DRIL: a “ligação terrorista” do general Delgado

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Os factos estão hoje tão provados e documentados que ninguém tenta sequer balbuciar um desmentido. Depois das revelações feitas nas últimas semanas pelo insuspeito jornal ‘El Pais’, não resta já a menor dúvida: o Directorio Revolucionario Ibérico de Liberación (DRIL), organização armada constituída por oposicionistas portugueses e espanhóis, foi responsável pelo assassinato de uma criança de vinte meses num atentado bombista em San Sebastián, no País Basco, e por várias outras acções de alta violência.

Sessenta anos após o crime, uma investigação do ‘Memorial de Víctimas del Terrorismo’ trouxe à luz do dia documentos inéditos das autoridades policiais de San Sebastián que reconstituem os movimentos de Guillermo Santoro, o terrorista do DRIL responsável pela colocação da bomba que em 27 de Junho de 1960 deflagrou na estação ferroviária de Amara, na capital da província basca de Guipúzcoa, matando Begoña Urroz Ibarrola, uma menina de 20 meses.

Como a polícia espanhola nunca conseguiu prender os responsáveis do DRIL, que acabaram por ser amnistiados em 1977, depois da morte do Generalíssimo Franco, o atentado foi durante décadas atribuído genericamente à ETA, a organização separatista basca. Mas a investigação empreendida pelo historiador Gaizka Fernández Soldevilla, do ‘Memorial de Víctimas’, permitiu agora determinar os verdadeiros autores: os militantes do DRIL, uma organização terrorista que se “inspirava” na revolução cubana de Fidel Castro.

O atentado de Amara chocou de tal modo a opinião pública espanhola, e de forma tão duradoura, que em 2010 o Congresso espanhol fixou em 27 de Junho o Dia das Vítimas do Terrorismo.

Os documentos agora revelados permitem também atribuir ao DRIL outros atentados à bomba perpetrados em diversos locais de Madrid em 18 de Fevereiro de 1960.

Galvão assume

Dias depois do atentado de Amara, em San Sebastián, a polícia registou o depoimento de uma funcionária do depósito de bagagens da estação ferroviária, Soledad Arruti, que reconheceu Guillermo Santoro, o terrorista galego que ali depositou a mala que continha a bomba, no dia anterior, pelas sete da tarde. O terrorista Santoro foi ainda reconhecido pelo dono da loja onde comprou a mala, dias antes, bem como os empregados da pensão onde se hospedou na noite anterior ao crime. E a polícia identificou, logo na altura, o terrorista Reyes Marín, também do DRIL, como cúmplice de Santoro. 

O mais extraordinário em toda a investigação foi, no entanto, a revelação de que o atentado de Amara fora de facto reivindicado pelo DRIL – não na Europa, mas na Venezuela, e pela boca do ‘operacional’ máximo do “ramo” português da organização, o capitão Henrique Galvão. Em declarações ao jornal ‘El Nacional’, de Caracas, Galvão afirmou logo em início de Julho de 1960 que o DRIL fora responsável pela colocação da bomba na estação e ainda por diversas explosões nas estações ferroviárias de Madrid e do Norte, em Barcelona, em 26 de Junho, bem como por uma explosão em 29 de Junho na estação de Atxuri, em Bilbao.

Por que razão a oposição portuguesa no exílio nunca difundiu na Europa estas declarações de Galvão e tudo fez para que a sua ligação ao terrorismo ibérico ficasse esquecida por tantos anos? Mistério…

Dois meses depois do atentado de San Sebástian, a polícia belga deteve 14 dirigentes do DRIL (entre os quais Santoro e Marín) num apartamento de Liège onde o grupo terrorista guardava armas e explosivos. As autoridades de Madrid requereram imediatamente a sua repatriação para serem julgados em Espanha, mas o pedido foi recusado. O caso arrastou-se na justiça, até que em 1977 uma amnistia os livrou de qualquer castigo. E no ano seguinte o ex-terrorista José Fernández Vázquez publicava as suas memórias, confessando então, pela primeira vez, que fora o DRIL o responsável pelo atentado em que a menina perdera a vida. A prova documental só agora surgiu.

