Guerra pelo novo terminal de Sines

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Xi nasceu um “príncipe vermelho”, filho de um revolucionário companheiro do próprio Mao Tsé-Tung e alto dignitário do Partido Comunista Chinês (PCC). Tinha Xi 10 anos quando o seu pai cai em desgraça na sequência de uma purga feita por Mao. O jovem Xi perde todos os privilégios, mas estoicamente enfrenta tudo com convicção pessoal e dedicação ao PCC. Anos mais tarde, depois de morte de Mao, e recuperado o estatuto, Xi opta por fazer o seu percurso desde a base. Ao contrário de outros delfins comunistas, sobe a pulso nas fileiras do partido. Insidiosamente chega ao topo graças à postura ‘low profile’, mas assim que pôde, maquiavelicamente, eliminou os opositores. É este homem persistente, inteligente e calculista que domina em absoluto o PCC e consequentemente o país.

A China é hoje uma ditadura expansionista perigosa. Com todos os tiques totalitários do regime comunista de Mao, mas agora armado com o mais feroz pragmatismo do capitalismo. Não há dúvidas sobre os reais objectivos postos a claro pela postura opressiva do regime e de Xi. O esmagamento do Tibete, os campos de concentração (para onde foram enviados dezenas de milhares de membros da minoria Uigur) e a paulatina e sistemática erosão das liberdades e direitos em Hong Kong mostram o que significa estar sob o controlo da China.

Internamente, o controlo permanente sobre todos os cidadãos é cada vez mais apertado. Várias regiões já implementaram medidas que igualam ou superam a distopia ‘Big Brother’ de Orwell. Há câmaras de vigilância por toda a parte, controlando até as entradas e saídas de casa.

E, no entanto, os governos do mundo inconsequentemente cooperam quase sem restrições com a China. E se outras ditaduras naturalmente têm até interesse em ter parceiros iguais, países pouco desenvolvidos precisam desesperadamente de qualquer ajuda. O ocidente rico e supostamente cheio de liberdade e justiça, hipócrita e interesseiramente dá a mão a empresas chinesas que são na prática o braço armado do governo chinês na guerra económica que está a ser travada

Um ‘cavalo de
Tróia’ económico

A táctica da China é simples: consiste em, através de companhias dominadas pelo Estado, comprar posição em empresas estratégicas, como fez em Portugal. Ou então disponibilizar empréstimos para grandes obras, realizadas por empresas chinesas, que acabam por ser inevitavelmente entregues à China como forma de compensação pelo incumprimento dos pagamentos da dívida.

De uma forma ou outra, são cada vez mais os países que vão passando para a esfera de influência do regime de Xi, passando a estar condicionados por Pequim para apoiarem as suas iniciativas ou defenderem a China nas Nações Unidas e outras instituições internacionais.

O projecto de Xi que passa à prática esta estratégia tem por nome “Belt and Road Initiative” (BRI). É um gigantesco plano para ligar a China até à Europa enlaçando toda a Eurásia através de estradas, ferrovias e ligações marítimas. São muitos os países que aderiram à iniciativa e acabaram afogados em dívidas e forçados a ceder os direitos de exploração dos projectos por 99 anos. Sri Lanka, Malásia e Paquistão são alguns dos mais flagrantes exemplos de vítimas da “generosidade” chinesa. Mas vários governos Europeus já abertamente cooperam com a iniciativa, ansiosos pelo investimento externo.

Dividir para conquistar

A Grécia durante o governo de Alexis Tsipras acolheu de braços abertos o investimento chinês, considerando a compra do porto do Pireu, em Atenas, a abertura da porta de entrada da China na Europa. Em 2017, a Grécia bloqueou uma declaração da UE condenando as violações dos direitos humanos na China, chegando ao ponto de declarar que se tratava de “uma crítica não construtiva à China”. Sendo esta a primeira vez que tal aconteceu.

No mesmo ano, a Hungria de Viktor Orban, que já assinou um acordo com a China para modernizar a ligação ferroviária entre Belgrado e Budapeste, impediu o consenso na UE ao recusar assinar uma carta conjunta denunciando a tortura de advogados presos pelo regime. Ambos os países continuam renitentes em criticar a actuação da China no Mar do Sul da China, impedindo a UE de ter uma voz unida nessa crítica questão geopolítica internacional.

Naturalmente que a China não pretende dominar directamente os países membros da UE. São parceiros comerciais fundamentais sem os quais a China não conseguiria prosperar. O objectivo é silenciar as vozes discordantes e bloquear qualquer iniciativa que condicione as políticas chinesas. A incapacidade da UE para funcionar em bloco ficou clara com a resposta atabalhoada e descoordenada no combate à pandemia de covid-19.

Um dos principais alvos da BRI têm sido os portos. A lista de grandes terminais de contentores onde a China tem investido directamente é impressionante. Como se pode ver na imagem, já tem presença por toda a Europa e países do Norte de África. Controlar as rotas e os interfaces comerciais é determinante para o sucesso da ascensão da China como potência dominante num futuro mais ou menos próximo.

Ora o porto de Sines, dominado pela PSA de Singapura, vai em breve expandir significativamente e pode ter importância decisiva na estratégia chinesa.

Guerra China-EUA
pelo porto de Sines

Os EUA continuam a ser a maior economia do mundo, e obviamente não vão passivamente assistir à expansão da influência chinesa no mundo. E mesmo a incerteza em relação às próximas eleições presidenciais não terá influência nesse capítulo.

Recentemente, o secretário de Estado para a Energia dos EUA, Dan Brouillette, acompanhado pelo ministro português das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, visitou o porto da costa alentejana, tendo declarado o interesse dos Estados Unidos no leilão, dado que Sines é um ponto estratégico para os norte-americanos.

Alguns meses antes, Lu Hao, ministro dos Recursos Naturais da China, acompanhado pela então ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, ficou a conhecer todos os detalhes do projecto. A ministra confirmou o interesse manifestado por investidores de ambos os países e declarou que “a proposta vencedora será aquela que oferece maiores benefícios a Portugal, independentemente do país de origem do operador”.

O porto de Sines tem um peso de 1,5% na economia nacional, de 2% no emprego e representa mais de 56% da carga contentorizada movimentada nos portos comerciais do Continente. Devido à pandemia, o concurso para a concessão do Terminal Vasco da Gama foi adiado para 6 de Abril de 2021.

O novo terminal terá uma capacidade de movimentação anual de 3,5 milhões de TEU (Unidade equivalente a 20 pés – unidade de medida da carga contentorizada) e um cais com um comprimento de 1.375 metros com três posições de acostagem simultânea, o que lhe permitirá receber os maiores navios do mundo. No total, o novo terminal representará um investimento estimado em cerca de 642 milhões de euros, com 225 milhões aplicados em equipamentos e 417 milhões em infraestruturas. 

Estima-se que gere um impacto económico total de 524 milhões de euros, representando 0,28% do Produto Interno Bruto e 0,33% do Valor Acrescentado Bruto português e que crie 1.350 postos de trabalho directos na fase de exploração. ■