a esse ponto. Mesmo sabendo que, tanto à esquerda como à direita, há quem muito pugne por isso, não acreditamos, de todo, que tal venha a acontecer. Já são quase nove séculos de história… ■