Portugueses no DRIL

O DRIL foi criado em Janeiro de 1960, em Caracas, na Venezuela, por dois grupos distintos que pretendiam “uma aliança entre exilados políticos portugueses e espanhóis”. Pelo lado português participou na fundação o Movimento Nacional Independente (MNI), cujo presidente era o general Humberto Delgado; e pelo lado espanhol entrou a Unión de los Combatientes Españoles, um grupelho “pouco numeroso e pobre, mas com ligações activas na Europa” (como relata o próprio Galvão no seu livro de memórias “O Assalto ao Santa Maria”, p. 143). Como responsáveis máximos do DRIL foram designados, numa solução bicéfala, o general Delgado e o revolucionário galego Xosé Velo Mosquera. Em Caracas, a direcção operacional do DRIL, também bicéfala, ficou a cargo do capitão Henrique Galvão, dissidente do Estado Novo, e do espanhol José Fernández Vázquez (que usava o ‘nome de guerra’ de “Comandante Jorge de Soutomaior”), ex-comunista e ex-combatente republicano na Guerra Civil, agora deslumbrado pelo ‘castrismo’ cubano.

A primeira acção terrorista do DRIL realizou-se logo no mês seguinte, Fevereiro de 1960, quando um ‘comando’ integrado por José Ramón Pérez Jurado e Antonio Abad Donoso (este, ido de Cuba com apoio de Fidel) fez explodir diversas bombas em Madrid. O primeiro morreu no acto e o segundo foi preso e executado (a pena de morte ainda existia então em Espanha). A segunda “façanha” do grupo consistiu em dinamitar as estações ferroviárias de Madrid e de Barcelona, em 26 de Junho. A terceira foi o atentado de Amara, em 27 de Junho de 1960, cuja trama foi agora desvendada. 

O DRIL prosseguiu na sua senda bombista e terrorista em território espanhol, nunca se atrevendo a tentar uma actuação idêntica em Portugal. Acabou por extinguir-se em 1964, roído por desinteligências e guerras intestinas.

Porém, a acção do DRIL que mais tem sido estudada pela historiografia portuguesa é a “Operação Dulcineia”, pela qual os terroristas tomaram e desviaram da sua rota o paquete português de longo curso Santa Maria, da Companhia Colonial de Navegação, em Janeiro e Fevereiro de 1961, num golpe de propaganda destinado a embaraçar Oliveira Salazar a nível internacional.

No mar alto

A “Operação Dulcineia” foi gizada pelo ‘ramo’ do DRIL em Caracas, mais concretamente pelo capitão Galvão e pelo “Comandante Soutomaior”, com o auxílio de outros exilados portugueses e espanhóis, entre eles Camilo Mortágua, mais tarde militante da LUAR (e hoje mais conhecido como pai das duas gémeas com o mesmo apelido, dirigentes do Bloco de Esquerda).

O Presidente eleito John Kennedy fez o seu juramento de posse em 20 de Janeiro de 1961, em Washington. Dois dias depois, o ‘comando’ terrorista do DRIL embarcava no Santa Maria, no porto venezuelano de La Guaira. Objectivo: tomar o comando da embarcação em águas internacionais das Caraíbas, desviá-la da sua rota, mantê-la fora do alcance dos radares, dirigi-la à ilha africana (possessão espanhola) de Fernando Pó e à Guiné Equatorial espanhola, onde os assaltantes se apoderariam de armamento, e daqui partir à conquista de Luanda, onde seria proclamado um “Estado livre e democrático”.

Pode perguntar-se se Humberto Delgado estava a par das actividades do DRIL a ponto de poder ser considerado co-responsável por elas. No que ao terrorismo na Europa dizia respeito, não podia deixar de estar: com o seu nome ombreando com o de Xosé Mosquera na chefia suprema da organização, era impossível que ignorasse o ribombar dos explosivos em Madrid, tanto mais que o capitão Galvão reivindicava publicamente para o DRIL a respectiva autoria.

No caso da “Operação Dulcineia” (nome de sabor romântico com que os terroristas pretenderam “dourar” a sua acção violenta), acompanhou a par e passo a organização do ataque. Ele próprio revela nas suas “Memórias” (p. 174) que Galvão lhe confiou os planos do grupo do DRIL em Caracas logo em Abril de 1960, mais de nove meses antes do ataque ao navio. As suas responsabilidades pessoais, de resto, foram posteriormente confirmadas pelo próprio quando, já com o Santa Maria tomado pelas armas, o general se assumiu publicamente como líder máximo do assalto, desdobrando-se em declarações à imprensa, e mais ainda quando, no final da “Operação Dulcineia”, entrou a bordo na sua qualidade de co-presidente do DRIL para felicitar Galvão e colher os aplausos dos terroristas.

Planos furados 

Como se sabe, a operação correu mal. Desde logo, durante a tomada violenta do navio, no dia 22 de Janeiro, o terceiro piloto João Nascimento Costa ofereceu resistência na ponte de comando e foi abatido a tiro, ficando ainda gravemente ferido um outro oficial. Depois, a rota dos assaltantes teve de ser alterada para deixar em terra, ao largo de Santa Lucia, um passageiro doente e o oficial ferido. No dia 25, apenas três dias depois de sair de La Guaira, o Santa Maria tinha sido localizado. 

Com as forças navais de vários países aliados de Portugal no encalce do navio roubado, Galvão e Soutomaior (que entretanto já se tinham incompatibilizado a bordo, reclamando ambos o comando do Santa Maria) tiveram de desistir dos planos de incursão africana. No dia 3 de Fevereiro, os assaltantes entregavam-se às autoridades brasileiras e pediam asilo político ao novo Presidente, Jânio Quadros, que acabara de ser empossado em Brasília em 31 de Janeiro. Enquanto aguardavam a decisão, com o navio ancorado no Recife, o general Humberto Delgado subiu a bordo para se assumir como principal responsável pela operação, na sua qualidade de co-presidente do DRIL. 

Frustrara-se o intento do DRIL de rumar a Luanda e ali proclamar Angola como “o primeiro território português livre”. 

“500 homens” da UPA

Com vista a essa proclamação, Delgado e Galvão, dois dos mais proeminentes chefes do DRIL, enviaram o socialista português Gil Clemente, como seu representante autorizado, a encontrar-se em Léopoldville, no Congo belga, com o chefe terrorista negro Holden Roberto, líder da UPA (União das Populações de Angola), a quem solicitou a contribuição de “500 homens” para “participarem em acções militares no momento da chegada do barco Santa Maria a Luanda”, como o chefe bacongo contou mais tarde. 

Mas nem o Santa Maria chegou a Angola nem Holden mobilizou os 500 terroristas solicitados: receoso de uma cilada, ignorou o mensageiro de Delgado e concentrou-se no seu próprio plano terrorista. Incluído na folha de pagamentos da CIA com 6.000 dólares anuais, Roberto viria a dar luz verde ao tenebroso plano de ataque às fazendas do distrito do Congo, no Norte de Angola, em 15 de Março de 1961, em que foram chacinados milhares de colonos brancos e negros.

Menos de um ano depois da “Operação Dulcineia”, o general Humberto Delgado estava incompatibilizado com Henrique Galvão e o próprio DRIL, dilacerado por lutas internas, suspendia a sua actividade. E em 1964 estava extinto, não sem antes averbar no seu cadastro negro alguns dos mais sangrentos atentados bombistas em lugares públicos.

É devido a esta ligação indesmentível do general a uma organização responsável por crimes de sangue que André Ventura defende que o Aeroporto da Portela deveria chamar-se “Amália Rodrigues” – e não “Humberto Delgado”, como agora oficialmente lhe chamam. ■